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“AS MIL E UMA NOITES” – I

O reencontro com gênios e seres encantados, que impressionam por suas habilidades e poderes; com prostitutas sagazes e lindíssimas princesas; com sultões, que a tudo almejam e podem; com louváveis contadores de histórias, capazes de se demorarem dias e meses em uma única narrativa; com ladrões e punguistas cuja habilidade pode transformá-los em inigualáveis mágicos; com a ilimitada fanfarronice de rufiões e a impudente atividade da canalha de todos os níveis e raças, forjando tipos os mais impressionantes, de salteadores e facínoras que, mesmo errados continuam vivendo e sendo tão reputados como os que os perseguem, ou com eles protagonizam as mais desconcertantes estórias; tudo isso e muito mais ainda, é com o que estamos convivendo durante a releitura de um velho livro recheados de contos das Mil e uma noites.

Nessa antiga coletânea sempre nos chamou atenção a inteligência, a astúcia e perspicácia de cada personagem, mas sobremodo a acuidade dos narradores, que tudo fazem no sentido de superar a habilidade de seus concorrentes, como tem sido hábito, desde tempos antigos, entre os mestres do conto oral, tais quais o reputado xeque Ishak-Al-Monabbi e o operoso Abu-Ali, do Jorasán que, sobremodo, valorizam sua arte. Tanto que, ficavam extasiados ante a qualidade do estilo e a impostação de voz com que o rei Kendamir, herói de grande valor, brioso ginete, hábil no manejo da lança, vencedor em guerras, caçadas e torneios, mas acima de tudo amante da poesia, da história e do saber, narrava seus contos. Agora, porém, ele exige que seus homens percorram os países do mundo em busca de Abu-Ali. Por quê? Pelo fato de ser ele o único narrador capaz de relatar, noites a fio, sem entediar nem exaurir seus ouvintes, a fantástica história das aventuras de Hassan Al-Bassari. E para isso ele se justifica dizendo que não podia mais suportar o fato de desconhecer uma estória à qual todos se referiam, sem sabê-la narrar, e que ele, o maior narrador do país, infelizmente, desconhecia. E como não podia sossegar enquanto não tivesse na memória a dita narrativa, ordenara a seus vassalos que a procurassem e a qualquer preço a adquirissem, porque seria impossível continuar vivendo sem conhecê-la em seus mínimos detalhes..

“Cada um de vós – ele ordenou – , partirá para os países estrangeiros e percorrerá todos os reinos e comarcas da Terra em busca dos sábios, dos poetas e dos narradores de histórias mais proeminentes e famosos. A todos perguntareis se conhecem as aventuras de Hassán-Al-Bassari. E se houver quem as conheça, rogareis que, a qualquer preço, relate-as ao escriba que vos acompanha. Pois, só com esta história podereis salvar a vosso amo do suplício que lhe aguarda”.

As Mil e uma noites! Bastaria a nomenclatura dos títulos das narrativas, as enumerações geográficas, históricas e circunstanciais desse fantástico livro, para torná-lo indispensável. Além da mágica beleza que acompanha suas narrativas, As Noites continuam sendo valioso relicário de lendas, mitos e histórias orientais de uma fase especial do gênero humano. Mas ele ainda alinha, como para se completar até o inalcançável, imaginários mapas, fronteiras e acidentes geográficos que com o tempo adquiriram outras feições. Designações de reinos, países e nações cujos nomes foram ou têm sido mudados. Decanta, além do mais, a óptica popular de um longo período da história dos povos orientais. Bosquejo ou diagrama de um tempo já morto, mas sempre renascido em suas dimensões e expansão da arte, da religião e dos negócios, continua atual e mais belo à medida que o tempo passa. Necessário, portanto, ao nosso tempo, marcado pelo pragmatismo e o desencanto. Peguemos uma carona, sempre que possível, em suas páginas e façamos uma viagem emocional que poderá nos maravilhar ao longo dos anos, independentes de nossas ocupações ou nossa idade.

Por séculos, que não foram poucos, esta obra ficcional esteve restrita ao âmbito da oralidade. Viveu através do colorido dos contos populares que justificam seu expressivo nome. Mas conservou vivo o encantamento de suas vívidas histórias. Essas belas narrativas, inclusive as que posteriormente foram inseridas ao contexto da obra, viveram por si mesmas, transmitidas de boca em boca, como partes de um conjunto e sem pretensão de se tornarem peças literárias. Foi assim que, de início, freqüentaram os ambientes estritamente populares. Depois passaram ao domínio dos profissionais do ofício. Então passaram a freqüentar mercados e logradouros próprios dos rodeios de estórias. Com o tempo, passaram a freqüentar ambientes mais seletos. Mas, tanto nos salões dos palácios quanto nas dependências exíguas das tendas foram ouvidas com respeitosa concentração e silêncio.



Escrito por Nilson Patriota às 13h23
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QUIXOTE

 

Já não sei se serei eu, ou se ainda és

Aquele que se veste com antiga armadura

De arrojo endurecido e de ríspida loucura

Que façanhudo arremete com a lança pontuda 

E com ímpeto se atira sobre meros moinhos

Que semelhantes são a colossais ciclopes

- Oh, tonto cavaleiro de nobre fidalguia!

 

Arte Maria Emília

 

Oh, Quixote, não sabes o bem que nos farias

Se por horas deixasses o sono secular

E do imemorial repouso, qual louco ressurgisses

Montando Rocinante, faminto, desgrenhado

A Dulcinéia amando e a Sancho Pança ouvindo

O elmo sobre o crânio, na cinta a espada reluzindo

Para reocupar a impreenchível lacuna que deixaste.

 

Daqui te vejo, insigne cavaleiro da mui “Triste Figura”

E rogo que te voltes para essas áridas paragens

Onde ásperos gigantes desprezam a honradez

A indignação moral e o poder de teu braço.

Quem sabe se outra vez não vencerias

A rude natureza dos incautos mortais

Que jamais entenderão a ira de teus atos!



Escrito por Nilson Patriota às 12h05
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AS IRMÃS

 

Na casa azul da esquina, por onde cedo eu passava

Duas moças de corpete, duas irmãs pestanudas

Os tenros braços erguidos, lânguidas mãos me acenavam.

Pela expressão labial, uma dizia: “Te quero”.

Por sua vez sussurrando, “te quero” – a outra dizia.

E assim me disputavam na branda luz da manhã,

No triste ocaso do dia, quando eu ia

Ou quando eu vinha da escola ou do trabalho.

 

Se volúvel me tornava e as esquecia ou trocava

Pelos afagos de outras, ingênua uma chorava

Por se sentir mal amada, enquanto a outra sorria

A fim de me convencer com sua esplêndida

Alegria, ser a que mais me queria.

 

Tinha longos cabelos a que sorria,

Em mechas derramadas sobre os seios

Em seus olhos um brilho azul fulgia

Fertilizando a raiz dos meus anseios.

Suas mãos de ourives trabalhavam

Meu corpo magro, desvalido e chão

Na ganga seca e pobre rebuscando

Veios auríferos, gemas preciosas

Onde somente cascalho e borra havia.

 

Era mais vegetal que mineral

A irmã que sorrindo me amava.

A que chorava tinha longos cílios



Escrito por Nilson Patriota às 07h16
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AS IRMÃS (continuação)

 

Olhos de um langor tão melindrado

Que sendo dia de contentamento

Os tons alegres logo destoavam.

Quais nodosas raízes, os seus dedos

Ao me acariciar me magoavam

Sua boca travosa maldizia

Seu olhar de maldade me rendia.

 

A primeira chamava-se Ventura

O nome da segunda era Amargura.

 

Essas duas meus sonhos perturbaram,

A minha dúbia vida devassaram

E a duras penas teceram meu sofrer.

Mas o tempo passou como um ciclone

Que a tudo destrói e a tudo arrasta

Levando o vendaval à que sorria.

Então, de modo rude e sem nenhum cuidado

A que chorava me pensou a mágoa.

Banhou-me a alma com seu pranto ácido

Encheu-me a boca de amargoso hálito

E apossou-se do meu ser frustrado.

 

Sem dar-me chance trabalhou-me a dor

Roubou-me o sonho, matou-me a fantasia

Selou-me o coração com o desamor.

De lástima encheu-me toda a adolescência

Com pranto aflito o coração banhou-me.

Do meu amor zombou com cínico riso

Da minha solidão troçou com impudência

E do meu âmago afugentou a calma.

 

Era mais mineral que vegetal

A irmã que chorava e não me amava.

 

Na casa azul da esquina

Por onde cedo eu passava...



Escrito por Nilson Patriota às 07h12
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