A CASA
Bela casa de argila, pedra e cal,
Onde morei e vi nascer meus filhos
Que a deixaram silenciosa, emudecida,
Quando partiram a conquistar seu mundo.
Lar onde o sorriso da mulher amada
Encheu de intenso júbilo cada dia,
Afugentando presságios e tristezas,
Transformando pesares em alegrias.
Não te abandono ao te deixar, agora.
Antes te amo como aos seres vivos
Que do nosso destino fazem parte,
Vez que conosco caminhos palmilharam.
Deixa-me rever, bem calmo, cada canto,
Cada palmo do espaço desfrutado,
E olhar da janela estrelas contempladas
Em horas tardias de priscas madrugadas.
Um dos primeiros a ocupar teus cômodos
Hoje vês, sou o último a te deixar,
Quando encanecido e solitário parto
Para nova existência começar.
Vozes e passos ecoam em tuas salas,
Nos luzentes degraus de tua escadaria
Que os risos infantis tumultuavam
Do alvorecer ao término do dia.
Sigo, enquanto tu ficas silente, desejável,
Materna e acolhedora como ao tempo
Em que aos costumes os livros se juntavam,
E reverente e hospitaleira te mostravas.
Lembro que o nosso alimento eram as letras
E a poesia o buquê do vinho que bebíamos.
Por isso ao partir me sinto deprimido,
Convicto, porém, de que assim é a vida:
O homem tentando ordenar a vida
Preso, porém, ao contingente fado,
Que o atrelam aos acontecimentos
Sem que a eles deseje estar ligado.
Não me iludo por ver-te desolada,
Muda e silenciosa como são as casas
Quando os que as habitaram vão embora
Sem afinal saber por que o fazem.
Por isso hoje me sinto entristecido
E em pensamentos vagos mergulhado,
Como se as tuas feridas me doessem,
Como se aminha melancolia te tocasse.
Escrito por Nilson Patriota às 19h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CRENÇA AMBÍGUA
Talvez não seja mais que uma metáfora
Aquilo em que verdadeiramente penso acreditar
E Isaac Bashevis Singer proclamava:
Que na retaguarda de todas as ilusões
Um ser superior há de sempre encontrar-se.
Eu O idealizo a construir protótipos
De portentosa consciência cósmica
Nas galáxias sidéreas, nas espirais gasosas,
Entre o fogo, o urânio e o metano,
Com que são modeladas infinitas formas
De deuses bons, clementes e verazes,
E de outros deuses feros e medonhos
Que aos nossos destinos são ligados.
Em que âmbula do tempo se recolhe e sonha
O Deus que amedronta e nos dá esperança
De descendermos de Sua ígnea linhagem?
Preso a este mistério, trêmulo e mudo me abismo,
Por suspeitar que a vida que amamos,
E que um dia fatalmente perderemos,
Não seja nossa nem desse divino Deus a quem amamos,
Mas tão-só ilusão,
Um momentâneo sonho.
Escrito por Nilson Patriota às 23h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PRIMÓRDIOS DA AVIAÇÃO (101 anos do vôo de Santos Dumont)
Alguns outros aeronautas disputaram a primazia do primeiro vôo. Entre estes, Gabriel Voisin, Luois Blériot, Trajan Vuia, Henry Ferman, Wilbur e Orville Wrigth. Hoje, entretanto, sem dúvida sabemos que ao inventor brasileiro Alberto Santos Dumont se deve o feito de ter realizado o primeiro vôo de um objeto mais-pesado-que-o-ar. E assim fazendo, ele foi capaz de demonstrar a viabilidade de seu projeto aeronáutico. Os jornais franceses da época encarregaram-se de transformar seu ousado feito em imorredoura glória.
Depois de estudos e tentativas, a 23 de outubro de 1906, Santos Dumont na capital da França, provou ser possível ao homem voar. Ele então pilotava uma geringonça de ferro e pano, por ele projetada e construída, batizada com o nome bizarro de 14 Bis. Tal feito, realizado num tempo em que o homem procurava tornar possível o que fora a malfada aventura de Ícaro, presente na lenda grega, acrescendo glória a seu nome e orgulho imorredouro a sua pátria, o Brasil. Seu vôo, o primeiro a ser documentado na história da aviação, tornou-se um feito do conhecimento mundial.
Antes desse vôo, Dumont havia se dedicado aos balões. Já em 1901, perante uma comissão do Aeroclube de França, Santos Dumont pilotara um balão esférico, de motor a explosão, realizando o percurso de Saint-Cloud à Torre Eifel, que foi garbosamente contornada. Dali o aeronauta levou seu artefato ao ponto de partida, garantindo a dirigibilidade dos balões.
Em 1904, porém, sua maior preocupação era poder elevar ao espaço o mais-pesado-que-o-ar, o que só seria possível, como sabemos, em 1906. Embora o 14 Bis haja se tornado famoso, foi o Demoisele, ou Libélula, frágil e delicado avião – pioneiro do modelo de asa alta usado até hoje – o que mais se popularizou. Nele, de 1907 a 1910, Dumont fez numerosos vôos.
Durante a Primeira Guerra Mundial, poucos anos depois do feito de Santos Dumont, o aeroplano, concebido para fins pacíficos, passou por constantes transformações a fim de se transformar numa arma mortífera, como tem acontecido com muitas das maravilhosas invenções do homem.
Escrito por Nilson Patriota às 17h59
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A CAPELA BARROCA DE TOUROS
A vila de Touros era uma simples povoação de pescadores cujo início se deu na segunda metade do século XVII. Para chegar ao mar, a fim de efetuarem as suas pescarias, precisavam atravessar uma velha pinguela improvisada sobre o rio Jequi, ou Maceió, com troncos de coqueiro. Conta a lenda que três homens, em fins do século XVIII seguiam em demanda do mar com os seus apetrechos de pesca, quando foram surpreendidos pela presença de uma grande arca que, entrando barra dentro, havia ancorado à margem direita do rio, num ponto próximo de onde futuramente se ergueria a ermida de invocação ao Senhor Bom Jesus dos Navegantes. Intrigados com o que encontravam, os pescadores quiseram saber o que continha a arca. Quem sabe se não trazia mercadorias? Quem sabe se não vinha conduzindo riquezas?... Os três, sem perda de tempo, puseram seus trastes de lado e entraram na corrente. A arca se achava cerrada. Mesmo cheios de superstições e muito medo, os homens conseguiram empurrá-la para um ponto enxuto do terreno. Então, usando toscos instrumentos, ergueram a tampa da arca e tomaram formidável susto. Toda envolta em retalhos de alvo linho, a imagem de um Crucificado do tamanho de um homem se encontrava cravada numa cruz. Impressionados com a inusitada descoberta, naquele dia desistiram de pescar, levando em seus ombros a delicada imagem até o arruado, onde trataram de mostrá-la a uns e a outros. Aqueles que a viam caiam de joelhos emocionados, e, cheios de fé, passavam a rezar e a louvar o admirável ícone. E assim continuou acontecendo com todos os demais que se emocionavam ao ver a imagem.
Não tardou o momento em que a maioria dos habitantes do lugarejo deixasse suas choças e acorresse ao local onde a imagem se achava. Em poucos dias, uma comissão foi despachada ao Senado da Câmara, na capital, levando a boa nova aos oficiais da casa legislativa que ali representavam os cidadãos da Capitania. No plenário do colegiado houve grande celeuma. Alguns dos senhores vereadores quiseram ver in loco o fenomenal achado. Em poucos dias a povoação regurgitava de curiosos e homens e mulheres cheios de fé que se ajoelhavam aos pés da imagem para rezar e fazer pedidos. Como a povoação não dispunha de um lugar adequado para abrigar o santo em seu madeiro, logo puseram mãos à obra no sentido de construírem um cômodo com taipas e palhas de coqueiro, no qual as pessoas compareciam para fazer oferendas e adorar a imagem. Religiosos e conscientes de seu papel, Manoel Dias de Assunção e sua mulher Joana Tavares da Costa, proprietários da sesmaria do porto de Touros, resolveram entrar com os recursos para a construção de um pequeno templo. Corria o ano de 1799 quando deram início à edificação de uma capela com planta vinda do bispado de Olinda e Recife e dois religiosos arquitetos que ficariam responsáveis pela obra.
Os religiosos assumiram o comando da construção tendo como operárias as pessoas do lugarejo que, arrancando pedras das falésias, dispostas à beira-mar, e areia das dunas, não deixaram que faltasse material ao pé da obra. De tal forma o trabalho foi desenvolvido, que no ano seguinte, 1800, a capela estava terminada.
Três décadas se passaram, quando a chegou a Touros o Juiz de Paz Joaquim Xavier Velozo demonstrando interesse pela elevação da capela em igreja e falando, consequentemente, na criação de uma freguesia. Então passou a se movimentar desmembrá-la da Paróquia de Estremoz. Esta, por ser muito extensa, podia ceder uma fatia do seu território. O caso foi levado ao Conselho Provincial, que votou a Lei Geral de 05 de setembro de 1832. Criada a freguesia, já no ano seguinte surgiu o município.
Monumento barroco de sóbria beleza, o templo de Touros passou por modificações e melhorias. A tradição atribui a Frei Serafim de Catana e a seu assistente, Frei Herculano, a sobriedade do aspecto arquitetônico da igreja que fora edificada a partir de matérias primas da região, tais como madeira, cal, areia, pedra e barro. Mas as imagens que compuseram seus altares vieram, em sua grande maioria, de Pernambuco.
FONTE: PATRIOTA. Nilson; TOUROS – UMA CIDADE DO BRASIL; Departamento de Imprensa; Natal-RN – 2000.
Escrito por Nilson Patriota às 15h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A LUA SOBRE AS ÁGUAS
Ontem, como o cristal desbotado
De imemorável aurora,
Pendia e se debruçava sobre as águas
[E a vertigem do tempo]
A lua de Catulo da Paixão Cearense
E Chiquinha Gonzaga.
E enquanto a brisa volúvel
Marolas encrespava no calmo Potengi
[O rio dos boêmios e poetas de outrora]
Qual metáfora do cego
E no entanto luminoso olhar de Homero
[Que a Ulisses guiou por ilhas ignotas
E encapelados mares
Que sua idolatrada Ítaca
Da pujante Tróia separavam]
A propícia lua trouxe-me à memória
Serestas de Itajubá e Deolindo Lima
Lapidares sonetos de Gothardo.
Ébrios de luz e de vivências nativas
Sonharam mil amores nossos bardos
E níveas madrugadas animaram
De violão em punho a entoar canções.
E para que mais perfeita fosse
A peça trabalhada
Ao urdirem a trama de seus nímios versos
Davam, por precaução, uma última limada
Na álgebra da rima, na feitura da métrica
Das canções e modinhas soluçadas.
Livres agora do rotineiro esforço
Da modesta vida em que se empenharam
E já indiferentes ao tempo que se escoa
–Ao suor do mortal, ao sal de cada lágrima –
Cantam líricos poemas entre os astros:
Compensados – não menos - por saberem
Que os românticos versos que talham
Hoje são para nós um imortal legado
Na suntuosa majestade de seu brilho
Escrito por Nilson Patriota às 22h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
NOVAMENTE O VERÃO
E tudo começou no dia em que tentei ler o jornal e não consegui passar dos subtítulos e das manchetes. Então resolvi consultar uma especialista. Conversei com amigos e um deles, Diógenes da Cunha Lima, indicou-me o médico Marco Rey. Na Prontoclínica fui atendido por Montinho, Anchieta e o próprio Marco. Prontamente me submeteram a um exame sumário cujo resultado veio com um gracejo de Marco:
- Eita – disse ele olhando para os colegas e rindo para mim. – Rapaz, que baita catarata! Bonita, apetitosa e gordinha como ela só. É mesmo das que gosto!
Os presentes sorriem.
- Ca-ca-catarata? – indaguei titubeando, o coração aos pulos e a voz oscilando num diapasão indicativo de dúvida e de temor, uma vez que sempre me sinto receoso com a perspectiva do ato cirúrgico, seja ele o mais corriqueiro, o mais simples.
-Somente catarata, e nada mais – Sentenciou. Mesmo assim, precisamos examiná-lo mais demoradamente, do jeito que manda o figurino. Você vai ser visto por todas essas máquinas – disse apontando para aquela aparelhagem que se assemelha ás geringonças que, no cinema, indicam o futurismo e dão o necessário realismo às produções da ficção científica.
- Por favor, Nilson, entre aqui nesta sala. – convidou-me. E eu, embora hesitante e sob uma intensa impressão penetrei.
Num ambiente de luz e sonho, onde aparelhos ópticos se enfileiram ao longo de paredes de mármore e marfim, sou instruído a olhar através de lentes luminosas – umas côncavas, outras convexas, algumas planas e lineares, outras arredondadas, coloridas e mágicas. Na sala, respiro uma atmosfera lunar com algo de perfume hipnótico.
Os médicos me examinam e me dizem:
- Tudo bem. Volte daqui a uma semana. Seus olhos vão agradecer.
Chego na hora aprazada. Uma equipe de médicos e enfermeiras toma conta de mim. Entre um colírio e a tomada do pulso, para averiguação, aos poucos me familiarizo com o meio extraterrestre e seus habitantes. Com réguas e sextantes, miraculosos microscópios e misteriosas lunetas, a medida dos olhos é tomada. Cálculos matemáticos são feitos, a Lei da Relatividade é discutida e novamente analisada. Vozes sussurradas, ao longe, acordam procedimentos a serem tomados. Velhos deuses e mitológicas formas de Anúbis e imaginários seres me observam. Um cristo crucificado me abençoa. Tem início a cirurgia. Estranhamente, nada sinto, a não ser uma leve picada de agulha no braço. E enquanto os trabalhos prosseguem, vem o sonho. Por minha mente passam e repassam imagens. Umas momentâneas, outras mais duradouras. Ao longe descortino o clarão atenuado de remotas auroras, o estável brilho das constelações zodiacais. Um universo nasce do negror primordial dos gases cósmicos. De meu observatório assisto ao surgimento da Libra e do Camelo. Localizo a Ursa Menor e me dou conta do ígneo magma em que borbulha a incrível Canopus. Em torno de mim o universo se agita em mudanças. Nasce e se consome em fogo, em luz.
Aos poucos exploro infinitas distâncias. Corpos solitários se deslocam e vagueiam em galáxias e espirais gasosas. .
Por entre colunas de turquesa e cristal no horizonte, a tênue madrugada.deixa-se atravessar pelos raios solares. Sou envolvido por um súbito brilho. Então alguém me chama. Acordo e fixo o olhar nas pessoas em volta.. Seus rostos são calmos. O das mulheres, principalmente. Elas têm olhos esmaltados e esguios pescoços. Seus gestos são lânguidos. Respiro aromas de licores e vinhos enquanto uma revoada de anjos graciosos, como Cupidos, esvoaçam sobre mim. Um exército trajando branco me protege..
- Pronto, terminamos. Você já pode se levantar. Repouse um pouco em seu apartamento, e depois pode ir para casa. Poder ler, se quiser, e ver televisão. Coma o que está acostumado a comer. Não há resguardo – diz o Dr.Marco, com um sorriso feliz na face calma. – Gastamos seis minutos. Você não acha que foi tempo demais?
- Estou estatelado. Isso é possível? Não senti nada.
- É assim mesmo. Evitamos incomodar o paciente.
Sem pós-operatório e sem problemas, agora me dedico a ver a luz do mundo. Andando a pé, ao longo das calçadas, ou de carro, ao lado de Maria Emília, vejo o novo brilho das manhãs e o esmaecer do pôr-do-sol. Através da vidraça, aprecio a chuva caindo nos telhados. Formando gotas de cristal nas folhas e flores das árvores. De minha janela descortino o azul do céu e o verde esmaecido das águas oceânicas.Feliz, denoto as cores fortes do verão.
Mas há um fato, meu caro doutor Marco, que não me agrada. Levei um susto danado ao me ver no espelho depois de operado. Pois não é que o matreiro espelho colocou outro sujeito em meu lugar? Isso mesmo. Agora, ao me olhar, vejo um cara desgastado, de rugas e traços endurecidos, diante de mim. Isso é chato. Coisa estranha acontece quando olho as outras pessoas. Cavilosamente deram para envelhecer, como se isso fosse possível da noite para o dia, em apenas uma semana. Entretanto, que importa? A visão vale infinitamente mais que a beleza, sempre egoísta, simplória e passageira.
Você, Marco Rey, pode se orgulhar. Você sabe fabricar belos verões, embora nos conscientize de nossas tatuagens e arranhões. A culpa não é sua, é da vida, que nos desgasta e envelhece.
Escrito por Nilson Patriota às 10h57
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PASSOS DA CIVILIZAÇÃO
No começo do século IV a.C., Pitágoras se vale de especulações filosóficas para encorajar o conhecimento do seu tempo com a concepção da Terra esférica. Ora, se a esfera era, supostamente, a mais perfeita de todas as formas, a Terra, obra prima dos deuses, devia ter a forma de uma esfera.
Observações astronômicas, no decorrer do tempo, tiveram em conta a confirmação dessa hipótese.
Em 350 a.C. os estudos de Aristóteles levaram-no a confirmar a teoria da esfericidade do planeta. Tal confirmação possibilitou que a humanidade desse os passos seguintes, tornando possível a medição da obliqüidade do eixo de rotação da Terra e o estabelecimento de conceitos tais como os de Equador, Pólos, Trópicos e a divisão da superfície terrena em zonas tórrida, temperada e fria.
Duzentos anos antes de Cristo, coube a Eratóstenes calcular o meridiano do planeta e a obliqüidade da elíptica, com o estabelecimento do raio da esfera terrestre, fundamental na determinação das latitudes e longitudes. Só que o matemático grego não acertou 100% em seu cálculo, cometendo um erro de 14% de diferença entre a sua medida e a verdadeira. Isso, no entanto, parece perdoável, se se tem em vista que os estudos referentes às leis da Natureza eram, em sua época, menos importantes que os filosóficos. Mas daí para diante se tornou bem mais fácil estabelecer os sistemas de projeções geográficas planas.
Em meados do século II a.C. Hiparco inventou o astrolábio, instrumento muito usado em navegação, por permitir calcular a altura dos astros em relação ao horizonte. Hiparco também realizou a primeira cartografia apoiada na trigonometria esférica, ao mesmo tempo em que propunha um sistema cônico de projeção.
Todavia, foi na obra de Ptolomeu que os conhecimentos cartográficos da Antigüidade alcançaram seu ponto culminante. Razão pela qual é ele considerado autor do primeiro Atlas geral. Ptolomeu dedicou dois volumes de sua famosa Caligrafia ao estudo da construção de globos e projeções de mapas. Mas a atividade cartográfica expandiu-se nos países que tiveram nos mares os principais meios de subsistência e de comércio. Haja vista Portugal, Espanha, Holanda, Itália.
Escrito por Nilson Patriota às 07h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ASPECTOS DO BRASIL RECÉM-DESCOBERTO
Quando por iniciativa ou por acaso o homem branco se encontrou com a América nos albores do século XVI, sua mentalidade achava-se intoxicada pelo uso da violência e a ambição de ouro. Tocado pela cobiça, nada enxergava além daquilo que pudesse materialmente desfrutar. Iletrado, carente de autonomia e liberdade, ele ansiava por uma vida livre e opulenta, onde fosse possível viver longe do olhar policialesco dos agentes do rei e das maquinações dos tribunais inquisitoriais. Para levar a vida desejável com a qual sonhava, precisava da independência que, de alguma forma, o dinheiro ensejava. Como então iria se satisfazer com algo que não fosse riqueza? Daí o porquê da corrida às novas terras recém-encontradas. Sem perspectiva em sua aldeia, passou a viver alumbrado com a possibilidade de conquistar a fama.
Obcecado pelo poder, fascinado pela prosperidade, ele se engajou na aventura ultramarina, na qual foi marinheiro, soldado, expedicionário e explorador. Seu sonho era se deparar com uma mina de ouro a céu aberto, pois desejava passar o que lhe restava de vida cercado de riquezas...
Mas a realidade geralmente opõe-se ao sonho. O mundo novo não era o que sobre ele diziam. Era apenas uma selva onde pequena possibilidade havia de retorno.
Entre a costa arenosa e o mar aberto, a faixa de arrecifes formara uma barreira natural a sofrear a impetuosidade da ressaca. Seguindo o contorno continental ou penetrando o seio da hinterlândia, somente a espessa mata. Longe do mar, nem os alísios chegavam.
Até onde a vista podia alcançar tudo ainda estava por fazer. Em certos trechos a floresta escura e quente impressionava. Luxuriante, inextricável, não consentia ser pelo homem branco devassada. Densa e aquecida, mesmo à margem das águas reverberantes, era morada natural de mitos e feras. Nada melhor podia oferecer além de pavores e riscos.
Os rios vinham de longe. Deixavam as serranias para serpear na planície cada vez mais cavada pelos seus tributários. Ao se embrenharem em solos pedregosos, abriam fendas na base das montanhas. Entre estrondos, saltavam precipícios. Em quedas monumentais, transformavam-se em quilométricas cachoeiras.
Escrito por Nilson Patriota às 14h31
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Continuação...
Além do assombro que emanava da grandiosidade das coisas, nada mais era visto. Muito menos riquezas.
Ao atrasado branco que aqui aportou, o país nada significava. Para o rude português o gigantismo das matas e dos rios muito pouco importava. O que lhe interessava era o ouro. Mas este a selva ocultava.
Por isso os que aqui estiveram nos primeiros anos da tentativa colonizadora, nenhum valor enxergaram em matas, rios, ilhas e lagos. Daí o país ter sido pouco notado e ainda menos analisado. O “portuga” analfabeto só descobriu papagaios, macacos, sagüis e pássaros canoros. As famosas “drogas do sertão” resumiam-se a malagueta, cana fístula, algodão e ervas medicinais.
Segundo a mentalidade utilitarista da época o Brasil podia ter aspecto de país encantado, mas continuava sendo uma terra de ninguém. Habitado por selvagens que, embora prestativos, não eram confiáveis, não servia para se viver. Os índios se devoravam porque não tinham alma, conforme o conceito sobre eles feito pelos escravagistas. Então, ao invés de tratá-los amigavelmente, acharam que o melhor a fazer seria domá-los, transformando-os em mão-de-obra escrava. Manietá-los e pô-los a trabalhar no corte e transporte de pau-de-tinta, no eito dos canaviais, na função de bestas de tração. Para eles isto seria o mais apropriado. E, assim pensando, assim fizeram.
Ainda hoje em dia soa como um bordão a empáfia com que Hernan Cortês justificara a matança e o saque de milhares de índios mexicanos:
Yo no vine aqui para cultivar la tierra como un labriego, sino para buscar oro!”
A atrevida sentença do aventureiro espanhol caberia perfeitamente na boca de qualquer português do século XV. Espanhóis e portugueses eram povos ibéricos e tinham propósitos semelhantes. Através de um Tratado endossado por papas, transformaram em propriedades suas as terras a serem descobertas de 1494 em diante.
Raros, raríssimos, os portugueses e espanhóis que foram capazes de pensar com a isenção de um Claude d’Abbeville e de um Yves d’ Évreux, que aqui estiveram sonhando com a França Antártica do Maranhão. Suas respectivas narrativas reportam-se ao tempo de La Ravardière e Jacques Riffault. Atrapalhou-os a campanha portuguesa de Jerônimo de Albuquerque. Pois para eles o Maranhão seria o paraíso terrenal. Contra os capuchinhos ficou a censura do cacique Japiaçu, quando da recusa de ambos a aceitar dormir com as índias cujos corpos molhados haviam despertado neles tanta curiosidade.
“Admira-me que não desejeis mulheres... – disse o cacique –, ao contrário dos outros franceses que conosco negociam há quarenta e tantos anos” (...) etc., etc....
Escrito por Nilson Patriota às 14h31
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
MAPAS
Durante a Idade Média, que pode ter sido lenta, porém jamais estéril, a produção cartográfica sofreu bons e maus momentos. Na Europa romanizada, onde se concentrava o grosso do conhecimento, imperou o mapa-múndi circular. O Orbis Terrarum.
Mas os mapas dessa época, influenciados pelas superstições acabaram perdendo a exatidão geográfica. Em tais cartografias a Terra Santa sempre ocupava o centro do universo. E conforme a concepção religiosa vigente eram bem mais fiéis à fantasia do que à realidade. Por essa época, os conhecimentos matemáticos foram substituídos por interpretações artísticas inventivas. Dessa decadência cartográfica, estimulada pela superstição religiosa, escaparam os árabes. Ao tratar cientificamente a cartografia, os árabes obtiveram uma produção superior à européia. Todavia, foi na Europa onde surgiu o Renascimento, trazendo um grande leque de idéias renovadoras na ciência e nas artes. Uma delas, a navegação astronômica trazendo a conseqüente expansão marítima.
Antes do início do século XV, afirma Paulo Prado, “recomeçava na história do mundo o misterioso impulso que de séculos em séculos põe em movimento as massas humanas, após os longos repousos em que as civilizações nascem, desenvolvem-se e morrem.” (Retrato do Brasil (p.55, 8.ªm grande leque de to, que trouxe ida matrstiço. Nos mapas os conhecimentos matem8.ª88 edição, Companhia das Letras- São Paulo – 1977).
O Brasil, por suas dimensões, foi a maior conquista da expansão marítima portuguesa. Por milênios havia jazido ignorado no interior de suas matas e das suas muitas águas. Seus panoramas causaram admiração e surpresa aos seus descobridores. Sentindo, todavia, a primeira emoção e o passageiro encanto, o rude português quinhentista não se apercebeu da importância de haver encontrado um imenso país. Não percebeu a poesia da paisagem nem cuidou de sua luxuriante beleza. No primeiro momento ele se impressiona com o gigantismo do arvoredo e da terra, como faz Pero Vaz de Caminha em carta a Dom Manuel I, mas depois não leva mais em conta a importância estratégica de um país encravado em um novo mundo. Talvez por que a terra vasta e selvagem não tivesse nome, ele não lhe deu muita importância.
Reduzida à solidão de suas matas e à pequena nomenclatura de seus acidentes costeiros, a nova terra parecia ter pouco a oferecer, quando de fato tudo tinha. Desatento, o português não deu importância à “língua geral” daqueles que habitavam as imediações do contorno costeiro, bem próximos das embocaduras dos rios, enseadas e angras.
Outros povos de “língua travada” ocupavam vales e montes do interior, desfrutando de abundante caça e numerosos frutos. Ao fugir do perigo sabiam se ocultar na densa selva. O que fizeram por mais de duzentos anos.
Em sua transição haviam alcançado o neolítico. O mundo para eles adquiria significação. O mar, rolando com marulhante solidão e se atirando aos penhascos da costa. Arfando, exalando bramidos. Resfolegando queixas. O tempo passando indiferente ao viver das feras e dos homens.
E tudo era Brasil, sem que soubessem ao certo.
Escrito por Nilson Patriota às 10h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DE VOLTA AO TEMA FENÍCIO
Sabemos que a o Professor Cyro Gordon, tradutor da inscrição fenícia de Pouso Alto, indica o ano 532 a.C. como aquele em que se deu a viagem dos cananeus sidônios ao Ocidente. O Professor levou em conta o fato de que a tal viagem ocorreu no reinado de Hiram III, o rei Mercador.
O reinado de Hirã, que foi de vinte anos, teve inicio em 553 a.C. e terminou em 533 a.C. A viagem, que hoje nos parece excepcional, foi na verdade uma arriscada aventura marítima realizada por marinheiros experientes e afeitos a longas travessias.
Os fenícios foram marujos competentes no manejo de barcos construídos visando viagens oceânicas. Eram embarcações de fácil maneabilidade, fabricadas para vencer consideráveis distâncias. Podiam até mesmo enfrentar mares tempestuosos, como os que conheceram por ocasião do périplo africano.
O faraó Necáu I (séc. VII a.C.) precisava de ouro em pó, marfim e púrpura. Convocou a sua presença uma porção de mercantes fenícios. A eles encomendou vários carregamentos de ouro e metais preciosos. Os fenícios sabiam onde encontrar a mercadoria encomendada. Circunavegando a África eles a foram buscar no que atualmente se acredita terem sido as minas do rei Salomão. Essa circunavegação que há 2.800 anos transpôs o cabo das Tormentas trouxe ouro para o governante egípcio e muito lucro para os que a realizaram.
O périplo em torno da África possibilitou o reconhecimento do continente negro. Tudo o que ali havia de mais valioso, como diamantes e ouro, marfim e púrpura, foi colhido pelos fenícios. É possível que os cartagineses (que também viajavam através do Mar do Norte, onde se situavam ilhas do estanho), foram detentores de tecnologia que permitia longas singraduras. No mar, eles estabeleciam a posição de seus navios pela observação das constelações.
Qualquer um que haja estudado o regime de ventos e correntes de ambos os lados da linha equinocial, sabe que a separação do navio cananeu dos demais com que viajava não significa um fato excepcional. Por que assim é o Atlântico: dominado por ventos e correntes. Durante as viagens às Índias e ao Brasil aconteceram semelhantes desgarres. Citemos como exemplo, o afastamento e naufrágio da nau de Vasco de Ataíde, separada da esquadra cabralina quando ao longe avistava a ilha de São Nicolau, de Cabo Verde, pela qual a esquadra havia passado.
Escrito por Nilson Patriota às 13h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Continuação...
Que foi feito desse punhado de sidônios que em 532 a.C. aportou ao Brasil, deixando o registro desse feito na inscrição de Pouso Alto? Terão eles permanecido por toda a vida na “ilha” ou intentaram o regresso ao Mediterrâneo, campo de suas atividades mercantis?
Há uma fonte salva por uma referência grega ao aniquilamento de Cartago1, ao fim da terceira guerra púnica, que parece referir o episódio aqui comentado, se não for a outro semelhante. Gonzalo Fernández de Oviedo, 2 na História geral das Índias alude a Frei Teófilo de Ferrara, o Cremonense, ao tratar romano Julio Solino citando o grego Aristóteles ( De admirandis in natura auditis). Conta Aristóteles que um barco com mercadores havia ultrapassado o Estreito de Gibraltar, perdendo-se no Atlântico. Colhido por ventos e correntes foi o tal barco levado a uma “grande ilha”, constatando seus ocupantes que a tal “ilha” se encontrava em estado natural, sem jamais haver sido habitada, senão por bestas e feras. Razão por que se conservara silvestre, coberta de grandes árvores e cortada por rios apropriados à navegação. Fértil em toda a costa, nela abundava tudo o que fosse plantado e que, nascendo crescia em grande uberdade. A “ilha”, além de remota, achava-se a uma distância de muitos dias de viagem da terra firme da África, de onde o barco fora afastado quando circunavegava o continente.
Ao chegar os cartagineses a essa “grande ilha”, sentiram-se abismados com a fertilidade da terra, a salubridade do ar e as grandes serranias. Então começaram a povoá-la. Muitos anos ali ficaram até que a saudade da pátria e dos entes queridos obrigou-os a voltar. Mas isso só foi possível porque eles conseguiram construir uma embarcação que os levou de volta a Cartago. Ao tentar informar seus patrícios sobre a fecunda “ilha”, não mereceram crédito Caíram em desgraça e se tornaram mal vistos pelo Senado que mandaria apregoar um édito decretando pena de morte para todo aquele que espalhasse histórias maravilhosas sobre a “grande lha” do Atlântico. Por pouco não foram mortos. Temiam as autoridades que se a gente fenícia embarcasse em massa em demanda da “ilha”, despovoaria o país. Mas exigindo absoluto silêncio sobre o assunto, evitavam que dita “ilha” caísse nas mãos de concorrente capaz de ameaçar a opulência de Cartago, a sua própria autonomia e liberdade.
Então a “grande ilha” foi esquecida.
Resumindo: seja verdadeiro ou apócrifo o texto referido por Oviedo não perde seu valor informativo e incitante. Sabemos que o Atlântico vem sendo freqüentado por fenícios desde o primeiro milênio antes de Cristo. Há, porém, possibilidade de ter sido uma via natural de tráfico marítimo ao tempo dos Atlântes, ou seja, há 12 000 mil anos ou mais. No século IV a.C. Cartago ainda era a grande potência marítima do Mediterrâneo Ocidental, pelo que Aristóteles e outros historiadores obtiveram informações de fontes semelhantes ao Cremonense, e que de um modo ou de outro teriam chance de seguir tendências e passos da Humanidade.
Convenhamos, a descrição feita pelos fenícios pouco difere da que faz Pero Vaz de Caminha, em 1500, acerca do Brasil, ao rei Dom Manoel: “Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa” (...)”as águas são muitas, infindas”(...)”dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”... 4
1)Cidade da África, fundada em 814 a.C. pelos fenícios, numa península próxima ao local onde hoje se acha a cidade de Túnis. Cartago tornou-se a capital de uma reública marítima muito poderosa, que substituiu Tiro no Ocidente, criou colônias na Sicília e Espanha, enviou navegadores ao Atlântico norte e sustentou guerras prolongadas contra Roma, sua rival, as chamadas guerras púnicas (264-146 a.C.) Tornada colônia romana (sé.I a.C.) tornou-se a capital da África Romana e depois também da África cristã. Tomada em 439 d.C. pelos vândalos e em 698 pelos árabes, entrou em decadência.
2)Gonzalo Fernádez de Oviedo; Historia general de las Indias, Livro Segundo, cap III.
3) Obra do geógrafo romano C. Julio Solino, sitada por Oviedo no cap IXVIII..
4) Trechos da carta de Pero Vaz de Caminha a Dom. Manoel de Portugal.
Escrito por Nilson Patriota às 12h53
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A CAPELA BARROCA DE TOURO
Não tardou o momento em que a maioria dos habitantes do lugarejo deixasse suas choças e acorresse ao local onde a imagem se achava. Em poucos dias uma comissão foi despachada ao Senado da Câmara, na capital, levando a boa nova aos oficiais que ali serviam representando os cidadãos. Em fins do século XVIII a cidade de Touros era uma simples povoação de pescadores. Para chegar ao mar, onde efetuavam suas pescarias, necessariamente tinham que atravessar uma pinguela feita de troncos de coqueiro sobre o chamado Jequi, ou Maceió. A lenda conta que de madrugada três homens seguiam com os seus apetrechos de pesca em demanda do mar. Então foram surpreendidos pela presença de uma grande arca entrando barra dentro e ancorando lentamente à margem do dito rio, em um lugar próximo de onde futuramente surgiria a ermida de invocação ao Senhor Bom Jesus dos Navegantes. Intrigados com o que presenciavam, os pescadores procuraram saber o que continha a dita arca. Quem sabe não trazia mercadorias? Quem sabe se não conduzia riquezas em ouro?... Sem perda de tempo os três puseram seus trastes de lado e entraram na mansa corrente. A arca se achava cerrada. Mas, cheios de superstições e muito medo, conseguiram empurrá-la para um ponto enxuto do terreno. Então, usando toscos instrumentos, ergueram a tampa da mesma, tomando formidável susto.
Toda envolta em retalhos de branco linho a imagem de um Crucificado, do tamanho de um homem, encontrava-se cravada numa grande cruz. Impressionados com a inusitada descoberta, desistiram de pescar naquele dia e levaram em seus ombros a delicada imagem até o arruado, onde ficaram a mostrá-la a uns e a outros. Aqueles que a viam, emocionados caiam de joelhos e, cheios de instantânea fé, passavam a rezar e a louvar o belo ícone. E assim acontecia com todos aqueles que viam a imagem.. da Capitania. No plenário do colegiado houve grande celeuma. Alguns dos senhores vereadores quiseram ver in loco o fenomenal achado. Em poucos dias, a povoação regurgitava de curiosos e pessoas de fé que se ajoelhavam aos pés da imagem para rezar e fazer pedidos.
Como a povoação não dispunha de um lugar adequado para abrigar o santo em seu madeiro, logo puseram mãos à obra e erigiram um amplo cômodo com palhas de coqueiro, no qual as pessoas compareciam para fazer oferendas e adorar a imagem. Religiosos e conscientes de seu papel, Manoel Dias de Assunção e sua mulher Joana Tavares da Costa, proprietários da sesmaria do porto de Touros, resolveram entrar com os recursos para a construção de um pequeno templo. Corria o ano de 1799 quando deram início à edificação de uma capela com planta vinda do bispado de Olinda e Recife e dois religiosos arquitetos que ficariam responsáveis pela obra.
Os religiosos assumiram o comando da construção tendo como operários o povo do lugarejo que, arrancando pedras das falésias dispostas à beira-mar, e areia das dunas, não deixou faltar material ao pé da obra. De tal forma o trabalho foi desenvolvido, que no ano seguinte, 1800, a capela estava terminada.
Três décadas se passaram, quando a Touros chegou o Juiz de Paz Joaquim Xavier Velozo demonstrando interesse pela elevação da capela em igreja e falando, consequentemente, na criação da freguesia de Touros. O meio mais prático que encontrou foi desmembrá-la da Paróquia de Estremoz. Esta, por ser muito extensa, podia ceder uma fatia do seu território. O caso foi levado ao Conselho Provincial, que votou a Lei Geral de 05 de setembro de 1832. Criada a freguesia, já no ano seguinte surgiu o município.
Monumento barroco de sóbria beleza, o templo de Touros passou por modificações e melhorias. A tradição atribui a Frei Serafim de Catana e a seu assistente, Frei Herculano, a sobriedade do aspecto arquitetônico da igreja, que foi edificada a partir de matérias primas da região, tais como madeira, cal, areia, pedra e barro. Mas as imagens que compuseram seus altares vieram, em sua grande maioria, de Pernambuco.
FONTE: PATRIOTA. Nilson; TOUROS – UMA CIDADE DO BRASIL; Departamento de Imprensa; Natal-RN – 2000.
Escrito por Nilson Patriota às 22h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
OS CANHÕES COLONIAIS DA PEDRA DO TOURO
É quase certo que a maioria dos estudantes do município de Touros desconheça a história do Fortim do Tourinho, de onde saíram os canhões coloniais atualmente vistos no pedestal próximo à Matriz do Senhor Bom Jesus dos Navegantes 1. Sabemos que os ditos canhões foram levados para Touros entre 1808 e 1812. Transportou-os o arquiteto Antonio da Silva Paula, tenente-coronel de engenharia, encarregado da defesa da costa das capitanias brasileiras nas duas primeiras décadas do século XIX. A instalação do Fortim ocorreu depois que José Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, governador da Capitania do Rio Grande do Norte dirigiu memorial a Dom João VI, recém-chegado ao Brasil, prevenindo-o contra um possível ataque francês à costa brasileira. O relatório foi endereçado ao soberano a 20 de maio de 1808.
Como se sabe, o Tratado de Fontainebleau, assinada pela França e a Espanha, estabeleceu a divisão de Portugal e suas colônias ultramarinas entre os seus signatários. Temendo ser preso e humilhado, Dom João VI, rei de Portugal, se fez acompanhar de familiares e cerca de 20 mil cortesãos, embarcando à pressa para o Brasil e preservando assim a dinastia de Bragança. Menos de 24 horas depois da partida da Corte, numerosas tropas francesas, comandadas pelo general Junot, invadiram Lisboa.
Escoltada por quatro vasos de guerra britânicos, a armada que conduzia a Corte portuguesa dividiu-se no litoral brasileiro. Alguns navios aportaram ao Rio de Janeiro enquanto outros ancoraram à Bahia a 22 de janeiro de 1808. Num desses navios viajava o monarca português, que ao chegar deu início a uma nova era na história da colônia transformada em reino. Como a ameaça francesa não pudesse ser descartada, foram erguidos na costa vários fortins fortificados. O de Touros foi um deles. Outros foram instalados na praia de Ponta Negra, na Redinha, na enseada de Jenipabu e na enseada de Pititinga De todos esses fortins só o de Touros foi relativamente preservado.
Do desembarque de Luiz Barbalho, em 7 de fevereiro de 1640, haviam ficado alguns canhões, já então imprestáveis, ao longo da trilha por onde suas tropas seguiram de Touros à Bahia. Algumas dessas peças foram recolhidas e levadas a Touros, dando a impressão de que o fortim se achava bem artilhado, quando a realidade era outra. O povo brasileiro tem vivido de enganos.
1) Os canhões que restavam no fortim da pedra do Touro, foram levados em 1958 para o local onde hoje se encontra, por iniciativa do Prefeito João Severiano da Câmara, que mandou construir o pedestal onde hoje se encontram.
Escrito por Nilson Patriota às 09h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PADRÃO COLONIAL DE TOUROS
O Marco de Touros, o mais antigo padrão colonial do Brasil, foi chantado em território brasileiro (praia de Ubranduba, Touros, RN) no dia 7 de agosto de 1501 pela expedição manuelina comandada, segundo Câmara Cascudo, por Gaspar de Lemos, ou, conforme outros autores, por André Gonçalves. Por motivos atualmente mais que justificados, a tendência é se reconhecer o comando de Gaspar de Lemos 1. A convite de Dom Manuel I, e na condição de piloto ou cosmógrafo, fez parte dessa expedição o navegante florentino Américo Vespúcio 2.
No referido marco não figuram data nem inscrição. Porém, no terço superior de uma das suas faces, destaca-se a escultura em alto-relevo da cruz da Ordem de Cristo, armas e quinas dos reis de Portugal.
Os padrões coloniais tipificavam o domínio oficial da Coroa Portuguesa sobre suas colônias e possessões. Em 1483, em viagem exploratória na costa africana, o navegante português Diogo Cão chantou um desses padrões na foz do rio Zaire. A partir daí os padrões de pedra lioz passaram a substituir as cruzes de madeiras usadas para afirmar a autonomia de Portugal sobre as terras conquistadas ou descobertas para o serviço de difusão da fé cristã.
O primeiro registro do padrão colonial de Touros foi feito no final do século XIX pelo historiador pernambucano José Vasconcelos, em seu livro Festas Notáveis da História do Brasil.
A 7 de agosto de 1928, os historiadores Luís da Câmara Cascudo e Nestor dos Santos Lima (do IHGRN) foram ao local da chantadura do Marco de Touros, tomaram-lhe as medidas e dele fizeram completa descrição.
Em janeiro de 1972, o acadêmico Oswaldo de Souza, representante do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, esteve várias vezes na Praia dos Marcos 3, na intenção de convencer os moradores do lugar a concordarem com a transferência temporária do marco de Touros 4 para Natal. Após inúmeras gestões a população da localidade onde o monumento histórico se encontrava, acabou cedendo à argumentação do historiador Oswaldo de Souza.. Em Natal o marco foi exposto na Fortaleza dos Reis Magos, onde ainda aguarda o dia em que voltará ao lugar de sua primitiva chantadura.
-------------------------------------------------------------------------------------
1) Era Gaspar de Lemos o piloto da nau enviada a Portugal pelo almirante Pero Álvares Cabra para levar a notícia do descobrimento ao rei Dom Manuel. Pelo menos 3 documentos escritos ele levava: “a carta do piloto anônimo, a carta de mestre João e a longa exposição do escrivão Pero Vaz de Caminha, com detalhes sobre a terra descoberta e os seus habitantes.
2) Américo Vespúcio, presente à solenidade de chantadura do Marco, afirma em duas de suas missivas que o desembarque na costa brasileira ocorreu a 7 de agosto. Mas na “Lettera”, outra missiva de sua autoria, ele revela que foi a 17 de agosto, o que me parece verdadeiro. O acontecimento teia acontecido após a expedição alcançado o cabo de São Roque no dia anterior, 16 de agosto de 1501.
3) Praia dos Marcos por que o padrão colonial se compunha de três peças: o marco propriamente dito e seus dois tenentes ou testemunhas feitas da mesma pedra de Lioz então abundante em Portugal.. Ubranduba era como primitivamente se denominava a praia em que foi o marco chantado..
4) Marco de Touros, por que a praia onde foi encontrado pertencia a esse município.
Escrito por Nilson Patriota às 08h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|