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CRÍTICA LITERÁRIA

 

Com o título de Os Chatos de Alvasdunas, o escritor Ubiratan Queiroz denomina seu novo livro de contos, por sinal, muito bom. Ubiratan tem vários trabalhos editados. Dele, o romance A Derrocada dos Bossais e os textos enfeixados na obra poética Coisas Tangenciais. É autor de outros trabalhos capazes de  adicionar, não conjunturalmente, importância à literatura do Rio Grande do Norte. Ubiratan, pelo que nos foi dado conhecer em seus escritos, nasceu dotado para as letras. Dependendo de sua vontade, facilmente alcançará o sucesso almejado. Isto, claro, se não se deixar impedir por obstáculos do tipo contribuição cultural não considerada devidamente, haver publicado pouco, manter-se afastado do foco da mídia, coisas desse naipe.

Opino sobre sua obra, pois acredito que todo o escritor deve ser, no bom sentido, criticado. Porém, tolo será o procedimento que tenha por finalidade criticar onerando prejuízo, quando pouco se entende sobre o que se fala, criticando por criticar os que desenvolvem atividades literárias e culturais. Tais críticas, entretanto, não passarão de meros pressupostos da opinião malformada imediata e conclusiva.

 

Embora ciente de que qualquer um possa fazer o seu trabalho, isso não equivale esquecer que escrever não é fazer qualquer trabalho. Escrever é algo que, antes de tudo, exige estudo e aprimoramento. Para se escrever (literariamente) há de se possuir vocação e talento, além de outras qualidades especiais, como as que são encontradas nos escritores considerados como tais: clareza, leveza, desenvoltura e simplicidade. Há, antes de nada mais, a necessidade de se saber utilizar os recursos do idioma em que se trabalha, levando ao caso a capacidade para construir a frase certa, a notícia concisa, o enredo interessante, a história capaz de agradar e prender o leitor. E, ao escrever assim, ainda se valer da fina ironia, do sarcasmo e de elegantes expressões – atributos encontrados apenas nos bons autores, entre os quais Ubiratan Queiroz se situa até pelo fato de que vem crescendo e se aperfeiçoando a cada nova obra.

 

 

Acho que um autor como Ubiratan deveria ser lido por leitores inteligentes, de bom quilate, da classe dos que exigem do autor mais que a simples narrativa linear. E, por que acho isso, aproveito o ensejo para tentar dirimir uma dúvida de leitores propensos a acreditar que o nome do autor é conquistado pela prolixidade, ou seja, ao escrever muitos livros. Embora seja gratificante produzir bastante, um escritor não precisa escrever um montão de livros para ser admirado ou se consagrar. Escrever bem não é escrever muito. Às vezes, um autor se consagra com um único livro. Outras, com um parágrafo, um poema. Em condições especiais, com epigramas, desde que o faça de modo a tocar o âmago daqueles que o lêem.

 

Com um autor moderno, e cheio de atributos, vamos nos encontrar no livro Os Chatos de Alvasdunas, obra onde se encontra leveza, humor, mordacidade, sarcasmo e expressões indicativas de que seus personagens não vieram de Marte nem da Lua. São indivíduos integrados ao meio a que pertencem por destinação ou por vontade. Tal fato pode ser constatado em suas estórias geralmente acontecidas em conservadores ambientes do sertão.

 

Claro, Ubiratan também se interessa por outros panoramas. Vez por outra ele aporta nas praias da capital. Porém seu destaque maior são os tipos peculiares do interior. Personagens prosaicos e tradicionais. As estórias aí estruturadas contêm as características próprias do meio. Ubiratan revela pessoas e ambientes que, embora conhecidos de uns, permanecem estranho a outros. Neles é que se situam cidades como Jardim de Piranhas, Jucurutu, Caicó, inúmeras povoações ou arruados, sítios e fazendas do sertão do Seridó. Os tipos descritos, comuns ao semi-árido, destacam-se pela obstinação, a inteligência, a sagacidade, a esperteza. Entre eles, porém, encontram-se indivíduos grosseiros, toscos, abrutalhados. A dureza da vida é escola. A observância dos hábitos e tradições, matéria modeladora de destinos, construindo a realidade de uns e os sonhos de outros. Psicologicamente descritos e analisados, esses tipos surgem como se estivessem atados a fatos e costumes perenes, sem que possam fugir à normalidade de suas vidas nem ao meio em que habitam. Entre eles, o autor recolheu importantes elementos formadores de sua realização de poeta e contador de estórias, sendo ele próprio originário do ambiente sertanejo, pois veio ao mundo no seio de tradicional família de Jardim de Piranhas.



Escrito por Nilson Patriota às 14h10
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CRÍTICA LITERÁRIA (continuação)

 

Na tentativa de definir o autor, que nos parece certo contar com qualidade vocacional para o métier literário, colhemos no romance A Derrocada dos Bossais um trecho antológico, entre muitos outros, em que ele fielmente identifica e nos apresenta um de seus personagens:

 

“Jorge de Alterosas era tipo calmo e comedido. Quando interessado em alguma coisa, não permitia que as emoções o traíssem. Pertencia a uma família de certo relevo no contexto social de sua terra. Muito tenaz nos seus objetivos, razão, talvez, pela qual, não fizera ainda trinta e cinco anos e já amealhara um sólido patrimônio”...

 

Tudo aí está claro, limpo, perfeito, dispensando intercalação, meio esconso ou indireto para obter o fim desejado que, no caso, será sempre informar, embora sucintamente, quem é quem ou quem seja fulano ou sicrano.

 

Haveria quem carecesse de mais informações, de mais detalhes? Só os bons autores conseguem obter semelhante resultado.

 

Vamos a seguir acompanhar outra deliciosa narrativa das que sempre consagram escritor, estilo e enredo, no conto A Ameaça, do livro Alvasdunas:

 

“Após a novena, reuniram-se todos no bar de João Talagada e soltaram as rédeas. Além de todas as características acima descritas, os “espantados”, como eram popularmente conhecidos, tinham lá também os seus preceitos, entre os quais o costume de confraternizarem sem a presença de estranhos. Não que existisse regra expressa nesse sentido, porém, de modo subjacente, sabia-se que os adventícios não eram bem vistos em seu meio, qualquer que fosse a situação”.

 

Há necessidade de se acrescentar sequer uma vírgula, um ponto, ao período transcrito? A este tipo de escrita se costuma chamar de literatura de qualidade. Literatura, aliás, praticada por poucos. De autores assim, tão cheios de criatividade, anda carente o Rio Grande do Norte. Mas, pelo visto, agora um deles chegou.



Escrito por Nilson Patriota às 14h09
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TERNURA ANTIGA

 

A brisa da manhã soprando do leste trouxe para dentro do quarto um suave perfume de rosas juvenis. Havia chovido e um tênue sol de inverno despontava translúcido na festiva canção dos pássaros. Revoadas de andorinhas, acordadas pela sonoridade dos sinos.

 

Bandos de arribaçães, maracanãs,  papagaios. Levanto-me e abro a janela. Nuvens cinzentas dissipavam-se ao longe, e  todo o céu se abre luminoso. Homens e mulheres caminham pelo imenso pátio de barro vermelho e molhado. Beatas dirigem-se à igreja. Levam terços e rosários  nas mãos. Com seus missais  - preciosas relíquias – hão de rezar ajoelhas em frente ao altar. Por enquanto andam na rua. Um cenário abstrato, de aspecto melancólico  e silentes, de movimentos sutis e ondulantes andares compassados.

 

 

O sono ainda pesando-me nas pálpebras, entorpecendo-me os membros, emplastando a visão de meus olhos preguiçosos, vermelhos.

 

Uma leve atoarda, um bulício, um murmúrio... Um arrastar de chinelos... Cheiro bom de café, de torradas sequinhas, e em seguida o chot, chot, chot da bomba manual retirando do poço a límpida água para o banho matinal, recuperador e refrescante.

 

As imagens vão-se revelando sob a copa dos fícus-benjamim,  das mangueiras, dos oitizeiros. Os cheiros se misturam aos odores caseiros. O perfume das rosas se atenua na claridade amena da sonora manhã.

A feira se organiza com os matutos chegando em seus burricos carregados de malas e sacos, entulhados de objetos e coisas. Meu coração grita em frêmitos, na busca pelo novo.

 

Rápido salto o peitoril da janela e saio para a rua. Em frente ao mercado, junto às bancas de verduras e frutas, mulheres e homens conversam e buscam desvendar os sonhos da noite. Alguém me olha. Em seguida dirige-se  ao interlocutor com o qual conversa:

- Esse menino né daqui não... Tem jeito de marinheiro...

- É o filho do novo escrivão – o outro esclareceu.

 

E eu passo perto, percorrendo as barracas que os cabeceiros aglomeram ao longo do quadrilátero do pátio, e fico deslumbrado com tudo o que vejo e ouço. Em minha retina se forma a imagem alegórica e quase mítica da primeira feira.

 

Novas revoadas de pássaros e mais gente chegando. O sertão se anima na manhã que cheira a cuscuz, tapioca e angu, enquanto os cabeços das serras despontam ao longe, na severa solidão de seus silêncios carregados de espera. 



Escrito por Nilson Patriota às 12h50
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 INSCRIÇÃO DE POUSO ALTO

 

O Visconde de Sapucahy, Presidente do Instituto Histórico Brasileiro recebe, em 11 de setembro de 1872, uma carta datada desse dia, assinada por Joaquim Alves da Costa, proprietário da fazenda Pouso Alto, vale do Paraíba do Sul. Segundo se sabe o missivista teria anexado à carta a cópia de uma inscrição vazada em caracteres de um idioma desconhecido. Nela o subscritor informava que escravos, trabalhando em sua pedreira, a encontraram. Por descuido, entretanto, a haviam partido em quatro partes. Um de seus filhos, com propensão para o desenho, havia feito uma copia da referida inscrição. Então, aproveitando aquela viagem ao Rio de Janeiro, resolvera mostrá-la às autoridades, e por isso estava enviando ao Visconde aquele conjunto de símbolos. O missivista encerrava sua comunicação dizendo que, embora não conhecesse o teor, tampouco o valor daquela escrita, fazia votos para que a mesma fosse desvendada. Encerrando sua carta, desculpa-se pela falta de tempo que o impedira de procurar pessoalmente o Visconde, razão pela qual havia se utilizado dos correios.

 

O DOCUMENTO

 

 

Tudo perfeitamente normal. Inclusive o fato do fazendeiro não ter levado consigo a pedra partida, nem se ter apresentado ao Visconde, o que talvez o haja impedido a timidez,  ou mesmo o receio de importunar um personagem da capital do Império quando sequer podia avaliar a importância do achado. Normal também a sua alegação de indisponibilidade de tempo.

 

Interessado na descoberta, o Visconde confia o assunto a Ladislau Netto, preeminente membro do Instituto. Não se sabe ao certo sobre o empenho que teve para eventualmente localizar o fazendeiro ou a sua fazenda. Sabe-se, no entanto, que não obteve resultado. Tal fato, como logo se perceberá, contribuiu grandemente para diminuir a importância do achado. Entretanto, caberia indagar se Ladislau Netto tomou as devidas providências ou simplesmente relegou-as a um segundo plano. Há de se admitir também que o tempo e as condições das comunicações eram mais que  precárias. Tudo era muito longe, tudo muito difícil, pois transcorrera acerca de 134 anos, vivendo o país em condições de grande atraso. Porém Ladislau Netto fez sua parte e conseguiu algo melhor. Baseado em seu conhecimento de línguas mortas concluiu ser de origem fenícia a inscrição.

 

No Brasil daquela época, o único a conhecer alguma coisa de ugarítico era o Imperador Dom Pedro II, porém não o suficiente para emitir um parecer autorizado sobre tal escritura de grande antiguidade. Por isso se predispôs a colocar Ladislau em contato com o sábio francês Ernest Renan, renomado estudioso das origens do cristianismo.

 

Ladislau, cioso de que o Brasil não perdesse a primazia da descoberta, achou por bem não enviar a Renan toda a inscrição, mas apenas uns fragmentos, pois queria testar o potencial de seu conhecimento. Renan, depois de interpretar parte do que recebeu, mas ressentido pela falta de confiança de Ladislau em sua pessoa,  declarou que a inscrição era fraudulenta. Diante do parecer de Renan, Dom Pedro II retirou seu apoio ao pesquisador brasileiro. Ladislau Netto, porém, não desistiu. A fim de decifrar aqueles signos, que sabia serem fenícios, prosseguiu estudando o hebraico, na esperança de nele encontrar similitude com os caracteres encontrados. E, sempre que podia, buscava a opinião de outros peritos, mesmo sabendo que naquele momento nenhum deles podia se meter a contrariar o saber de Renan. Mas, mesmo assim alguns especialistas consultados disseram haver encontrar autenticidade na inscrição. Outros, porém, mostraram-se reservados e tímidos, e muitos nem sequer responderam à consulta.

 

DÚVIDA FOI O QUE NÃO FALTOU

 

Enviados ao professor Adler, de Nova Iorque, este consulta um seu consórcio orientalista, membro da Sociedade Oriental de Boston, e enviou a Ladislau uma resposta desanimadora. Um jornal londrino, o The Academy, divulgou trabalho do professor S. Euting, de Strasburgo, apontando erros graves na inscrição. Tal opinião logo foi rebatida pelo dr. Jacob Prag, do Queen’s College de Londres, quanto aos erros, mas se mostrando reservado acerca do valor documental dos símbolos. 



Escrito por Nilson Patriota às 00h32
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INSCRIÇÃO DE POUSO ALTO (continuação)

 

O especialista alemão Konstantin Schlottmann chegou a ver alguma possibilidade de ser o texto  genuíno,  desconsiderando assim as opiniões contrárias, bem mais  numerosas. Cai então o prestígio natural do diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro e duvidosa se torna a procedência da Inscrição. Mas o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – instituição amparada pelo Imperador do Brasil, que sempre fora inclinado para o estudo e assuntos orientais – permanece gozando  universal conceito. Por isso Ladislau continuou a se aprofundar no estudo do hebraico a fim de utilizá-lo na decifração da inscrição, em virtude das relações entre as duas línguas. Prosseguindo, Ladislau Netto conseguiu fazer uma primeira tradução, que mais tarde foi melhorada. Por sinal, há mais de uma tradução de Ladislau Netto, tanto em português quanto em francês, antes que viesse a ser vencido pelo desencanto, e abandonasse a causa. Por isso não chegou a publicar seu trabalho definitivo e, sentindo-se ridicularizado por sua suposta credulidade, publicamente retratou-se em uma carta aberta a Renan, o que foi um erro e uma enorme fragilidade de sua parte. Esta, no entanto, era a situação de um pesquisador num país como o Brasil de centos e trinta anos atrás, adepto de carteirinha da idéia malsã da inferioridade racial proposta pelo conde Gobineau, vanguardista da germanofilia em termos universais e amigo íntimo do Imperador Dom Pedro II.

 

Em fins de 1967, depois de examinar por muitos anos a inscrição, o professor Cyrus Gordon, de Brandeis University de Massachussets, USA,  especialista em assuntos mediterrâneos e línguas mortas,  chegou à conclusão de que a mesma era genuína, esclarecendo que a opinião negativa no séc. XIX havia nascido de leituras imperfeitas e traduções erradas de partes do texto. O argumento decisivo a favor de sua autenticidade é, conforme Gordon, o seguinte:

 

“O texto... compreende leituras desconhecidas em 1872, que são, no entanto, avalizadas mediante inscrições descobertas no curso dos cem anos transcorridos desde então. Negar isto equivale a atribuir ao falsificador clarividência para antecipar cem anos de descobrimentos em uma disciplina altamente técnica: uma alternativa que nenhuma pessoa racional, conhecedora dos elementos de juízo a respeito, deverá escolher”.

           

Além das más leituras, a inscrição fora desvalorizada devido a certos giros gramaticais desconhecidos em 1872.

Em seu livro o Professor Gordon separa a afirmação epigráfica, e as contribuições que houve entre 1939 e 1968 para o endosso de sua leitura. A transcrição é a seguinte:

 

“Somos cananeus sidônios da cidade do Rei Mercador. Soçobramos nesta ilha distante, país montanhoso. Sacrificamos um jovem aos deuses e deusas celestiais no décimo nono ano do reinado do poderoso Rei Hiram, e zarpamos de Eziongeber adentrando-nos no Mar Vermelho. Viajamos com dez navios, e navegamos juntos por dois anos ao redor da África. Então fomos aportados pela mão de Baal, e já não nos achamos com nossos companheiros. Assim é que chegamos aqui, doze varões e três mulheres, à “Ilha de Ferro” Sou eu, o almirante, um homem que fugiria? Não! Que os deuses e deusas celestiais nos favoreçam!”



Escrito por Nilson Patriota às 00h30
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INSCRIÇÃO DE POUSO ALTO (final)

 

INSCRIÇÃO FENÍCIA

 

Em sua versão de Cyrus Gordon indica de que a viagem começara no ano 534 a. C., porque o Rei de Sidón, a que se alude, tem de ser Hiram III, que reinou de 553 a 533. A arribada ao Brasil teve lugar em 532 a. C.

 

Tal viagem pode ter sido excepcional, porém nada impossível, em vista da fortaleza e governabilidade dos barcos da época do périplo africano, executado por ordem do Faraó Necao, ao inverso, portanto, das viagens de cabotagem cartaginesas e as do comércio de estanho dos fenícios até o Mar do Norte. A isso se soma que o regime de ventos e correntes de ambos os lados da Linha Equinocial explica perfeitamente como essa nave perdera contato com as outras e fora arrastada à costa do Brasil.

 

Se os sidônios não deixaram seus ossos no Brasil, talvez tenham tentando a volta ao Mediterrâneo, perecendo na empresa. Entretanto, igualmente é possível que sobre eles se haja tratado no relato que fontes gregas conservaram de Cartago, depois do total aniquilamento que lhe impuseram os romanos, com resgate de sua história e cultura. Com efeito, Gonzalo Fernádez de Oviedo cita o dominicano Frei Teófilo de Ferrara, o Cremonense, que invoca Aristóteles (De admirandis in natura auditis). Em palavras do Cronista de Índias:

 

“Depois de haver saído pelo Estreito de Gibraltar até o Mar Atlântico, afirma ter sido achada, pelos cartagineses mercadores, uma grande ilha que nunca havia sido descoberta nem habitada por ninguém, senão por feras e outras bestas, pelo que a mesma se encontrava toda silvestre e cheia de grandes árvores e rios maravilhosos, e muito apropriados para se navegar por eles, mui fértil e abundante em todas as coisas que se podem plantar e nascer e, nascidas, crescer em grande uberdade, porém muito remota e apartada da terra firme da África, e por muitos dias de navegação. À qual, como chegassem alguns mercadores de Cartago, como por ventura, movidos pela fertilidade da terra e pela clemência do ar começaram ali a povoar e assentar suas vilas ou povoados e lugares. Pelo que, movidos os cartagineses e seu Senado mandaram apregoar, sob pena de morte, que nenhum, dali em diante, àquela terra ousasse navegar, e que aos que haviam ido a ela, os matassem, por razão que era tanta a fama daquela ilha e terra, que se esta passasse às outras Nações que a subjugassem, ou a outro de mais império que os cartagineses, receavam que lhes seria mui grão contrário e inconveniente contra eles e contra  sua liberdade”.

 

No séc. IV a. C. Cartago ainda era a grande potência marítima dominando o Mediterrâneo Ocidental, pelo que Aristóteles – ou o autor que fora – pôde obter a informação de boa fonte. O episódio poderia colocar-se na época do Tratado de Alalia – fins do séc. VI a. C. – pelo qual Cartago cerrava às cidades gregas e seus aliados o acesso ao Atlântico. Quanto do que nos transmite Fernández de Oviedo corresponde à realidade histórica? Pensamos que os Cartagineses, se chegaram a tomar conhecimento de tal “ilha”, de características supostamente compatíveis com o Brasil, teria sido através dos próprios sidônios dela regressados, ou do eco de seus relatos, o que em verdade não pode ser mais que uma possibilidade.

 

Podemos descartar as especulações de Oviedo em torno de Héspero e das Hespérides.  Mas é necessário que nos detenhamos na citação que ele faz do capítulo LXVIII do De mirabilis mundi, obra do geógrafo romano C. Julio Solino, a qual, impressa em Viena por Johannes Camers, começou a circular nas datas em que nosso

 

Cronista iniciava a redação de sua General y Natural História: Além das Gorgadas se acham as ilhas Hespérides, segundo afirma Estacio/Seboso, a quarenta dias de navegação in intimos maris sinus reces. Erunt. Acrescenta Oviedo, que Plínio em sua História Natural (livro VI, cap. XXXI), também cita a Seboso em tal sentido;  e acode também às Etimologias de Santo Isidro (Livro XIV, cap. VI) que situa as Hespérides para lá das Gorgadas, sub Athlanteum littusin intimis maris finibus. E logo o Cronista parece ter razão ao identificar as Gorgadas com as ilhas de Cabo Verde; as Gorgodas são um ponto de partida para se chegar às Hespérides, que não se acham em águas próximas ao continente, senão metidas no mar: são alcançadas em quarenta dias de navegação.



Escrito por Nilson Patriota às 00h30
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