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ANTIGAS ROTAS

 

Ao tempo do povoamento brasileiro, os rios constituíram os principais caminhos. Mas os povos que habitavam o interior do país contavam com algumas rotas terrestres de vital importância. Uma delas, atualmente em desuso, chamou-se Peabiru, usada largamente por tribos indígenas e padres catequistas em seus deslocamentos para o Paraguai, ou vice-versa, e por aventureiros em busca de riquezas que acreditavam fossem abundantes na região da Serra da Prata. Esta, segunda avaliavam, encontrava-se na cadeia dos Andes, próxima à costa do Pacífico. Daí se acreditar tratar-se do Peru. Por essa rota Peabiru seguiu, em 1524, o aventureiro português Aleixo Garcia, um dos sobreviventes da expedição naufragada de Juan Diaz de Solis, tendo por objetivo a dita serra, onde um misterioso rei Branco a tudo e a todos controlava. Com o mesmo objetivo por ela seguiria Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, o explorador humanista. De Vaca, acompanhado de muitos índios, refez a rota de Aleixo. Mas, tanto quanto este, não obteve o esperado sucesso. Teve, contudo, a sorte de não ser trucidado, como  Aleixo, vítima dos guaranis, quando já empreendia a viagem de volta. Temendo o pior, Aleixo tinha tido a idéia de enviar mensageiros, a Santa Catarina, com amostras de ouro e prata colhidas nas montanhas da  região. Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, espanhol de  Jerez de la Frontera, veio à América acalentando o sonho de todos os exploradores de seu tempo: descobrir novas terras e conquistar prestígio e riqueza. Certos acontecimentos, no decorrer de sua aventura, transformaram-no em exemplo isolado de aventureiro pacífico e humanista. Em vez de atirar-se ao apresamento e à matança de índios, tornou-se adepto da teoria de colonizar libertando. Em meio à horda de espanhóis enlouquecidos, que adotaram como lema a violência e a ambição, seus atos diferem e se colocam de forma oposta aos de Cortez, no México, e Pizarro no Peru. Surge na História como exemplo de aventureiro pacificador, por se atirar de coração ao projeto de colonizar protegendo e educando o indígena, por reconhecer o direito destes sobre a terra por eles imemorialmente habitada. Tal juízo equânime levou-o a cair em armadilhas dos que viam o indígena como um ser desprovido de alma,  e assim indigno de compaixão ou de qualquer direito. Se a norma era a escravidão do índio, os truculentos exploradores não podiam concordar com De Vaca. Essa mentalidade dominou o aventureiro europeu em todas as partes do mundo. Até aventureiros aparentemente ingênuos, como Ponce de Leon e Vasco Nuñez de Balboa, demonstraram ser incapazes de proceder com justiça e com ética, pelo que foram capazes dos piores atos de desumanidades para com os índios. Ao se lançar ao mar para fugir de seus credores, tinham em mente a pilhagem e o enriquecimento com o ouro dos nativos da América. Não fugiram à regra dos descobridores, e neles estava presente a mentalidade convencional a saqueadores e assassinos. Só De Vaca e seus companheiros de aventura, Andrés Dorantes, Alonso de Castillo e o mouro Estevam, demonstraram e conseguiram enxergar a inocência dos índios e acreditaram em sua bondade natural. Embora malsucedidos na fracassada expedição à Flórida, chefiada em 1527, por Pánfilo de Narváez, um dos truculentos conquistadores de Cuba, puderam revê seus respectivos papéis durante o infortúnio. Naufragados na Flórida, várias vezes, Cabeza de Vaca e seus companheiros foram os únicos a escapar à morte. Mas por isso pagaram um doloroso custo. Salvos do oceano, tiveram de enfrentar a fome, a sede, a nudez e a escravidão imposta por aqueles aos quais haviam ido escravizar. Abandados ao próprio destino, seriam iluminados pela dor construtora da fé. Em seu relato dessa aventura, De Vaca conclui que “um homem é tanto quanto ele é perante Deus, e não mais”. Após vários anos vagando sem rumo por regiões inóspitas do desconhecido e um inculto continente povoado por bárbaros, a tudo venceriam. Ao empreender o regresso ao ponto inicial da malsucedida jornada, reencontram no México os seus patrícios dando prosseguimento ao genocídio de uma raça que, comparada ao grau de brutalidade de seus algozes, tinha todos os motivos para se considerar superiormente civilizada. Necessário saber: De Vaca, e, de algum modo seus três companheiros de infortúnio, seriam, na história da conquista americana, almas a demonstrar humanidade para com aqueles a quem seus patrícios enganavam com a promessa da proteção do Rei, da divina graça de Deus e das bênçãos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. A razão para o arrependimento e a conversão desses aventureiros está ligada ao sofrimento pelo qual foram atingidos. Uma iminente ameaça de morte os seguiu por oito longos anos. Descalços, desnudos e famintos, perfizeram os dezoito mil quilômetros de pântanos, desertos e montanhas que os separavam do porto de onde Cabeza de Vaca embarcaria, em 1537, já com quarenta e cinco anos de idade, como um paladino em defesa dos índios da América. Depois de sobreviver a inúmeros naufrágios e serem escravizados por tribos hostis,  tornaram-se os primeiros homens brancos a atravessar o rio Grande, entrar em contato com tribos que viriam a desempenhar histórico papel nos Estados Unidos, como sioux e zuni, e a se defrontarem com o bisão. Famintos, nus e descalços, cruzaram os estados do Texas,  Novo México e Arizona. Chegaram, pelo sofrimento, a obter o dom de curar pela imposição das mãos sobre os doentes. Os índios, ao constatarem tal poder, passaram a respeitá-los, seguindo-os por toda a parte. A primeira batalha que Cabeza de Vaca teve que enfrentar após regressar do “inferno” daquelas inóspitas regiões, seria a recalcitrante perversidade de seus patrícios. Ele pretendia livrar os indígenas da escravidão. No entanto, sua batalha não obteve êxito. Ao seguir rumo à Espanha, tinha em vista a recompensa de ser reconhecido como desbravador do sudoeste do  continente americano. Grande seria sua decepção ao saber que o título de Adiantado da Flórida, que pretendia pleitear, Carlos V já havia concedido, nos primeiros meses de 1537, a Hernando de Soto. Na ilha Terceira (Açores), salvo de piratas pela esquadra de dom Pedro de Mendoza, o primeiro Adiantado do rio da Prata, batendo então em retirada de Buenos Aires, e que acabou fulminado pela sífilis antes de chegar à Espanha, De Vaca foi informado da revolta dos índios guaranis que mantinham sitiada Buenos Aires. Ali também se inteira sobre os desmando e a truculência de Domingo de Irala, que se autoproclamara substituto de Mendoza. Sem chance de ser nomeado Adiantado da Flórida, começa a articular, junto ao Conselho das Índias, sua nomeação como segundo Adiantado do rio da Prata. Em setembro de 1539 alcança finalmente o seu objetivo. Em 2 de novembro de 1540 zarpa de Cádiz para o sul da América.  Mas seus percalços estavam longe de findarem.



Escrito por Nilson Patriota às 10h40
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CIVILIZAÇÃO URBANA

 

Por temor ao saque e à desordem levadas às últimas conseqüências pelos nômades, os homens que haviam optado pela vida sedentária tomaram a iniciativa de confederar suas tribos como forma de resistência aos invasores. Podemos tomar como modelo de sedentários os povos agrícolas do Oriente Médio a partir do 6º milênio a.C. Principalmente alguns dos que se achavam localizados no Levante Fértil. Aí, ao leste do Mediterrâneo, onde atualmente situam-se Turquia e Irã (antiga Pérsia), Egito e  Iraque (antiga Mesopotâmia), habitavam seus ancestrais. Foram os gregos contemporâneos dessa “terra entre rios” que a denominaram de Mesopotâmia.

 

Ao tempo em que a cultura na Pérsia e na Babilônia se firmava por volta de 5000 a.C., uma outra cultura florescia às margens do rio Indo, região do atual Paquistão, tendo como influência as técnicas agrícolas desenvolvidas pela primeira. Enquanto os babilônios e persas construíam suas cidades na faixa de terra entre os rios Tigre e Eufrates, os indianos expandiam seus povoamentos a partir de cidades como Harapa e Mohenjo-Daro. Atentemos para a Mesopotâmia. Além de fértil, a região tinha possibilidade de ser anualmente inundada por grandes enchentes. Essas inundações, que enriqueciam as terras, não se limitavam às calhas fluviais. Através de canais e valas elas se estendiam sobre grandes planícies, tornando-as ainda mais férteis, valiosas e cobiçadas.

 

O fato de um determinado solo se mostrar mais produtivo que um outro fazia diferença nos padrão de riqueza, determinando alterações na trama do tecido político, econômico e social. Indivíduos da mesma condição e do mesmo valor conquistam oportunidades, e se vêm de repente alçados à condição de poder ou de mando.

 

Tais transformações, devidas aos excedentes agrícolas, pela primeira vez na História fazem com que uns tantos conquistem bens, posição e enquanto outros permanecem como sempre foram ou declinam. Isso então veio permitir que esforçados lavradores abandonassem a atividade agrícola e se tornassem mercadores, artesãos, operários e administradores, encetando nova carreira e nova classe, e, por outro lado, fortalecendo o enriquecimento de cidades em cujo seio a civilização urbana progredia. Tenhamos em vista um outro fato de vital importância para a evolução cultural: a religião.  Em sua fase organizacional, já contando, porém, com grande grau de complexidade, a religião não era uma novidade. Ao se organizar como a representação da vontade dos deuses, não deixava de ser um poderoso braço das classes dominantes, um esteio da cidade-estado, consolidando na Terra a idéia latente do sobrenatural. Como forma de se assegura prestígio e influência, passa a utilizar-se da mágica da escrita, uma invenção recente,  adotando escrituras e objetos de práticas rituais. Dessa vertente religiosa surgem importantes contribuições que têm por objetivo alimentar a idéia do ser ou seres sagrados. A maior de todas, os livros. Apenas como exemplo: o Zend-Avesta persa, o Rig-Veda e o Ramayana, o Mahabharata, o Bhagavadgta, indianos, a Biblia semítica, e muitos outros frutos do fervor de uma Antigüidade mitológica, pastoral e anterior aos tempos agrícolas, que os conservou na tradição oral antes da invenção da escrita. O Rig-Veda, coletânea de hinos e orações é obra nascida dos vôos da religiosidade e da poesia, é o mais antigo livro de cânticos e orações de toda a Índia. Em um de seus hinos está escrito: “Quando na Antigüidade o cantaram pela primeira vez o próprio Brahma ficou fascinado, e os deuses, os gênios e todos os seres, desde as aves às serpentes, os homens e os santos exclamaram: ‘Oh, doce poema, que desejaríamos ouvir constantemente! Oh! O delicioso canto!... Como ele compreendeu a natureza! Essa longa história vê-se. Ela revive aos nossos olhos’...”  

 

Os primeiros indicadores de atividade religiosa são espantosamente antigos. Datam de 30 000 a 10 000 a.C. Mais antigos que os das pinturas rupestres encontradas na França, datando de 20 000 a 11 000 a.C. O desenvolvimento da escrita no Oriente Médio, por volta de 3 000 a.C., revela a existência de grande variedade de crenças. É o que registram as modernas enciclopédias.



Escrito por Nilson Patriota às 08h07
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