CANTIGA DA RUA CLARA
Menino eu morei em Santa Cruz (do Inharé). A casa de meus pais ficava numa rua chamada popularmente de Seu Daniel. Não sei quem foi Daniel, e talvez jamais venha saber. Mas eu o imaginava – como ainda faço – um cidadão rechonchudo, de estatura mediana, olhos azuis liquefeitos e cabelos brancos como linho. Em pensamento eu o imagino de rosto gordo e corado, semelhante ao dos homens que aparecem nas gravuras inglesas das folhinhas do século XIX.
Eu então julgava que a casa em que meus pais moravam era imensa, pois despontava altaneira por trás de sólido e alto muro. Entrevista através do portão de madeira havia uma imponente escada de macadame. Seus reluzentes batentes ascendiam em direção a uma área bem acima do nível do solo e guarnecida com a proteção de uma mureta para segurança de grandes e pequenos.
A casa tinha lá o seu encanto. Soalhada com madeira de lei nas salas e saletas. Não me recordo de soalho em outros cômodos. De espaço a espaço corriam listas negras na madeira clara do piso, dando graça e requinte ao pavimento. Sob o soalho havia um porão para guardar insuspeitos segredos, bem como armadilhas para ratos, naftalina em pacotinhos a fim de afastar insetos e morcegos. Para que a casa fosse completa só lhe faltava um sótão e seus presumíveis mistérios. Como convinha ao bem-estar de seus moradores, a casa estava sempre asseada tal qual a face maquiada de uma velha dama polonesa a esconder com bálsamos e pomadas sua beleza desgastada. Com exceção do portão da entrada, suas muitas janelas e portas eram adornadas com lavores de chumbo e vidros coloridos.
Tais adornos lembravam vitrais de catedral. E, como numa igreja, a luz do sol levava ao interior do casarão uma claridade filtrada, leitosa e lunar. O alto muro – ah, como ainda lembro! – era singelo, mas não desprovido de imponência. Não creio, porém, que fosse revestido com azulejo ou de pastilhas. No inverno, como uma parede qualquer, o muro recendia a mofo e umidade. Nele, a gente podia encostar a face e sentir aquele friozinho que aplaca o desconforto da aridez do clima sertanejo. O muro desprendia um odor comestível de barro e cal. Daí porque os insetos nunca o abandonavam. Besouros e formigas passeavam livremente por toda a sua extensão. E como se comunicavam! E como conversavam em gestos! Como a casa formava esquina, seu oitão corria rente à calçada de uma delas. Seu nome podia ser Saudade, porém modestamente a chamava de Rua do Realejo.
A Rua do Realejo não era rica. Tampouco atraente. Nela não havia belas casas. Ainda incompleta, vivia na singeleza de suas operárias moradas. Numa delas, de cumeeira alta e alpendre desconchavado, residia Vicência, a encarregada de torrar o café que a Rua de Seu Daniel e outras mais bebiam. Todas as tardes, sem que pusesse o rosto na janela um só minuto, Vicência enchia o ar de fumaça. Um aroma acre e resinoso se alçava ao espaço em que planavam silenciosas pipas de papel. O café, torrado num tacho fuliginoso, fumegava adocicado com rapadura que era adicionada a sua química. O odor do café torrado me trazia à memória a costumeira refeição matinal com tapioca, cuscuz e pão assado na manteiga, e tudo mastigado de forma educada, preguiçosamente. O cheiro do café era tão denso que me fazia confundir o cair da tarde com o amanhecer. O acre odor penetrando minhas narinas liberava leniente saudade.
Escrito por Nilson Patriota às 13h05
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CANTIGA DA RUA CLARA (continuação)
Para mim o inverno começava na Rua do Realejo, onde a chuva transportava a claridade solar da manhã para as poças surgidas no largo leito da rua cortada de pequenos e casuais riachos. E quando a tarde vinha e a noite se esgueirava antes de cair completamente, a Rua do Realejo se engurujava nas cozinhas e camarinhas. As pessoas se fechavam mais cedo para melhor desfrutar do persistente cricrilar, do obstinado coaxar, da virtual melodia da fresca e encantada noite de inverno. Entretanto, antes da noite cair, eu punha uma cadeira ao pé do muro e sobre a mesma um banco eu colocava Por ali subia a fim de pendurar os olhos sobre a calma rua. Equilibrando-me em meu poleiro, no muro eu apoiava os cotovelos a fim de me firmar. E em pensamento eu viajava sob a tênue neblina que misturava a luz das estrelas à flor da água empoçada que o inverno sertanejo criava. Mas ao me demorar um pouco, logo alguém me arrancava de meu posto e me conduzia à mesa e da mesa ao quarto.
A noite escurecia e Vicência dormia. O tacho de torrar café desprezado a um canto. O silêncio era aos poucos quebrado pela musica do vento, o coaxar das rãs, os langorosos cantos de heráldicos galos.
Em certas noites, a Rua do Realejo parecia enfeitiçada, dando-me a impressão de que dançava em rodopios, ao ritmo de uma canção nascida da escuridão. Acordes melódicos sucediam-se, nascidos de um sonoro instrumento. Ao transcorrer das horas e dos sonhos, dir-se-ia que a etérea música alimentava as rajadas de vento. Sob a luz das distantes estrelas toda a rua sonhava.
Madrugada, as primeiras claridades do dia permeando os vidros das janelas, eu pulava da rede para os seqüenciados deveres da escola, as brincadeiras da rua, os mandados de casa. O tempo transcorria sob o calor do sol e a refrescante sombra do telhado. Com ansiedade, porém, esperava a tarde chegar a fim de me postar de novo no muro e esperar que a noite viesse trazendo o cantochão dos sapos.
Mais uma vez a noite repassava a sua história. Como uma onda sonora em meio à escuridão, magoada ternura rolava pela rua. Os pequeninos cristais de estrelas de novo se incrustavam nas poças reluzentes. . No silêncio noturno meus olhos bebiam a subjetividade contida nos coruscantes pontos que coroavam as pequenas marolas à superfície que tremia ao sabor das lufadas. Então, como sonâmbulo mergulhava na suave canção de mil violinos alucinados. A canção se fazia ouvir até chegar a madrugada.
Pela manhã, amenamente o vento corria e virava à esquina, logo que suavizava o coração do menino e o clima da rua.
Não guardo de Santa Cruz caras lembranças. E, no entanto, para lá me transporto ao adejar nas asas da ternura. Então, apoio os cotovelos contra o muro, e contra a mão a face ensimesmada da criança que julga sentir a nostalgia de um tempo ao qual não voltará, mas que a música do sonho ele guardou como alimento da própria solidão.
Havia uma rua chamada Daniel e outra rua denominada Realejo. Se a mão do tempo as deixou como eram, constituem acalanto. Se, no entanto, as perturbou, são tristezas. Mas o mistério que fluiu de suas noites ficou dentro de quem escutou da canção os acordes que se materializavam no espelho das poças que inebriaram o seu olhar de infância.
Escrito por Nilson Patriota às 13h04
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A ESTRANGEIRA
O vento noturno corria pelo céu e as longínquas estrelas piscavam. A voz do meu interlocutor estava empastada, presa à emoção da narrativa. Falávamos de estranhos acontecimentos. Ainda me arrepio ao lembrá-los. - Eu mesmo me posicionei contra o conluio – ele disse. – Mas depois me convenci de que talvez chegassem a se entender. Ao regressar ao seu planeta de origem Merrita queria levá-lo em sua companhia. Ele, no entanto, desejava tê-la junto a si aqui mesmo na Terra... E terminou não dando certo – disse Vicente Queiroz, dando continuidade à estranha história. – Eu não ignorava os acontecimentos, porém sobre eles sabia superficialmente. Deseja, portanto, inteirar-me. O fato é que o destino não quis. - Como? O que foi que o destino não quis? – interroguei ao acaso, porém demonstrando interesse. - Não quis que fossem felizes para sempre. - Conto de fadas? – indaguei. - Não. Tudo verdade – ele respondeu circunspeto. - Ora! Conto de fadas, sim. Isso não é possível! Ele era terráqueo e ela alienígena! - E que tem isso? – Queiroz retrucou. – Há muitos alienígenas vivendo entre nós. Há mais casais heterogêneos do que podemos imaginar. Infelizmente, nem sempre o destino se mostra romântico, pois está mais propenso à fatalidade do que ao beneplácito para com as paixões interplanetárias. - Por que isso, então? - Acho que nenhum dos dois realmente tentou... – ele disse. – Sabe por quê? Com um pouco de boa vontade as coisas – quem sabe? – teriam dado certo, não é?... - Falam tanto nesse amor... - Tentaram, sim – ele justificou. – Ouvi dizer que tentaram. E de várias formas. Ela principalmente. Naquele dia, no interior da nave, esteve concentrada, comunicando-se telepaticamente com ele. - E ele recebia as mensagens por ela transmitidas? – curioso indaguei. - Como não? Então a última, por ela emitida, foi significativa demais. Ela falava em tom de desespero. Falava em amor e paixão. A mensagem chegava a seus nervos e ele estremecia. Uma das mensagens veio acompanhada de um sonoro raio de luz que se espalhou magneticamente pela sala, vibrou nos vidros das janelas, no copo que ele tinha na mão e que se fragmentou numa fração de segundo... - Ah... - Depois desse acontecimento ele deixou a casa e saiu para o meio do campo, onde chorou e desfiou suas mágoas. Andava e olhava para o céu, fixava as estrelas que brilhavam nítidas no espaço noturno. - E então? – perguntei querendo saber mais. - De uma das janelas da nave a mulher ficou olhando para ele um tempo enorme. Mas ele não prestava atenção. Fitava os astros sem enxergar direito, envolvido com os seus problemas. Com o rabo do olho, no entanto, percebeu uma centelha verde pairando no alto entre as estrelas. Teve uma súbita intuição de aquela luz provinha da nave enviada do planeta Ostium para levar Merrita. E então ficou ainda mais desesperado, mordendo os pulsos, desgrenhando os cabelos. Uma tristeza. - Que horror! – exclamei. Queiroz me olhou com intensidade e prosseguiu: - Naquele instante uma densa neblina começou a cair, enevoando o tempo. Então ele puxou o zíper do blusão até o colarinho, buscando se aquecer. A atmosfera não só resfriava como também se dissolvia em chuva de granizo e quartzo estilhaçados. Aturdido, sem entender ao certo o que se passava, Daniel Gabriel pôs a mão acima dos sobrolhos buscando identificar a rarefeita luz que se movia na escuridão da noite regelada. Percebeu que a nave-mãe pousava. Com seu coração palpitando no peito o moço deixou que seus braços caíssem como molambos ao longo do seu corpo. Tinha intenção de acabar com a própria vida. - Que desespero hein? Não é mesmo? - Em tais circunstâncias o amor é sempre trágico – ele respondeu. - Você falou que havia outros alienígenas... Que posição tomaram? - Alguns deles já conheciam o rapaz e sabiam de sua relação com Marrita. Então se aproximaram dele com intenção de acalmá-lo. O rapaz não quis ouvi-los. Tratou-os com severidade, pensando, provavelmente, que queriam tomar satisfação... Chegou a sacar uma arma, conservando-a visível na mão. Os homens do espaço ponderaram e em seguida saíram sem lhe causar nenhum mal. Ele deixou então que a arma pendesse frouxa em sua mão. Desesperado não sabia como proceder. Grande demais era a dor pela perspectiva da perda de Marrita.
Escrito por Nilson Patriota às 13h50
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A ESTRANGEIRA (continuação)
Interpretando-lhe o pensamento a extraterrestre tomou uma atitude. Descendo da nave andou ao seu encontro. Translúcida, como uma nuvem, caminhou sob a chuva. Os olhos violáceos brilhando, os cabelos prateados caindo-lhe sobre os ombros. As roupas molhadas colando em seu corpo, ressaltando-lhe as formas perfeitas de mulher. Ao chegar diante dele segurou os seus pulsos, transmitindo-lhe uma corrente magnética de ânimo e de amor. Depois se abraçaram e assim permaneceram serenos, apaziguados. Quando os ânimos estavam relaxados, eis que um vulto pequeno aparece correndo na varanda da casa em penumbra, mostrando a mão agitada onde aparecia o brilho de uma arma. - Venha cá Orismundo! – a mulher ordenou. Um rapazola, olhos violáceos e ressaltados, correndo se aproximou, pegando em sua mão, sentindo-lhe os dedos tépidos, firmes, protetores. Embora fosse baixo, já não era um menino e devia ter aproximadamente vinte anos. - E Daniel Gabriel? Será que ele não percebeu que o jovem alienígena estava armado?... – perguntei. - Acho que não. Nem ele nem a mulher, pois estavam ambos por demais envolvidos com os seus sentimentos. E isso foi muito ruim, pois houve por parte do jovem um movimento muito rápido. Gabriel Daniel recuou para se proteger, porém era tarde de mais! Ferindo a obscuridade da neblina um raio azul explodiu entre seus olhos. E então para ele tudo se apagou. - Arre! – eu falei. - Ele nem sequer chegou a ouvir o baque de seu próprio corpo de encontro ao solo molhado. Uma perfuração, com uma circunferência de meio centímetro, suponho, deixava fluir de sua testa um jorro quente de sangue. - E que fez a mulher? – indaguei num engulho de vômito que me amargava na boca. - Ela entrou em pânico. Enlouquecida sacudiu o jovem pelos ombros, chamando-o de assassino. Ele não reagiu. Estava em transe e não atinava com o que havia praticado. A mulher continuava a gritar. Afirmava que não desejava sobreviver àquela vergonha. - Coisa mais triste... – comentei. - Sim. Muito triste. Enquanto isso o corpo de Daniel sangrava sob a chuva fina e insistente. Então desceu da nave um ET de olhos luminosos e pela platinada. Portava uma espécie de arma parecida com um fole. Decidido, ele caminhou para o corpo estendido no chão e junto dele parou. Engatilhou a arma e besuntou-o com uma substância azulada e brilhante. O cadáver de Daniel começou a derreter e logo desapareceu sob a chuva. - Ah, agora compreendo. Por isso seu cadáver nunca foi encontrado. - Isso mesmo. Dele não restou vestígio. - Que Deus o tenha em sua glória – disse-lhe em voz entrecortada. - É justo que seja protegido por Deus. Afinal fomos bons amigos quando estudamos no Liceu, em Caçapava... O vento da noite corria pelo céu. As estrelas apareciam com um brilho branco, seco e duro como aço. Naquele momento fui dominado por uma indefinida saudade, por uma espécie de nostalgia de outros mundos e tempos já passados.
Escrito por Nilson Patriota às 13h48
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