COMO SURGIRAM AS PRIMEIRAS ESTÓRIAS?
Há vários pareceres, pois o assunto tem sido considerado sob diversos aspectos. Sou propenso a acreditar que essas narrativas, atribuídas a povos antigos como chineses, indianos, persas e árabes, tiveram origem remota e vária. Contando sempre com a espontânea contribuição de povos em fase de amadurecimento cultural. Por volta século X foram consideradas fruto da imaginação popular. Posteriores, portanto, ao tempo em que as tribos primitivas haviam se organizado em cidades-estado e se consolidavam como unidades de uma civilização urbana já bastante complexa. Parece-me inócuo o parecer de que os homens tenham dado início a sua própria história há apenas seis ou sete mil anos e que todo o seu passado foi vivido na obscuridade da pré-história. Como nossa evolução não se deu de forma centrada e unitária, obedecendo a um modelo encontrado e estabelecido, mas sim às condições do meio e a um maior ou menor intercâmbio cultural entre os grupos, não aconteceu por igual. Isso nos permite ter uma idéia de quando alguns desses grupos saíram trocaram a barbárie pela civilização. Não o fizeram por vontade própria, senão impelidos pelas condições do ambiente. Devido a essas condições ambientais, alguns desses grupos permaneceram rudes e selvagens. Isso quer dizer que a civilização não obedeceu a um “desejo civilizador”, acontecendo por imposição das condições do meio e a conveniência de uns contra a oposição e resistência de outros. Contudo, se há pelo menos doze ou quinze mil anos o homem já havia criado a agricultura e registrava seus conhecimentos de astronomia através de sistemas de símbolos e sinais, outros da mesma espécie permaneceram bárbaros e obtusos. É isso que nos convence de que a essência do processo evolutivo está no cerne das condições ambientais. Tanto o Mundo Sumério quanto o Mundo Egípcio já se achavam existindo na época dos mais antigos documentos decifráveis. Contemporâneas dessas culturas, outras surgiram às margens do Ganges e do Indo. Interagindo entre si, formaram um mosaico de cidades-estado. O mesmo aconteceria nas férteis margens do Tigre e do Eufrates. Ao mergulhar no tempo, sentimos que não é difícil descobrirmos como ainda nos encontramos longe de entender precisamente quando foi dado pelo homem o salto que o levou à civilização. Quem sabe se esse salto não terá sido dado na América, de onde o homem se espalharia para o mundo? Embora algo de concreto já exista, ainda tateamos no frouxo terreno das hipóteses. Leibnitz escreveu que “Deus é a primeira razão das coisas”, pois é a lógica moral e racional da existência. Da idéia de Deus surgiram, por volta de 30 mil anos atrás, os primeiros indícios de práticas religiosas pelo homem. Pinturas rupestres, encontradas em cavernas da França, revelam a existência de rituais ligados à caça. Estatuetas que remontam a pelo menos 20 mil anos, informam-nos que o homem desse tempo já praticava alguma espécie de culto ligado a uma deusa da fertilidade. Entretanto, só há 6 ou 7 mil anos o homem vem revelando, através de algum tipo de escrita, a incrível variedade de práticas religiosas com que se enriqueceu subjetivamente. Isso aconteceu quando ele pôde se abstrair da incessante busca de alimento. Garantida a sobrevivência, timidamente caminhou na direção do que chamamos civilização. De início foi nômade, vivendo da coleta de raízes e frutos. Quando aprendeu a domesticar o cão, a cabra, o boi e o cavalo o homem passou a viver do pastoreio. Só depois descobriu a agricultura. Então permutou as incertezas da existência nômade pela vida sedentária. À medida que se assenhoreava de conhecimentos científicos, passou a escolher melhores os solos, as plantas e as sementes. Os indivíduos que se estabeleceram à margem dos grandes rios, nos albores da história, constituíam grupos tribais unificados. Dessa unificação nasceram os primeiros aglomerados urbanos e os primeiros relatos das tarefas do dia e do trabalho. Os nômades, no entanto, continuaram sendo um transtorno para os sedentários. Reunidos em hordas, ameaçavam os povos agrícolas. Com temor ao saque e às desordens praticadas pelos nômades, os homens assentados confederaram-se a fim de resistir ao invasor. Dessas lutas dos assentados contra os invasores surgiram estórias mais elaboradas. Com toda a probabilidade, essas primeiras estórias dão início à fantasia da ficção oral.
Escrito por Nilson Patriota às 10h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
UM CONCEITO DE TEMPO
Pedi a um amigo árabe, respeitado por sua cultura, que me traduzisse um poema do poeta egípcio Abd Al-Sabur. Percebendo minha impaciência, enquanto aguardava a tradução, ele me revelou que os árabes têm uma forma especial de sentir e compreender o tempo. Forma bem diferente da nossa, os ocidentais. E adiantou que para os árabes o tempo é sempre uma “realidade linearmente circular e circularmente linear”. Que, à semelhança do conceito de Deus, o tempo é tudo, e a sua pacífica engrenagem pertencemos. Por quê? – perguntei. Por que isso é claramente visto até nos verbos, onde o mais importante é o mady, ou passado – um particípio ativo e passante. E o que há de temporal no conceito de um árabe é o contrário dessa atomização do tempo a que nos habituamos, desde que o Ocidente adotou as clepsidras, os relógios e assim por diante, até chegar aos cronômetros atuais que medem centésimos de segundos. Contrários a isso são os árabes e todos os povos do Oriente. Filosoficamente os árabes pensam assim. Por isso se tornaram invulneráveis às mudanças preconizadas pelo Ocidente. Conformados, sem pressa, os povos do Levante se entregam ao tempo e ao destino. Isso não acontece apenas como a gente do povo, mas com todos os árabes ou arabizados. Até mesmo com aqueles que ocupam o espaço político, religioso e cultural nos países que integram a grande família do Islã. Herdeiros, na verdade, de culturas que ainda remanescem em países como a Jordânia, o Iraque, o Irã, o Yêmen, o Líbano, a Síria, etc., onde a forma de pensar tem resistido às idéias de inovação provenientes do Ocidente, permaneceram fiéis à cultura oriental. E desse modo são imutáveis em suas inclinações e preferências, em seus hábitos e costumes. Neles persiste a ligação com enigmas e símbolos do passado e que remontam, muitas vezes, ao Oikoumenê das primeiras civilizações. Povos procedentes de remotas culturas, muitas das quais já desaparecidas – umas por terem sido destruídas, outras porque se tornaram inassimiláveis e se perderam na noite do tempo – bem que gostariam de não ser incomodados pela pretensiosa sabedoria do Ocidente. O que na verdade sobrevive nessas culturas arcaicas é o Tempo inteiriço – passado e contemporaneidade – eterno, ad litteram. Por isso a predisposição do oriental para sentir o tempo em bloco é algo que tem sido impermeável a mudanças. Que é tempo? – pergunto. – Tempo é destino! – ele me responde. Não sem propósito, a expressão maktub – estava escrito – justifica a resignação do árabe ao desconhecido ou inevitável. Disso talvez decorra a paciência do devoto para com a rotina das várias orações a que se obriga no decorrer do dia. Disso, talvez, sua natural predisposição para encarar os obstáculos em que hostilmente é abundante o deserto. Mas, do hábito de meditar, nasceram as primeiras tentativa de saber o que somos e qual o nosso papel neste mundo. Disso também resultaram hábitos e, sobretudo, a religião, o estudo dos astros, a literatura oral e a escrita, o desenvolvimento das várias aptidões artísticas do homem, seus grandes vôos poéticos, filosóficos e científicos. Na Pérsia, na Arábia, no Khurasán, na Índia, o homem criou fantasias artísticas e vazou na pedra, na argila e na madeira, símbolos, cuneiformes e ideogramas. Nem sempre por necessidade, e quase sempre por idealismo. Sua mente teceu lendas e mitos. Em tempos épicos, não surgiram no Oriente apenas obras escritas no idioma acadiano, como as que nos foram legadas pelos sumérios, como disso é exemplo o poema de Gilgamés e sua demanda da Árvore da Vida, mas a produção literária de muitas outras línguas arcaicas e modernas, como disso são exemplos a Odisséia e a Ilíada.
Escrito por Nilson Patriota às 06h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
AS MIL E UMA NOITES – II
Os contos de As mil e uma noites não pertencem a um só autor nem se sabe ao certo quem os compôs. Em sua fase oral a tradição os transmitiu até que, antes do século X, alguns deles foram reunidos em um texto persa intitulado Hasar Alsanab, tido pelo historiador Abul Hassán Ali Al-massudi como desaparecido. Entretanto, foi esse o texto que serviu de modelo à edição árabe de Alf Lailah Ona Lailah, ou seja, As mil e uma noites. Segundo Mohamad Al-Nadir, que escreveu um século depois de Al-Massudi, o texto persa já continha a engenhosa urdidura que reuniu a trama das estórias publicadas em árabe. Mas o primeiro texto árabe só contém treze contos. Entretanto, entre os séculos X e XVI, novos relatos juntaram-se à redação definitiva. O argumento geral da teia urdida por Scheherazade, presta-se muito bem a ir sendo intercalada por outras estórias sem que o leitor se aperceba. Mas, no fundo o argumento de As mil e uma noites se limita ao fato de que o sultão Schahriar, furioso com a infidelidade de sua o esposa, mandou que a degolassem com todos os seus cúmplices. Não satisfeito com a vingança, jurou solenemente entregar ao carrasco, para que fosse decapitada ao amanhecer, a mulher com quem dividira o leito a cada noite. Com efeito, seu voto já durava três anos, com a consternação de todo o reino, quando lhe aparece Scheherazade, propondo ser sacrificada se ele, o sultão, consentisse em tela como esposa por uma noite. O poder da narração afirma-se daí por diante, modificando o comportamento do sultão e salvando as mulheres do reino da morte prematura depois de escolhida para dormir com o sultão.

Contadas ao pé do fogo, nas cidades ou nos acampamentos de beduínos da Península Arábica, dos reinos da Persa e do Jorassán, entre outros, as estórias das “Mil e uma noites” pajearam a chegada do sono. Murmuradas no silêncio das noites, atuaram como suave entretenimento, e até como elemento lúdico inspirador de sonhos. Desde o século XVIII, as traduções feitas do Quitab Alif Lailah Ua Laila, feitas por Jean Antoine Galland, seguidas, cem anos depois, por Richard Francis Burton e Eduardo Lane, o Ocidente passou a conhecer a versão literária das Mil e uma noites. Antes as estórias foram conhecidas em seu estágio oral. E é possível que desde o início do segundo milênio da Era Cristã, tais histórias tenham chegado com os que regressaram do Oriente após os embates da primeira Cruzada. Entretanto, essa possibilidade que nos parece bastante razoável, não pode ultrapassar o terreno dos fatos presumíveis. Jorge Luis Borges, que estudou a obra dos tradutores dessa fantástica coletânea, nada diz a esse respeito. Isto, porém não invalida a possibilidade. De acordo com a capacidade inventiva de cada narrador, As noites foram acrescidas de episódios e charlas. Seus diálogos sofreram modificações e suas estórias receberam incremento de outras ainda mais antigas do que elas próprias. A inspiração de Scheherazade recebeu o contributo anônimo de inúmeros narradores. Luis Borges estudou, minuciosamente, o assunto, e acredita que os contos de Aladim, o dos Quarenta Ladrões, o do príncipe Ahmused e a fada Peri Banu, o de Abulhasan, o adormecido acordado, o da aventura noturna de Harun Al Rashid, o dos irmãos invejosos de Juder, o pescador, e o das irmãs invejosas da irmã caçula, façam parte, entre outros, desse contexto.
Escrito por Nilson Patriota às 15h47
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
AS MIL E UMA NOITES – II (continuação)
Algo da maior importância, que não se deve deixar de mencionar, tem muito a ver com o sucesso das Mil e uma noites no Ocidente. Mesmo presumível foi sua aceitação na fase oral. Quando em 1710 Galland deu início à publicação de sua tradução, que se estendeu até 17l7, a obra árabe, se é que assim a podemos chamar, foi saudada com oportunos elogios. Colerigde, Thomas de Quincey, Tennynson, Edgar Allan Poe, Newman, a ela não regatearam elogios. André Gide, que nada tinha de santo, é quase único a opinar negativamente. Gide exigia – imaginem! – que a tradução de Galland tivesse mais decoro. Na verdade essa tradução é uma das que mais pecam por tentar escoimar a obra de suas licenciosidades. Em 1861-1862, uma memorável discussão de Newman e Arnold documenta as duas formas usuais de traduzir. Newman defende o modo literal, a retenção de todas as singularidades verbais. Arnold preconiza a severa eliminação dos detalhes que distraem ou fazem com que se deixe de lado a leitura da obra.
Os dois não haviam entendido que As mil e uma noites não eram contos ingênuos e moralmente perfeitos. O livro se compõe de antigas estórias narradas ao gosto simples, para não dizer grosseiro, das gerações plebéias de Bagdá, Damasco e Cairo. Seus impudores são naturais aos seus anônimos autores. Eles não desejavam alcançar as benesses do paraíso.
Como a roda, que desde sua própria antiguidade começou a fazer parte da incessante atividade humana, tornando-se indispensável ao afã de oleiros, ceramistas e similares por toda a Ásia, algumas das estórias das Noites, talvez provenham de eras bastante remotas. Talvez já fossem conhecidas por volta de 2.500 a.C., na Idade do Bronze. Pois os sonhos e os devaneios já se achavam presentes na mente dos homens que, trocando o nomadismo por uma vida sedentária, fundaram as primeiras comunidades há dez, quinze, vinte mil anos. É só termos em vista que o despertar da consciência não resultou da civilização. Nasceu com o reino animal em todos os seus estágios.
Escrito por Nilson Patriota às 15h46
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|