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POR: NILSON PATRIOTA

O INCANSÁVEL SCHWENNHAGEN

 

O austríaco Ludwig Schwennhagen foi um abnegado dos estudos antropológicos. Dominava com desenvoltura a Filologia, a Arqueologia, a Etnografia e a História. Anos a fio, dedicou-se à pesquisa em geral, mas em particular à pré-história brasileira. Fez algumas descobertas, nem sempre valorizadas por seus congêneres. Escreveu intuitivas Memórias que, agora esquecidas, talvez repousem nos empoeirados arquivos das instituições dedicadas ao testemunho da aventura humana em seus múltiplos aspectos. Numa dessas Memórias, resultante de uma viagem que em 1928 ele fez a Touros, Schwennhagen afirmou, textualmente, que os Fenícios foram os primeiros colonizadores do nosso país. E, narrando e citando, ele reconstrói todo o períplo desse povo Fenício em derredor da África, bem como o porquê de terem sido atraídos por ventos e correntes marinhas para o rebordo continental da América do Sul, há mais de dois mil anos.  

 

A que propósito aqui eles vieram? A quem lhe perguntava ele respondia: Leiam a História! Em seu livro – Antiga História do Brasil – 1100 a.C. a 1500 d.C – Tratado Histórico – Editora Cátedra Ltda. – Rio de Janeiro – 1970 – , ele explica que os Fenícios vieram acidentalmente, trazidos pelos ventos e as correntes oceânicas, quando a mando do grande Rei Hirã, o Mercador, circunavegavam a África tendo em vista o reconhecimento do Ocidente e a expansão comercial de Sidon e Cartago.

 

Neste tópico, Schwennhagen se estende e demonstra um minucioso conhecimento da História. Em seu estudo conclui que, chegando ao Brasil os Fenícios fundaram três cidades: Tur, ou Turo (Touros), no Rio Grande do Norte; Tur (Torres) na Bahia; e, finalmente, Tutóia, próxima ao delta do Parnaíba, no Maranhão. Tutóia – topônimo resultante da junção de Tur – capital do poderoso império comercial conquistado na Antiguidade pelos Fenícios e posteriormente ocupado pela Síria e parte do Líbano – e a lendária Tróia, vencida pelos gregos e decantada pelo genial Homero, autor da Ilíada e da Odisséia.

 

Examinemos de forma sucinta em que se baseia o estudioso austríaco ao montar o fragmentado quebra-cabeça de sua surpreendente teoria. Antes de tudo é dever informar que, segundo alguns a tese de Schwennhagen resulta dos ensinamentos da História; para outros, no entanto, provém da imaginação.

 

Filólogo, etnólogo, arqueólogo, historiador, Ludwig Schwennhagen foi, antes de tudo, um estudioso esforçado, um incansável pesquisador; um quase fanático decodificador de álibis históricos e imaginosas criações. Reconhecida tem sido sua notória intimidade com a Antiguidade, sobre a qual voluptuosamente se debruça em busca de resposta para inextricáveis paleógrafos vazados em línguas já extintas. Mas a esses velhos textos, por certo intraduzíveis, ele se dedicou com a obstinação de um decodificador de códigos secretos. Daí a adesão espontânea a uma existência ascética e voltada inteiramente ao estudo de provectas culturas. E assim, do modo mais coerente por ele concebido, aprofunda-se nas fontes históricas da Antiguidade persa, fenícia, egípcia, israelense e greco-romana, examinando e comparando, à saciedade, a variada floração de inscrições rupestres que vão sendo encontradas a cada incursão nos sertões brasileiros. Duvidoso, porém, de que o significado dessas inscrições viesse a se perder para sempre no milenário mutismo dos símbolos e enigmas que propõem mistério e exotismo, buscou desvendá-los num ininterrupto exercício de parábolas e a mercê de um dubitativo auxílio da História.



Escrito por Nilson Patriota às 07h32
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O INCANSÁVEL SCHWENNHAGEN (continuação)

 

Para reforço das teses que começou a expor e defender, ao tempo em que ensinava grego e latim em instituições educacionais brasileiras, Schwennhagen acabou se deparando com alguns elementos comparativos entre o trabalho de pesquisadores como Apolinário Frot, Rondon, Bernardo de Azevedo e a perspectiva por ele perseguida. É que todos eles se abeberavam em idênticas fontes: as intraduzíveis (até hoje) inscrições rupestres. Antes, porém, de se inteirar sobre tais resultados, Schwennhagen já havia percorrido a hinterlândia brasileira, através do Norte, Centro e Nordeste, em busca de petróglifos e outros documentos líticos capazes de sustentar a veracidade de suas quixotescas e, no entanto, evidentes teorias sobre que chegou a pender certa descrença. Para nossos pesquisadores (por onde andarão?) o austríaco talvez fosse apenas um visionário erudito em busca de comprovar sonhos impossíveis.

 

Ele, no entanto, não se deu por vencido. E, a fim de justificar uma existência dedicada ao estudo de inscrições vazadas e grafadas em hieróglifos e símbolos, a qual já havia sido enriquecida pela assiduidade do esforço de pesquisador e professor, Schwennhagen terminou escrevendo um polêmico, mas, ao mesmo tempo, oportuno. Por alguns, tal livro será sempre visto como fantasioso. Outros, entretanto, o acharão oportuno. Obra plena de indagações e de surpreendentes descobertas, seu livro pode ser apontado com imparcialidade como a mais importante contribuição dada por um estrangeiro ao conhecimento de nossa pré-história. Na Antiga História do Brasil, Ludwig Schwennhagen afirma que os Tupis, um dos mais obscuros segredos com que se defronta a antropologia nacional, provêm dos Cários, etnia semítica aparentada com os Fenícios, natural da Ásia Menor, mas já desaparecida. O livro de Schwennhagen pode ser comparado a um labirinto com muitos corredores e galerias habitadas por surpresas. O fio da meada que ele segue a fim de se orientar no subterrâneo, foi-lhe ofertada por Diodoro da Sicília, historiador grego de Agrigento e habitante da Roma de Cícero e Júlio César. As teses de Schwennhagen são enclaves que o ligam à edição grega da História Universal de Diodoro, que a escreveu em 45 tomos, dos quais somente a terça parte chegou aos nossos dias. Nos capítulos 19 e 20 dessa obra o austríaco teria encontrado – segundo esclarece – o que há anos procurava. Teve, entretanto, de seguir o curso do raciocínio crítico que o conduziria à prova que o afirma durante a elaboração de sua minuciosa e vasta teoria. 



Escrito por Nilson Patriota às 07h30
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UM ANTECEDENTE NA HISTÓRIA

Fenícios foram os primeiros? E Portugueses, os últimos?

 

É possível que o historiador porto-riquenho, Ádám Szászd, desconhecesse a Antiga História do Brasil, do pesquisador austríaco Ludwig Schwennhagen, ao se pronunciar por ocasião do VII Congresso da Associação Ibero-americana de Academias de História, Rio de Janeiro, ano 2000. Se, entretanto, ele a conhecia deixou de reconhecer o pioneirismo de seu autor no assunto. Pois houve, sim, um descobrimento anterior. Antes dos Portugueses, os Espanhóis aqui estiveram. Em 1499, navegaram ao longo do nosso litoral com Alonso de Ojeda, descobridor do Rio Amazonas. Dessa esquadra participou Américo Vespúcio. Suspeita-se de que os primeiros esboços da terra brasileira foram por ele rabiscados por ocasião dessa célebre viagem, na qual concebeu a idéia de “Novo Mundo” para o continente que os demais acreditavam ser a península asiática mais próxima do Ocidente. Não sabemos quantas vezes desembarcaram durante essa viagem. Dela, porém, ficou a experiência. E depois de seu regresso à Espanha Vespúcio seria convidado por Dom Manuel para vir com Gaspar de Lemos tomar posse da terra descoberta em 1500 por Cabral. A expedição de Gaspar de Lemos, na qual Vespúcio tomou parte, aportou ao litoral norte-rio-grandense a 07 de agosto de 1501, na fachada atlântica de Touros.

Outros antecedentes aconteceram. Leve-se em conta o fato de que o continente americano recebeu, no decorrer dos milênios, inúmeras migrações. Se não fosse a constatação dessa evidência, com base em indícios, sobremaneira gravuras e inscrições litográficas, deveríamos ainda perguntar se não teriam sido os americanos que, migrando desde tempos remotos, povoaram a Europa, e todo o Oriente? Há quem defenda com seguro argumento essa possibilidade.

Ádám Szászd refere, contudo, a Antes de Colombo, do professor Cyrus Gordon, editado em Nova Iorque – 1971. Tem este livro grande importância. Tornou-se incentivo da pesquisa que busca iluminar a obscuridade paleográfica reinante em países como o Brasil, onde os estudiosos têm sido resistentes à possibilidade da presença fenícia em nossa pré-história. Tal atitude, apenas supositiva, vem contribuindo, nos últimos cem anos, para o obscurantismo acerca da autenticidade de inscrições rupestres desde muito descobertas. Uma delas a de Pouso Alto, encontrada 1872 numa fazenda localizada à margem do rio Paraíba do Sul, que corre através dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.



Escrito por Nilson Patriota às 09h10
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UM ANTECEDENTE NA HISTÓRIA (continuação)

Fenícios foram os primeiros? E Portugueses, os últimos?

 

          Talvez sejam poucos os que se recordam dessa controversa inscrição. Mas durante o final do séc. XIX e início do XX, a referida inscrição foi discutida, afirmada e negada. Por último seria execrada, tachada de apócrifa por Renan, caindo no esquecimento.

Vez por outra, vinha à tona, acionada pela ininterrupta atividade pesquisadora dos estudiosos do nosso passado. Para a maioria destes, no entanto, a pretensiosa negação de Renan, jogando água fria na fervura do entusiasmo visionário de alguns, não havia provado, por a + b, a absoluta ausência de indivíduos de língua semítica na Antigüidade do continente americano, ou mais propriamente na pré-história brasileira.

Prova disso é que na segunda década do século XX, seguindo a picada aberta na pesquisa da nossa pré-história, como fizeram esses sustentadores de teses antropológicas e etnográficas, chamados Apolinário Frot e Bernardo de Azevedo, que Ludwig Schwennhagen deu início às ilações que acabariam originando sua obra. Da mesma conhecemos a 2ª edição, lançada pela Editora Cátedra Ltda., Rio de Janeiro – 1970. Após uma série de associações em que são arroladas narrativas lendárias, estudos de brilhantes autores (entre eles o grego Diodoro da Sicília), bem como relatos ou descrições de acontecimentos de guerras, cercos e invasões (entre os quais o sítio militar e a derrocada de Tróia), bem como notícias revelando a fundação de colônias fenícias em várias partes do mundo, tanto no período da opulência de Tiro, como depois do esfacelamento de Cartago, o historiador austríaco chega à conclusão de que os fenícios foram os primeiros colonizadores do Brasil, em cujo interior penetraram através da hinterlândia Nordestina e se utilizando, entre outros, do porto de Touros.

 Obstinado estudioso do passado, embora tendente à utopia, Schwennhagen comete seus excessos em erros e acertos. A nosso entender, algumas de suas revelações são pertinentes. Surpreendem pela verossimilhança com os fatos históricos do Velho Mundo.

Filólogo, ele identifica mais de duas mil palavras fenícias no idioma Tupi, justificando o processo de assimilação dos termos semíticos pelo idioma tupi-guarani, baseado no abrandamento da consoante “r”, o que, segundo assevera, tornou-se regra comum.  

O achado de Pouso Alto recebeu, pelo interesse despertado entre os orientalistas, a adesão do Imperador Pedro II, culto e voltado para o estudo de antigas culturas. A inscrição copiada esteve em suas mãos. Ele a examinou e não descartou a possibilidade de que fosse fenícia. Afinal, fora esse o primeiro povo a criar um alfabeto, facilitando grandemente suas relações comerciais com diversos parceiros. Certo desleixo, porém, como a má condução na troca de informações com o mundo científico da época, contribuíram para prejudicar a descoberta. Daí por que, logo que o meio acadêmico internacional entrou em desacordo, Dom Pedro se desinteressou pela causa da autenticação, retirando o aval que ao pleito do IHGB. Sem autenticidade comprovada, o achado foi deixado de lado e ficou esquecido.

Mesmo relegado ao presumível, o assunto persistiu vivo e controverso na área de interesse dos grandes especialistas do século XIX. Estes, no entanto, não haviam desenvolvido técnicas de decodificação capaz de trazer à tona a esperada tradução.  Desse modo, a inscrição de Pouso Alto permaneceu inumada, reaparecendo somente depois de reabilitada pela autoridade do Professor Cyrus H. Gordon, da Universidade de Brandeis, em Massachusetts, EUA. Depois de decifrá-la ele explicou o motivo responsável pela controversa no século XIX, como anteriormente já vimos.



Escrito por Nilson Patriota às 09h07
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