A HORA ANTES DO AMANHECER
A hora antes do amanhecer é feita de sortilégios. De suave magia. Durante essa hora as flores desabrocham mais belas. Os pássaros – despertando do noturno repouso – desatam o peito em cantos e gorjeios. Felizes pelo renovado milagre de ver um novo dia. Todos os bichos, sobretudo os galos, ela
O vento murmura e desliza sobre as vagas, farfalhando levemente na folhagem, visitando as galhadas e vigiando para que os pássaros não deixem de desperta em seus ninhos.
Nas solitárias enseadas, as vagas sussurrantes se espraiam na areia. O sonolento mar escuta a sussurrante voz do vento e haja a despertar desde as suas recônditas profundezas.
Entre a noite que vai e o dia que vem há um hiato de suavidade e ternura. A transição somente se completa com o canto de cada pássaro em cada galho.
Enquanto as milenares vozes da noite emudecem, vão cedendo seu lugar aos gloriosos clamores da manhã. Ainda estremunhando, expande-se o alvorecer por sobre a crista dos montes. De vagar, como uma corrente líquida descendo os azulados píncaros, a claridade desliza e se espalha na planície molhada de orvalho. Atentas aos detalhes as aves migratórias aguardam com regularidade os sinais anunciadores da partida. E, conquanto a fresca madrugada se aqueça, nela própria ainda guarda os remotos instintos dos pedaços da noite que permaneceram dentro dela.
A manhã-ainda-noite se enrosca e boceja preguiçosa. Sente e goza a energia no dia. E então sua transformação acontece como num sonho. Não como uma ilusão qualquer, um capricho humano, mas como algo nascido do processo de transporte da Natureza por sobre as suas próprias fantasias e quimeras. Certamente, isso não acontece por acaso, e sim porque a hora antes do amanhecer ainda roreja o orvalho da noite sobre o dia. Ocioso o parceiro dia ronrona e se espreguiça. Lembra a suçuarana que alonga os fortes membros, relaxando a musculatura, rosnando docemente antes de abandonar a maciez da palha em que dormiu.
A hora antes do amanhecer se orvalha e roreja. Conserva dentro de si os restos dos noturnos rumores. Porém já ensaia louvores à divindade o Sol. Tem cantos e rondós, dobrados e simples, inspirados nas verdejantes folhas, nas multicoloridas flores, na cromática fantasia dos insetos. Animada pelas distantes cantilenas das serras, a hora antes do amanhecer não abre mão de escutar cicios e rumores. Nem deixa que passe sem ser ouvido o gesto esvoaçante das libélulas, a dança das borboletas, o cego vôo dos besouros, o surdo triturado das formigas, o inaudível crepitar da grama crescendo lentamente.
Escrito por Nilson Patriota às 10h45
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A HORA ANTES DO AMANHECER (continuação)
Somente os tristes não escutam os mágicos e encantadores sons da hora antes do amanhecer. Os melancólicos não têm humor para a alegria, só o tem para as queixas... Mas a hora antes do amanhecer é grande restauradora de esperanças. Apaga silenciosamente a má lembrança, esquece os embaralhados pesadelos. Lembra-nos, por sua vez, de que o nosso despertar é mais uma das manifestações de amor da mãe-natureza. Com ele ela nos concede o alimento, o fogo e o teto, a predisposição para o amor, a coragem para afrontar os desafios de cada dia, a sabedoria para entender o porquê de estarmos sempre de passagem por este belo e estranho mundo. Inútil desperdiçar tal concessão. Seria um menoscabo a nossa espécie não aproveitar tudo o que de graça nos é dado por Deus. Se não somos capazes de entender nossa missão, melhor não viver a ternura da hora antes do amanhecer. É nessa hora que os ventos varrem os factícios empecilhos e afastam os fictícios fetiches. Já livre da solidão e do ocioso silêncio impostos pela noite, novamente emergimos para a consciência, a aspiração, a solidariedade, a vida. Emergimos da pequena morte do sono com todos os nossos sentidos. Na madrugada, que se prepara para aquecer-se ao sol, a hora antes do amanhecer comemora nossa efêmera e passageira estada na amada Terra, que em troca maltratamos e destruímos.
Abra o homem a sua janela nessa hora e logo ouvirá a natureza solfejando a inesquecível e doce canção da continuidade, convencendo-nos de que somos um pedaço do chão, uma válvula do coração da vida, que pulsa ao nosso redor e dentro dele próprio.
Na hora antes do amanhecer, flores e pássaros são os nossos irmãos. Falam conosco a linguagem afetiva do amor, estimulando-nos ao otimismo. Um silêncio animado por leves murmúrios põe em nossa alma um contagiante sentimento de aproximação e solidariedade para com os que nos cercam e aos quais só raras vezes avistamos. Um novo ser renasce em nosso íntimo, guerreiro que afugenta da consciência os duendes da noite.
Deus e o homem, unidos e afinados dão-se as mãos. Sentem a mesma ternura e participam da mesma fé telúrica. Interligam-se ao coração das plantas, dos irracionais, das pedras, mostrando que o universo é uma só e mesma coisa dentro do absoluto panteísmo do Eterno. Começo, plenitude, morte e retorno.
Escutem. Há prenúncios de amor na hora antes do amanhecer.
Escrito por Nilson Patriota às 10h43
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VÕO DE PÁSSARO
Esgalgado e garboso, semelhando uma garça de plumagem cromática, um pássaro azul e róseo repousava em um galho desprovido de flores e folhas. Ao pressentir a aproximação humana, projetou para frente a cabeça e o recurvo pescoço, erguendo-se como um pernalta a pescar na beirada do brejo. Então, abrindo as asas elevou-se no espaço, e, majestosamente, flutuou sobre a várzea.
Lá em encima descreveu, altaneiro e bizarro, um largo círculo, enquanto colhia informações sobre o ambiente.
A tarde começava a se embeber na densa nostalgia do ocaso.
Naquela hora, os roceiros deixavam suas roças para voltar a casa. E, ao lerdo ritmo de moderados passos, as reses regressavam aos currais. Plácido e vagaroso o pássaro planava. Revolvia, talvez, a memória instintiva, tentando encontrar as coordenadas do caminho deixado para trás. Como sabemos, pássaros são criaturas migratórias que fazem, periodicamente, travessias. Durante as migrações ocorre que muitos deles se extraviam sobre continentes e oceanos. E quando isso acontece, ficam fragilizados, tornando-se vítimas de garras, bicos aduncos e caninos. Estes são perigos que eles jamais memoriam. Mas, mesmo se abatem e sentem quando perdem a bandada.

Ao nosso pássaro, prostrava uma inquestionável melancolia. O pesar e a solidão o acabrunhavam. Entretanto, planando nas alturas, possivelmente readquiria o tino e voltava a ficar suficiente. Impossível seria, no entanto, sustentar-se no alto indefinidamente. Criaturas viventes, os pássaros precisam repousar. Como, porém, quando se achava estranho em terra alheia? Por isso nem mesmo a admirativa exclamação de um menino poderia reanimá-lo. Voando ao fim da tarde, quando suas plumas azuis refletiam a luz avermelhada do crepúsculo, o pássaro parecia querer encontrar-se. Em seu vôo, instintivamente refazia sua perdida rota. E embora o sol estivesse prestes a afundar no longínquo horizonte, continuava girando sobre campos e árvores. Visto no ar era um espetáculo de equilíbrio e graça.
Escrito por Nilson Patriota às 16h43
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VÕO DE PÁSSARO (continuação)
Um menino, que vinha com sua mãe pelo caminho, avistou-o no alto. Então estremeceu e pulou sem se conter. Com a pequena mão a proteger-lhe os olhos do vermelhão do ocaso, ergueu o indicador para o céu e gritou:
- Que belo ó mamãe! Que lindo pássaro! – disse fascinado.
A mulher, tomada de interesse ficou estática. Voltou os olhos ociosos para o alto, olhando e olhando sem nada enxergar. Logo fez um gesto de desânimo, justificando o fato de não ter visto nada. Em silêncio seguiu, conforme sua urgência, aproveitando o leito arenoso e macio do caminho. As sombras do entardecer já se alongavam. O pássaro revoluteava lá no alto. Depois serenou, sentindo que a noite breve cairia.
Do alto onde estava mergulhou para o solo, tornando-se assim mais visível e mais belo. Sua envergadura de pelo menos dois metros impressionava. Houve um momento em que todo ele me pareceu dourado ou prateado, refletindo cambiantes tonalidades nos encontros das asas, tons alourados e verdes nas penas espatuladas do penacho da cauda. Sua figura e porte surreais gravavam-se no instantâneo dos faiscantes olhos do menino.
Fascinada a criança amava e temia o belo pássaro, já por seu volume, já pelo seu exotismo. Passando de relance sobre minha cabeça, distraidamente o pássaro me olhou. Depois seguiu direto para um rícino carregado de ásperos e rimosos frutos, dando-me a impressão de que só ali, em meio às endurecidas folhas, ele havia entrevisto a almejada paz.
Maravilhado o menino repetiu:
- Olha mamãe! Que lindo! Que lindo!
Ao ouvir o menino, o pássaro novamente lançou-se nas alturas. Rápido e mágico penetrou as sombras do crepúsculo, tornando-se finito e remoto, um ponto e nada mais na refração da luz que resvalava na abóbada celeste.
- Mamãe, ele se foi! Ele se foi, mamãe... Ah, como era lindo! – exclamou o menino, os olhos postos no céu, a fisionomia cambiando alegria e tristeza.
Mas o pássaro não prosseguiu viagem. Num espaçoso giro regressou. Ao se aproximar do lugar por ele escolhido para o pouso, aos poucos reduziu seus movimento e, acercando-se da grande amendoeira, penetrou entre folhas ruvinhosas e rosas rúbidas, sem produzir sequer um tênue farfalhado ou trêmulo rumor.
A noite logo veio. Quietos adormeceram a criança e o pássaro. Não tardou, entretanto, para que o pássaro azul sonhasse com o menino a lhe alisar a plumagem brilhosa, e que, em contrapartida, o menino fosse por ele conduzido, em sonho, aos lugares mais lindos do mundo.
Escrito por Nilson Patriota às 08h49
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