OCASO
No doce irrealismo do milagre
Que a minha melancolia insiste em operar,
A lembrança restitui intacta aos meus olhos
A convincente imagem
Da cena perdurável:
Meus pais, de mãos entrelaçadas, vêem a tarde descer,
E deixam-se envolver pela suavidade da paisagem
Sob as sombras do ocaso.
Na alegre manhã deste dia propício,
O de hoje,
Creio na pressuposta e, todavia,
Agora inconcebível
Volta ao passado.
E assim me surpreendo a pensar
Que não gozamos a vida
Senão se a recordamos da distância dos anos,
Quando então podemos torná-la menos vulgar,
Como no dia-a-dia nos parece,
E certamente foi,
Ao tempo em que não sabíamos discenir
Sobre o que significa depender do Destino.
Escrito por Nilson Patriota às 10h32
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MAR DE TOUROS
Em Touros o mar se espraia
Em ondas dentro de mim.
Suas correntes salinas
Circulam em minhas veias
E sua cosmologia
De cobre e de alcatrão
Tem a estrutura do aço,
O espectro do estanho,
Mas mesmo assim se parece
Com a prata esmaecida
Dos cabelos de meu pai.
Lúgubres gemidos opressos
Emergem de suas locas
Sufocando meus suspiros
De desencanto e de saudade,
De impaciência e de paz.
Em Touros o mar que geme
Lembra o tempo que se foi
Com minhas tias e tios,
Meus irmãos, primos, parentes,
E os amigos de meus pais.
Ah, quanta gente perdeu-se
A curtir longos silêncios
Na luz vestida de plasma
De ocasos emolientes
Em que juntos soçobraram
Sonhos e vãs esperanças
De amores que não vingaram!
Em Touros o mar espreita
Com os olhos de minha mãe
E a mirada de meu pai.
Escrito por Nilson Patriota às 13h07
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CONTO:
UMA HISTÓRIA VERDADEIRA
O tempo passou envelhecendo árvores, casas e homens. Mas para Virgulino Tamiarana foi como se nada houvesse acontecido. Para ele, que fazia a estimativa do tempo baseado em seu método particular e contrário ao irrevogável mutatis mutandis da sentença latina, as alterações e seus insignificantes pormenores não contavam. Ele era aquele que se julgava o verdadeiro conhecedor do “caminho das pedras”. E conquanto vivesse a filosofar pelos bares da vida, não era dado a leituras e tinha pouca instrução. Um tipo singular cuja mentalidade foi formada ao sabor do processo da experiência e do erro. Era ele, porém, um homem inteligente e sagaz. Um invulgar narrador de fatos e causos. Como o intelectual dos boêmios tourenses, ele defendia uma curiosa teoria da “imutabilidade da matéria”, com a qual se firmara como homem de idéias em meio àquele bando de debatedores de “questões metafísicas” inquestionáveis.
Virgulino tinha gosto apurado. Para ele o que importava – ah, isso sim! – era sua eloqüente assertiva de que as coisas não sofriam mudanças, se bem que o “estado de espírito das pessoas pudesse admiti-las de formas várias”. E, quando contestado em suas idéias, zombava do contestante ou se enraivecia e ia embora. Aparecia, dias depois, como se nada tivesse acontecido.
- O mundo é feito de mudanças, Virgulino. Só você acredita em sua tese. Coisa de louco! – dizia Tião Du para espicaçá-lo.
- Pois que mude! Mas só muda para aqueles que erroneamente enxergam!
Inexplicavelmente, Virgulino continuava a ver o mundo isolado de sua indescritível variedade de movimentos, conforme o avistara ao abrir os olhos para a luz nos albores de sua existência.
Afinal, que pretendia Virgulino com semelhante silogismo tão inútil e desprovido de serventia? Seria uma réplica à “teoria do retorno”, que inflamou o pensamento grego na Antigüidade? Pretenderia ele levar a adiante tarefa oposta à outra que o próprio Nietzsche pretendeu dois mil e tantos anos depois reabilitar e não conseguiu? Que pleiteava com essa inglória mania de não querer ser sapo em terra de sapo e ficar sonhando com estrelas? Melhor seria se acomodar à beira do banhado e coaxar a noite inteira junto com os demais.
Afinal, o que eram as “coisas” imutáveis?
As “coisas” nas quais ele falava deviam ser objetos, fatos, idéias, panoramas, pessoas, etc., etc. Eram, evidentemente, parâmetros envolvendo perspectivas variadas de estados semelhantes a anseios, emoções, conforto, beleza, amor e tudo mais que contribui para a contextual e gregária tarefa existencial do ser humano.
Virgulino, se bem que amigo servidor e leal tinha lá suas imperfeições. Uma delas residia no fato de tentar se intrometer no pensamento alheio. E quando isso ocorria havia sempre um alerta. Pois era sinal quase certo de que ele se havia emaranhado, como erva daninha, nas circunvoluções daqueles que se deixavam engabelar pelos seus argumentos. Frondosos bestuntos tinham sido por ele remodelados em suas conjeturais estruturas. Para conseguir tal resultado, ele simplesmente empurrava para dentro da infeliz cabeça dos antagonistas os seus argumentos aluados, as suas arbitrárias teses, que descentralizavam e deixavam confusos para o resto de suas vidas seus oponentes.
Escrito por Nilson Patriota às 12h04
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UMA HISTÓRIA VERDADEIRA (continuação)
Porém nele o que de pior havia era a forma intransigente de como chorava suas desventuras. Pior ainda: a de se obcecar em suas manias e obsessões. Uma delas, a de querer gerar um herdeiro quando a ciência já o havia desacreditado dando-o como estéril. Quando moço, ao servir ao Exército, conhecera várias mulheres de vida livre e se tornara gonorréico, perdendo a essencial condição de fazer germinar sua semente. Nisso, porém, ele não acreditava. Entretanto, já no quinto casamento e amargando a desventura da jamais aceita esterilidade, continuava a ter aventuras extraconjugais a fim de superar essa pequena dificuldade e obter o esperado sucesso. E como nada havia conseguido até então, depois de completar sessenta anos deu para se amuar, reclamando, continuamente, da frigidez das mulheres que lhe negavam um filho, pondo nelas as imperfeições que eram suas.
Depois do sexagésimo aniversário, não parou mais de se queixar. A todo o instante e por um nada era visto enxugando as lágrimas das faces molhadas pelo pranto. Seus amigos já não suportavam a lengalenga e com impaciência reagiam de forma, às vezes, impetuosa e grosseira.
- Ô, Virgulino, deixe de ser implicante, seu desgraçado! – replicava Miguel Néri impaciente e irritado. – Você já não sabe que é estéril, seu filho da vaca! Dê-se a preço! Tome chá de raiz de avenca, acenda vela, mande fazer despacho. Quem sabe se assim você não resolveria seu problema?
Descontente e choroso, se bem que em certas horas compreensivo, Virgulino reagia gemendo:
Mas eu queria... Eu queria...
Escrito por Nilson Patriota às 12h02
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UMA HISTÓRIA VERDADEIRA (continuação)
Naquele meio dia de vento brando e sol a pino, o sonoro marulho das ondas chegava às nossas ouças ali no Bar de Zé Merdinha, situado na fachada Atlântica de Touros. Bebíamos quinado Imperial com Chora na Rampa, virtuosa e conceituada aguardente de cana que a propaganda do rádio a toda hora aplaudia. Enquanto nos entregávamos a triviais conversas, a ditos corriqueiros enquanto apreciávamos o movimento das jangadas chegando à praia, uma após a outra, com seus samburás apinhados de pescado. Quase não havia peixe graúdo. Na maioria eram gordíssimas corcorocas, que são pequenos espécimes dos parrachos, com os quais se cozinha o famoso liguento praieiro.
O tempo transcorrera rapidamente. Aí pelas 14h, os fregueses do Zé já deixando as mesas, bebiam o último aperitivo e sopesavam nas mãos as enfieras de cangulos, biquaras, mariquitas e pirás, partindo alegremente para o almoço de peixe fresco em suas casas. Quando menos esperávamos nos chega Virgulino. Desta vez estava contente e deveras animado para conversar e beber a sua meladinha, coisa de que ele gostava. Então nós o servimos com bastante abundância e gentileza, puxando por ele. Pedimos que se referisse ao tempo em que animava o pastoril de Joana Pacheco, na Rua do Capim. Sem se fazer rogado Virgulino contou duas ou três estórias picantes, e depois se saiu com a notícia de que tinha um segredo a nos revelar.
- Segredo de quê? – perguntou Lucas do Boi, descrente, mas interessado. - Do Milagre que me aconteceu! – Ontem, pelas seis da manhã, calmamente eu subia a ladeira da Rua do Motor, na Baixa Verde, onde as autoridades e o coronel João Cãimbra situaram as mulheres-damas que estavam impossíveis, se misturando com a fina flor da sociedade do lugar, morando e zanzando por todas as ruas. Pois bem, eu ia distraído e uma delas ficou na minha frente e piscou o olho para mim, acenando a mãozinha de unhas pintadas e vindo em minha direção.
- E então? – indagamos, todos ao mesmo tempo, interessados naquela narrativa que prometia se transformar no que Virgulino sabia fazer – contar uma boa história.
-Pois não é que a danadinha era Raimunda Coró, desabrochando no jardim de seus dezoito anos de calor e formosura me cantou.
-Raimunda Coró? – perguntou Tião Du interessado.
-Ela mesma, esse menino. Bonita que faz gosto, interessado neste velho esperançoso e à espera de um herdeiro.
- E daí? – perguntou José Aeroplano, os olhos muito abertos, todo ele excitado.
- Nada de especial – retorquiu Virgulino. Ela se apresentou, me pegou pela não e me levou com ela para casa.
- Ô coisa fácil! – Damião Caquica comentou.
- O que? Virgulino é conquistador, meu filho. É um danado! – afirmou Luís Briguidinha, tomando o partido do filósofo.
- Essa história está furada... Virgulino quer nos enganar! – interveio Zé Antão.
Escrito por Nilson Patriota às 11h59
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UMA HISTÓRIA VERDADEIRA (continuação)
- É aí que reside o engano! – cortou virgulino. – E quando chegamos à casa dela, podem acreditar porque minha história é verdadeira, fiquei encantado com o que vi. Tudo ali era novo e bonito! Tudo bem cuidado, limpo, varrido, espanado. Parecia casa de rico.
- Isso não é casa de mulher solteira. É casa de princesa – comentou Lucas do Boi.
ela me pegou pela mão e saiu mostrando tudo e dizendo:
- Veja seu Virgulino, é aqui que eu moro. Tenho do bom e do melhor. Tenho aqui radiola e disco long-play. Tenho rádio e também WC de vrido, tenho também armário, petisqueiro, guarda-roupa, cadeiras de vime e de madeira, fogão, geladeira e cama patente de primeira pra gente vadiar. E tudo isso me foi dado pelos homens desta santa terra. Fez uma pausa e acrescentou. – Os homens do comércio daqui, seu Virgulino, são endinheirados!
- De fato, minha filha – disse-lhe eu. – Ela ficou satisfeita, me puxou pela mão e começou a desabotoar minha roupa. Depois de feito o serviço me deixou nuzinho como Adão no meio da casa, examinando meu físico e dizendo:
- Agora, seu touro velho, se assente aí nesse sofá que eu vou tomar banho e me trocar pra vosmecê. Demoro pouco.
O pessoal na mesa já estava rindo. Todos interessados no desfecho do conto. Principalmente Ernani Cabral, que a tudo ouvia com muita atenção, vez por outra intervindo em busca de detalhes.
- Vamos, Virgulino! Termine sua história – disse-lhe eu.
- Quando ela saiu do banheiro era mesmo que ver uma princesa limpa e cheirosa. Então eu lhe perguntei: Essa menina, isso dá certo?
- Por que não, seu Virgulino?
- Ora, um velho como eu com uma bonequinha como você!
- Deixe isso para lá, seu Virgulino, e vamos vadiar.
Então ela me tomou pela mão e me carregou para a cama. Tudo estava perfumado. Então nos abotoamos. Beijo pra lá, beijo pra cá, o amor ardendo dentro de nós dois. Teve uma hora que eu pensei que ia incendiar, que o coração ia sair por minha boca... Foi quando ela me disse:
- Seu Virgulino, tá na hora, homem. Assuba em riba deu, homem de Deus!
- Então eu assubi. E foi aquela danação. Lembro-me de que a sirene da usina de João Cãimbra, que chama os operários para o trabalho disparou. Eu meus ouvidos ela dizia tanta danação de amor que me deixava louco.
- E você, o que dizia- indagou Briguidinha..
Escrito por Nilson Patriota às 11h54
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UMA HISTÓRIA VERDADEIRA (final)
- Eu também. E assim continuamos, até às 11h quando a sirene apitou liberando os operários de João Cãimbra para o almoço. Eu perguntei se ela queria que eu me apeasse, mas ela não consentiu.
- Deixe pra mais tarde, seu Virgulino, que agora é que tá bom.
Houve uma risada geral.
- Dessa hora pra frente ela miava e rosnava goma gata e eu ficava ainda mais excitado.E assim continuamos até que a sirene novamente apitou chamando os operários para o segundo turno e mais tarde apitou dando por encerado o dia de trabalho. Confesso que comecei a me sentir cansado e perguntei: Raimunda meu amorzinho, você quer que eu me apei? E ela me respondeu:
- Tou sentindo uma coisa tão estranha, seu Virgulino. Parece inté que um menino tá querendo nascer.
- Eu também tou sentido uma coisa me empurrando dentro de tu.
- Corra seu Virgulino. Vá depressa chamar a parteira!
- Então eu me apeei de cima dela, me vesti depressa e saí à carreira para o endereço que ela me deu. Lá chegando chamei a assistente que logo me acompanhou. Fomos chegando à casa dela e ouvindo um choro de criança.
- Ah, seu Virgulino, vá ver que a criança já nasceu.
- Então ela me deixou na sala, fumando um cigarro atrás do outro, e entrou no quarto onde encontrou Raimunda amamentando a crianças.
- Como sempre, Bastiana, tu só chega depois de tudo.
- Muié a culpa é tua, que só manda me buscar em riba da hora! – desculpou-se a parteira.
- Pois toma, leva o produto para que o pai possa vê-lo de perto e saber que foi dele – disse entregando a criança à parteira.
Da porta do quarto a assistente me chamou:
- Chegue, seu Virgulino, venha ver seu produto! É uma coisa linda – ela disse ao me entregar a criança.
- Eu a segurei em minhas mãos. Não era um menino, como eu desejava mas uma bela menina. Uma caboca gorda e fornida, vremeia que nem eu!
- Danou-se, Virgulino! Essa menina só pode ser de cimento armado – disse Nequinho de Regina sob uma risada geral dos presentes.
- Pois embora pareça não foi não.
- Então bebamos em homenagem à filha de Virgulino e à sua história verdadeira! – disse eu erguendo um brinde e pedindo a Zé Merdinha uma nova rodada.
Ao final daquela narração de Virgulino passei a acreditar que havia um novo sentido para compreender as coisas impossíveis desta vida. Aquela história, comparada aos contos da Mil e uma noites, podia ser também uma viagem ao longo de uma praia em que os acidentes se sucedem para dar fisionomia à paisagem. Onde o rumor do vento e o marulho das ondas misturam-se a atoarda dos bares ou aos pensamentos de alguém que, à porta do paraíso, espera a Eternidade sem percalços. Então repousei meu olhar no oceano, e foi como se fitasse naquela hora os astros do dia e da noite. O sol em seu pleno poder e no ocaso, as estrelas longínquas a piscar, a lua que se alterna em ciclos de imutáveis plenilúnios cujo halo leitoso é sempre o mesmo deleitável encanto dos boêmios e dos apaixonados. Para compreender as coisas eu nasci.
Ao deixar o bar do Zé a tarde caía. O movimento na praia havia terminado. Além de nós não havia outros fregueses no bar. Nega, mulher do Zé, servia tira-gosto. Os que começaram o aperitivo comigo não quiseram ir embora e continuaram tentando arrancar secretas informações de Virgulino, todos muito felizes de servirem de auditório para o insuperável criador de fantásticas histórias.
Escrito por Nilson Patriota às 11h49
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