A BUSCA DE UM CAMINHO
I – A Cartografia
No início do séc. IV a.C. Pitágoras utiliza-se da especulação filosófica e acaba alentando o conhecimento de seu tempo com a concepção da Terra esférica. Se a esfera era a mais perfeita de todas as formas, a Terra, obra prima dos deuses, teria que ser uma esfera. No decorrer do tempo, as observações astronômicas tendem a confirmar essa hipótese. Em 350 a.C. os estudos de Aristóteles levaram-no à confirmação da teoria da esfericidade de Pitágoras. O desenvolvimento dessa tese aristotélica encoraja a Humanidade a dar os passos seguintes com a medição da obliqüidade do eixo de rotação da Terra e o fortalecimento de conceitos tais como os de equador, pólos, trópicos e divisão da superfície terrena em zonas: tórrida, temperada e fria. Coube a Erastóstenes, 200 anos a.C. calcular a circunferência do Planeta (com erro, por sinal, de 14% quanto à medida verdadeira), e o estabelecimento do raio da esfera terrestre, fundamental na determinação de latitudes e longitudes. Daí por diante não seria difícil estabelecer o sistema de projeção geográfica da superfície esférica da Terra em representações geográficas planas. Em meados do séc. II a.C. Hiparco inventou o astrolábio (que permite calcular a altura dos astros em relação ao horizonte), realizando a primeira cartografia conhecida com base na trigonometria esférica, propondo em seguida o sistema cônico de projeção cartográfica. Com Ptolomeu, os conhecimentos cartográficos do mundo antigo alcançaram seu ponto culminante. Daí ser ele considerado autor do primeiro Atlas Geral, dedicando dois volumes de sua famosa Geografia ao estudo da construção de globos e projeção de mapas. A partir de então a atividade cartográfica expandiu-se nos países que tiveram no mar o principal meio de subsistência e comércio. No decorrer da Idade Média, a produção cartográfica sofreu avanços e retrocessos. Na Europa romanizada imperou o mapa-múndi circular – o Orbis Terrarum que, bastante influenciado pelas superstições da época, acabaria perdendo a exatidão geográfica, porque nesse modelo de cartografia a concepção religiosa era evidente, com a Terra Santa sempre ocupando o centro do mundo. Neles, os conhecimentos matemáticos são substituídos por inventivas interpretações artísticas. Dessa decadência cartográfica, estimulada pelas superstições religiosas, escapariam os árabes. Tratando cientificamente a matéria, mantiveram uma atividade cartográfica superior à européia. Mesmo assim, será na Europa que vai desabrochar o Renascimento, fortalecendo os ideais renovadores que trouxeram a expansão marítima. E com o séc. XV a se iniciar, com ele “recomeçava na história do mundo o misterioso impulso que de séculos em séculos põe em movimento as massas humanas, após longos repousos em que as civilizações nascem, se desenvolvem e morrem” , no dizer de Paulo Prado (Retrato do Brasil – 1997 – SP ).
Escrito por Nilson Patriota às 06h59
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OS DESERTOS NAS ROTAS DE COMÉRCIO
Ao rumar para o Ocidente, fenícios, hebreus, árabes indianos e chineses haviam dado início ao comércio internacional numa época em que bem pouco ou quase nada se sabia sobre os vizinhos mais próximos. Mesmo assim os primeiros trechos das trilhas foram sendo vencidos. Logo depois chegou a vez de enfrentarem as distâncias maiores. Depois de séculos de tentativas, uma porção de certas rotas tornara-se conhecida. Então os produtos da China, do Tibet, da Índia, de inúmeros países dispersos e mal sabidos da Ásia Central, aos poucos ficaram conhecidos. Ao penetrarem mais e mais o Oeste, os mercadores procedentes do Leste, de instintivo gosto pelas viagens, iam descobrindo os produtos e as singularidades de cada povo. Chegaram à conclusão de que, não importando as diferenças e antipatias que pudessem sentir uns pelos outros, todos eles tinham interesse em trocar seus produtos e conhecer os hábitos e costumes daqueles com os quais haviam começado a se relacionar comercialmente. Informações necessárias eram trocadas, às vezes espontaneamente, sem necessidade de perguntas. Assim como eram feitas aproximações e simpatias nasciam entre os jovens. O que antes parecia impossível tornava-se uma realidade: todos eram humanos, pertenciam a uma mesma espécie e em cada um havia um pouco das qualidades e dos defeitos com que estavam habituados a conviver em relação com os seus próprios parentes e conterrâneos. Desse modo o intercâmbio não se restringia apenas ao trato com os produtos negociáveis. Estendia-se com naturalidade ao procedimento social e à prática das religiões, que eram muitas.
Ao avançar pela trilha, o caravaneiro desfrutava de panoramas agradáveis, mas também enfrentava árduos trechos pedregosos, íngremes subidas, despenhadeiros perigosos e areais intermináveis. As areias, movidas pela ventania solta, tornavam-se vorazes engolidoras de homens e acampamentos. De um dia para outro as tempestades de areia transformavam grandes extensões do deserto em sumidouros de homens, caravanas e cidades. Nos desertos de Gobi *, Takla Makan*, na Ásia Central, como no Saara * e no Kalahari *, da África do Norte, situavam-se as perigosas zonas de ventanias e tempestades de pedras e de areia. Quando tais fenômenos ocorriam, a única forma de enfrentá-los era imergir na areia e esperar o fim da tormenta. Então a caravana se erguia lentamente do pó em que permanecera mergulhada. Então os cameleiros se comunicavam com os seus animais, fazendo com que se soerguessem com suas cargas e prosseguissem a viagem. Sobrecarregadas de açúcar, seda, porcelanas, pimenta, noz-moscada, além de produtos de arte e rolos de pergaminho escritos em hieróglifos, cuneiformes, ideogramas e símbolos de várias procedências, as caravanas se arrastavam sedentas e obstinadas pelo deserto afora até o próximo oásis, onde então matavam a sede e repousavam. E assim a rota interminável voltava a se mover como um rio que corre incansável e sereno sob as cadenciadas patas dos camelos.
*) Grande deserto da Ásia Central, dividido entre a República da Mongólia e a China.
*) Takla Makan, grande deserto na Ásia Central.
*) Saara, maior deserto do mundo. Estende-se por 5.000 km do Atlântico ao mar Vermelho, e por 2.000 km do sopé meridional do Atlas e do litoral do Mediterrâneo oriental a uma linha que une Saint-Louis a Cartum. Compreende parte do Marrocos, da Argélia, da Tunísia, da Líbia, do Egito, do Sudão, do Chade, do Níger, do Mali e da Mauritânia.
*) Kalahari, deserto da África Meridional.
Escrito por Nilson Patriota às 09h07
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MINHA ADMIRAÇÃO PELOS AUTORES
Na década de 50, desenvolvendo atividade política como seguidor de Dinarte Mariz e Carlos Lacerda, dei meus primeiros passos no Jornalismo e na Literatura. Logo me senti envolvido pelas obras dos grandes autores universais. Seus livros plenos de sabedoria eram preceitos éticos e morais para mim, fonte inesgotável de conhecimento e de admiração. Muito cedo, talvez, conheci alguns clássicos brasileiros, portugueses, espanhóis, americanos, russos e franceses. Não sei por que razão não me passou pela mente que deveria conhecer também os clássicos ingleses. Anos depois constatei que tinham sido os melhores num ramo literário que, depois da ficção e da história, era o que mais me interessava: o ensaio. Embora as traduções da época fossem escassas, somente poderia ignorar os ensaístas ingleses aquele que, ao formalizar desculpas para suas faltas, deixava de carregar judiciosamente a justificativa para seus argumentos. Então, verificando a lacuna que a ausência de conhecimento dos ensaístas ingleses poderia causar à minha pretensão de jovem metido a literato, procurei me inteirar sobre os mesmos nas possíveis e variadas fontes de que dispunha. Então me aproximei de autores que mais tarde demonstrariam o teor de sua importância na Literatura Sul-Americana e Universal como Jorge Luis Borges (1899-1986) e Adolfo Bioy Casares (1914-1999), ambos argentinos e mestres do conto fantástico e da novela breve, porém também notáveis na crônica, na poesia e no ensaio. A partir do encontro com ambos, passei a considerar o elevado grau em que se situavam os escritores americanos. De Borges sempre será impossível esquecer obras como Fervor de Buenos Aires, História Universal da Infâmia, O Aleph, Evaristo Carriego. De Bioy Casares não podem ser esquecidos livros como a Invenção de Morel, O Sonho dos Heróis, Dormir ao Sol, A Outra Aventura. Com a sutileza com que a literatura de Borges me impressionara ao longo dos anos, a obra de Casares preencheu grandes lacunas em meu conhecimento literário. Sempre tive a impressão de que Borges foi mais festejado que Casares. Essa impressão talvez me venha do fato de me ter comovido com a quase indiferença, por parte da crítica portenha, a seu respeito, na parte inicial de sua carreira. Mas, mesmo quando Casares passou a chamar a atenção de setores da crítica literária espanhola e européia os críticos argentinos que o acolheram não iam além da fria ponderação do julgamento que dele faziam. Entretanto, os críticos europeus, bem mais imparciais, talvez, não lhe recusaram o direito ao sonho de se tornar – como logo se percebeu – um dos maiores escritores latino-americanos do século XX. E, assim procedendo, não deixaram de distinguir marcantes aspectos de sua prosa, na qual destacaram a linguagem aprimorada, de tom levemente satírico – como nas obras Duas Fantasias Memoráveis e Um Modelo Para a Morte – conjugada à capacidade visionária de criar situações e personagens onde somente cabeças privilegiadas têm acesso. Sem pretensão de superar em qualidade artística autores latino-americanos do primeiro time – como Gabriel Garcia Márquez, Leopoldo Lugones, Vargas Llosa e Carlos Fuentes – foi parceiro do próprio Jorge Luis Borges em livros que são primorosas metáforas de tudo quanto pode ser virtualmente semelhante à verdade tal qual a concebemos, ou possível de ser inventada sem que para tanto seja necessária a conspurcação da arte de escrever e de criar. E assim, através dessa capacidade de imaginar o inimaginável, ambos os escritores conseguiram transportar na América do Sul a literatura erudita para o gosto do leitor comum. E sempre com inesperado sucesso. Casares conquistou vários troféus. Entre eles o Prêmio Cervantes, da Academia Espanhola, cuja repercussão predispôs a Academia Sueca a colocá-lo por vários anos entre os concorrentes ao Prêmio Nobel de Literatura. Presto-lhe esta homenagem como reconhecimento ao seu gênio e talento, e por haver me inteirado acerca da obra magistral dos ensaístas ingleses, desde Miguel de Montaigne, do séc. XVI a Stevenson no séc. XIX, e Oscar Wilde no séc. XX, juntamente com os demais representantes dessas gerações de consagrados mestres. De Borges, nada mais se pode dizer, porque lhe pertencem todos os triunfos que possa alguém auferir ao longo de uma vitoriosa e genial carreira.
Escrito por Nilson Patriota às 08h18
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