ALDEAMENTOS E EXTINÇÃO DA ETNIA INDÍGENA NO RIO GRANDE DO NORTE
O Desembargador Bernardo Coelho da Gama Vasco criou a Vila de Estremoz desmembrando-a do território da cidade de Natal. No local, já havia um aldeamento jesuítico denominado Aldeia de Guajiru, acolhendo uma população de índios e caboclos falantes da língua geral e de tapuias do semi-árido nordestino. No aldeamento de Guajiru os Jesuítas haviam erguido uma capela sob a invocação de São Miguel, e algumas outras construções.
Indígenas, remanescentes da resistência à invasão de seus territórios pelos ávidos criadores de gado, já se achavam em situação de desespero. Despojados da própria identidade, bem como de quaisquer meios por eles conhecidos de subsistência, continuaram ligados a suas aldeias na sesmaria doada pelo Capitão-Mor Jerônimo de Albuquerque, nos primórdios do povoamento, à Companhia de Jesus. Entre essas aldeias estavam as do cacique Potiguaçu, o Camarão Grande, em Igapó, e a do chefe Jacaúna, localizada mais ao norte, num lugar chamado Conapotumirim, o atual Porto-Mirim. Havia outras, conforme esclarece no vol. VIII, p 102, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o Desembargador Luiz Fernandes. A mais próspera dessas aldeias foi a de Guajiru. Razão pela qual recebeu a predicação de vila, sendo instalada em 03 de maio de 1760. Razoável foi seu desenvolvimento, pois chegou a ser chamada “cidade” (Questão de Limites entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, vol. 2, p 55). A aldeia de Guajiru transformou-se em vila de Estremoz e veio a doar, no século XIX, parte do seu território para a criação da Freguesia e da Municipalidade de Touros, em 1832 e 1833, respectivamente. Os demais núcleos, entretanto, não progrediram a contento. Continuaram simples aldeias primitivas.
Passados quatro séculos, todavia, tais aldeias começaram a experimentar algum avanço. Em fins do século XIX eram pequenos aglomerados de roceiros e pescadores residindo em palhoças e casinhas de taipa de escassa vizinhança (A República, n. 159, ano de 1892).
Segundo Ferreira Nobre, nosso primeiro historiador (Breve Notícia da Província do Rio Grande do Norte - 1877), antes da chegada dos Jesuítas os índios potiguares já se haviam estabelecido nas proximidades da lagoa de Guajiru.
Tempos depois, de posse daquelas terras, os padres, ali fundaram um convento, uma igreja e um prédio com acomodação para a Cadeia e a Câmara Municipal, mas só depois que obtiveram do Governo da Capitania a concessão da grande sesmaria de catorze léguas, a qual começava na camboa do Jaguaribe e se estendia até o rio Potengi, em frente da cidade de Natal, correndo para o oeste até emparelhar com a lagoa de Guajiru. Tinha mais de três mil braças de dez palmos de leste a noroeste e seiscentas braças até o “Mar Salgado”, conforme rezava o texto oficial.
No Auto de Repartição de Terras, a sesmaria dos Jesuítas recebeu o n. 102 (Revista do Instituto, p 40). Conquanto contemplados pela administração da Capitania, até 27 de fevereiro de 1614 os Jesuítas nada mais ali haviam construído além de currais para bovinos e cavalos: curral de cima e curral de baixo, administrados por escravos da Guiné. A necessidade de manter a sesmaria em seu poder obrigou-os a organizá-la. Dotaram-na então de igreja, convento e demais construções necessárias às exigências legais do povoamento em marcha.
O alvará régio de 1755, que expulsa a Companhia de Jesus do reino de Portugal, ordena que os índios aculturados e residentes na região fossem “vilados” e favorecidos. Cada um deles recebeu uma légua quadrada de terra para o seu trabalho. O alvará também estabelece que, dali em diante tais índios deviam obediência à administração civil. Isto e mais a doação (em junho de 1666) de uma parte da sesmaria dos Jesuítas ao governador João Fernandes Vieira (um dos que comandaram a guerra de Pernambuco contra os holandeses), decretaram o fim do que ainda restava da etnia indígena na Capitania do Rio Grande. A sesmaria de Touros se estendeu sobre grande parte da dos Jesuítas.
Entregue ao azar e à sorte, o contingente que restou dos nossos índios decaiu na miséria. Em virtude de percalços e vicissitudes que incluíam a fome, a exclusão e os maus tratos, tornaram-se inapetentes e incapazes de assimilar o modo de vida dos brancos. Então a angústia pela perda da identidade cultural os levou ao parasitismo e à cachaça, na qual perderam o orgulho e a sanidade. Afirma Câmara Cascudo que acabaram morrendo como moscas. Os poucos que sobreviveram se enfiaram no mato para fugir ao contato do branco ou se transformaram em seres desajustados e nulos. Consumidos pelas desilusões e pelo álcool, foram vítimas dos males trazidos pelos brancos. Contudo, mesmo agonizantes, tiveram força e coragem para uma última reação. Tupis e tapuias se uniram num movimento armado a que os interessados em seu extermínio deram o nome de “guerra dos bárbaros”. Tal “guerra” persistiu até 1720, quando a etnia indígena havia se tornado um mero refugo constituído de velhos imprestáveis, crianças e mulheres. Apesar do extermínio ocorrido em menos de cem anos, de cada três brasileiros um descende de índio.
Em 1882, ano do encerramento das atividades legislativas do Senado da Câmara, leis e resoluções passaram à jurisdição do governo da Província, já que a Câmara Municipal só se instalou em Natal a 27 de julho de 1829. Por esse tempo, nenhum índio puro havia na Capitania do Rio Grande. Havia, porém, o chamado caboclo (mestiço de branco com índio) resultante do caldeamento de índias poupadas na refrega iniciada na metade do século XVII e terminada na segunda década do século XVIII, correspondendo já então a um terço do povo brasileiro.
Escrito por Nilson Patriota às 09h26
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