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A BUSCA DE UM CAMINHO

IV – A Conquista da Costa Africana

 

Segundo Damião de Góes (Crônica do príncipe dom João), o Infante dom Henrique tinha já um avançado entendimento cartográfico quando, em 1415, procurou se estabelecer no promontório de Sagres. Seus interesses, que eram voltados para a conquista de novas terras e o comércio internacional, não consentiam que ele pusesse fé nas estórias fantasiosas de monstros, terrores e caldeirões ferventes no oceano Atlântico. Desde tempos remotos essas tinham sido inventadas por mercadores fenícios para, desse modo, evitar concorrência comercial. Desde então povoavam de forma lendária a imaginação dos mareantes, afastando-os das ilhas e arquipélagos do Atlântico. Assim, após regressar da vitoriosa conquista de Ceuta, famoso entreposto mouro de especiarias no norte da África, o Infante ordenou aos capitães de dois navios que começassem a descobrir de imediato as riquezas da costa ocidental do continente negro. Os capitães desses navios, que não deviam ter o conhecimento científico do Infante, obedeceram, velejaram, mas não foram muito adiante. Chegaram, porém, a ultrapassar o cabo Não, de onde prosseguiram por mais trezentos ou quatrocentos km de mar. Estiveram à vista do cabo Bojador, no qual acreditaram ver inusitados e grandes perigos. Então retornaram, tomados de súbito terror. Avaliaram que teriam se aproximando demais do fim do oceano e tiveram a impressão de que as correntes marítimas por eles avistadas na confluência do cabo expeliam jorros de água fervente e portentosos caldeirões sugadores de homens e barcos. Envergonhados, e para não voltar de mãos vazias, fizeram algumas incursões nas pequenas povoações ribeirinhas, onde apresaram alguns apavorados nativos, que tornaram cativos e levaram como forma de recompensa ao Infante. O curioso e cobiçoso Infante, embora não desse grande valor comercial aos nativos, ficou grandemente interessado com as informações que tinham a oferecer em troca de sua liberdade. Os maometanos da África, disseram eles, eram grandes comerciantes. Conheciam caminhos que ligavam a costa do Mediterrâneo à costa da África Ocidental, de onde traziam ouro em pó, marfim e malagueta, entre outros produtos de singular valor. Porém a informação mais preciosa que guardavam era a que se relacionava ao “Preste João”, um príncipe cristão, senhor de um grande reino situado no interior da África. Como não era maometano, a estes submetia com seus exércitos, ficando com as suas riquezas. O Infante exultou! Ora, se conseguisse chegar a “Preste João” teria resolvido um grande problema. Além da amizade comum entre cristãos formariam uma aliança com o lendário príncipe tendo em vista vencerem os maometanos, destruindo Meca e canalizando para Portugal, por via marítima, o rendoso comércio das especiarias, o principal monopólio comercial dos maometanos, do qual desfrutavam  pequena fatia na Europa, venezianos e genoveses. O Infante não era propriamente um patriota querendo os bens da riqueza para o seu país, e sim um ambicioso mercador cheio de arrojo. Só as razões comerciais e religiosas o instigavam. Por isso, considerando o valor dessas informações, prosseguiu em suas explorações da costa africana, ordenando tudo o que fosse possível conseguir através das viagens marítimas. Apesar dos conhecimentos astronômicos e matemáticos da época já contarem com projeções cartográficas cilíndricas e contendo paralelos e meridianos, na mentalidade rude dos mareantes persistiam conceitos rudimentares e fantasiosos. Muitas dessas concepções errôneas vinham das diretrizes da Igreja. Esta continuava a admitir a Terra em forma de disco rodeado de água, tendo no  centro a cidade de Jerusalém. A idéia, fortemente arraigada, chegou a ser adaptada pelo islamismo. Vemo-la presente ao mapa-múndi do almirante turco Piri Reis, projetado antes de 1513. Segundo esse mapa, a parte que representa a Terra Australis Incognita, a Antártida, fora visualizada como se o seu desenhista se encontrasse no Cairo. Mais precisamente, na Mesquita de Maomé Ali, na Praça de El Esbequich daquela cidade muçulmana. Tanto no cristianismo quanto no islamismo as cartografias  obedeciam, ipsis verbis, ao cânon religioso vigente. Não por ignorância, mas por crendice ou conveniência, pois as coisas certas sempre foram sabidas. Desde o século XII a bússola e o astrolábio eram empregados no Ocidente para indicar o norte e tomar a altura dos astros em relação ao horizonte. Prática esta largamente empregada no século XV em toda a Europa e também no Oriente. Na vida do Infante dom Henrique, alguns fatos incitam-lhe a esperança de que atingiria as Índias navegando através da costa ocidental africana. Um deles, o seguinte: Em 1425, ao regressar o Infante dom Pedro de uma viagem a vários países europeus, e sendo ele muito interessado nos trabalhos de dom Henrique, trouxe-lhe as seguintes novidades: um volume das viagens de Marco Polo, mapas de Valsequa, obras de Jorge Purbach, o Tratado do Triângulo e os livros de Régio Montana, que constituíam o que de melhor havia para consolidar os conhecimentos científicos e náuticos do irmão. Dom Henrique aprimorou esses conhecimentos e procurou se cercar dos mais experientes navegantes, astrônomos e cartógrafos, mandando-os buscar em toda parte.  



Escrito por Nilson Patriota às 08h18
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III – Preparando a Conquista da Costa Africana

 

Ao iniciar as explorações ultramarinas, o reino de Portugal contava com uma população inferior a um milhão de habitantes. Das atividades ali desenvolvidas, predominava a agricultura. Mesmo assim a produção agrícola era insuficiente para abastecer a população. Por isso o reino tinha que recorrer às importações de grãos. O território lusitano não fugia à regra dos demais reinos de então, e assim estava repartido entre as elites dominantes: a realeza, o clero e os fidalgos. Ao mesmo tempo, essas categorias privilegiadas eram donas da quase totalidade das riquezas do país. Como sempre, ao povo cabia arcar com o trabalho pesado e a carga dos impostos com que o sistema monárquico sustentava as elites aristocráticas. A situação da agricultura, por si mesma precária, tornou-se ainda mais crítica depois que dom João I, pressionado por aqueles que o havia ajudado a conquistar o trono, cedeu a interesses, distribuindo favores à influente burguesia e acrescentando terras aos latifúndios do clero e da nobreza. Eram formas de compensação com que um rei podia manter-se firme no poder. Isto, e mais o intercâmbio da produção, que continuava dominada pelos latifundiários e pela elite clerical, continuaram a constituir invencível obstáculo ao desenvolvimento agrícola e comercial do país. A própria indústria têxtil, que se constituíra em um dos pilares da economia portuguesa, encontrava-se asfixiada por impostos. Em decadência, a fabricação de seda passou a ser subsidiada pela coroa, porém a sua produção mal correspondia às necessidades da elite monárquica. Um ar de ociosidade tomava conta do pequeno e dinâmico país ibérico. No meio ao povo reinava a insatisfação. Entretanto, crescia na costa marítima uma população de pescadores por demais habituados aos rigores da lide. Essa gente, ocupante da testada oceânica, há muito subsistia do resultado da pesca, da venda de peixe e da extração de sal. Forçada pela necessidade alargou seu raio de ação ao longo da costa portuguesa. Dali atingiu o litoral da França, da Holanda e de outras nações européias. Entre tais pescadores, principalmente os de Lagos, em 1433 o Infante dom Henrique deu início ao recrutamento das guarnições das galeras e caravelas que iniciaram o processo lento e contínuo dos descobrimentos. Esses pescadores se transformaram em competentes mareantes a escoar a produção portuguesa para o exterior. À falta de estradas, de animais de tração, de pontes sobre os rios, tanto a exportação quanto a importação de produtos só poderiam contar com o transporte marítimo. Ao passo que se desenvolvia a indústria naval, o poder público começa a reconhecer a necessidade de dispensar maior atenção ao setor dos transportes marítimos. Depois que a monarquia começa a entender a importância das relações comerciais com outros países, tem início o sistema fiscal de isenção e estímulo à construção naval visando um melhor aproveitamento da via natural do Mediterrâneo. E assim Lisboa se transforma, em poucos anos, num dos principais entrepostos de comércio marítimo da Europa, com intensa frequência de mercadores escoceses, genoveses, milaneses, etc. Segundo os historiadores Fernão Lopes e Oliveira Martins, entre 1365 e as primeiras décadas de 1400, mercadores e navegadores lombardos, aragoneses, milaneses, marroquinos, milaneleses, corsos e biscainhos entrecruzam-se diariamente no porto de Lisboa, realizando negócios cada vez mais crescentes. Embora sob forte pressão da realeza, contrária ao desenvolvimento marítimo de Portugal, os reis que se sucedem no poder passaram a apoiar regularmente as atividades náuticas, fornecendo, gratuitamente, madeira para a construção de embarcações e dispensando seus construtores do pagamento de impostos. Já ao tempo de Afonso V uma expedição é enviada às ilhas Canárias. São dois navios grandes e um pequeno, comandados pelo genovês Nicoloso Rocelio. Este rei se destaca como um dos que mais concedeu privilégios e liberdades a mercadores estrangeiros em Portugal, intensificando as relações mercantis de Lisboa com a maior parte dos países europeus. Essa política de apoio à atividade marítima, dando aos armadores e construtores navais recursos que eram aplicados na melhoria dos navios, não seria executada sem uma surda reação por parte da nobreza. Não obstante essa resistência, a política naval será mantida pelos reis portugueses, fazendo o país dominar a técnica da construção e desenvolvendo uma tecnologia que torna os navios mais resistentes e capazes de conduzir uma maior tonelagem de produtos e um número relativamente grande de pessoas. No decorrer dos séculos XV e XVI, surgem as naus e as caravelas cuja diferença entre ambas é a tonelagem. A nau era maior, tinha três cobertas e dois mastros, castelos na proa e na popa. Era guarnecida com armas pesadas, entre as quais os canhões. As caravelas, conforme Gaspar Correia, “adequavam-se a qualquer tipo de vento, e para ir a caravela em sentido contrário bastava mudar o velame”. Até o século XVI, foram os navios preferenciais por serem ligeiros, de peso inferior a 200 toneladas, medindo de 20 a 30 metros de comprimento por 6 a 8 de largura. Tanto caravelas quanto naus seriam continuamente empregadas na exploração da costa ocidental da África.      



Escrito por Nilson Patriota às 08h37
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II – Navegação Astronômica

 

Ao infante dom Henrique o Navegador (1394-1460), deve a navegação astronômica boa parte do estímulo necessário ao seu desenvolvimento. Numa época em que as viagens marítimas eram feitas de porto em porto e ao longo da costa, o cálculo e a estimativa dos pilotos quanto a distâncias e condições climáticas era o que determinava o êxito ou o fracasso nas viagens. O Infante, filho de dom João I de Portugal, foi o grande impulsionador das viagens marítimas com as quais vieram os descobrimentos da costa africana. Tudo começou depois de seu regresso de Ceuta (1417), entreposto mouro por ele e suas tropas conquistado na costa norte da África, diante do Mediterrâneo. Realizada essa conquista, que deixava Portugal em vantagem perante seus concorrentes no comércio das especiarias, o Infante recolheu-se ao promontório de Sagres, junto ao cabo de São Vicente, onde pretendia construir navios e reunir navegantes numa comunidade de estudos de navegação que ficaria conhecida pelo nome de “Escola de Sagres”. A História, quando não fartamente documentada, nunca nos parece legítima, porquanto tocada por acontecimentos fantasiosos, míticos ou lendários. Por isso, não se sabe ao certo se neste sentido foi seu desejo alcançado, ou se tudo não passou de casuais comunicações ou mesmo contatos entre o Infante e outros personagens da época com idêntico interesse em astronomia, cartografia e navegação. Figuras como Toscanelli, João Gonçalves, Tristão Vaz Teixeira, Bartolomeu Peres Trelo e outros que na segunda década do século XV dão início à conquista dos mares com o descobrimento de ilhas ou novas terras. Depois surgiram pessoas ainda mais interessadas no comércio exterior, como banqueiros, cartógrafos, pilotos, astrônomos, navegantes, armadores e entusiastas  europeus da navegação em mar aberto e em águas profundas. O assunto das viagens marítimas vinha sendo conversado já  nos século XII e XIII. Há informes de umas poucas aventuras. Uma delas, a do catalão Jaime Ferrer. Este, em 1346  tentou explorar a costa ocidental da África. Foi algo superior às condições da época, e assim a sua viagem não obteve retorno. Mas a notícia do feito transforma-se em incentivo para audaciosos e sonhadores. Um mundo de grandes espaços e irrestritas liberdades é com o que sonhavam os aventureiros. Pelo que parece a partir daí as viagens marítimas passam a acontecer com mais arrojo e freqüência. Entram em cena os pescadores portugueses. Atiram-se ao mar em barcos cada vez melhores. Saem a pescar em águas profundas, freqüentam as costas francesas e holandesas. Tentativa após tentativa, as ilhas vão sendo descobertas, dando alento e esperança aos que sentem necessidade de impulsionar a vida e os negócios. Sabemos que, embora jamais haja comandado um navio, ao Infante são tributadas todas as homenagens devidas a quem dedicou a vida a um ideal. O dele foi o de fazer da navegação um fator de desenvolvimento e de conquista. A seu entender havia novos mercados à espera dos produtos portugueses em terras longínquas. Por isso ele se serviu com inteligência e tino administrativo daqueles com capacidade, audácia e destemor para missões em mares e terras desconhecidas. Ainda jovem o Infante constatou que Portugal precisava levar adiante suas conquistas. A primeira delas – e disso ele tinha consciência –  acontecera em 1385, quando o Mestre de Aviz foi encarregado pelas cortes portuguesas de lutar contra os castelhanos que invadiram o país,  batendo-os heroicamente na memorável batalha de Aljubarrota, e se tornando rei por aclamação do povo agradecido de Lisboa. A partir desse importante evento os reis de Portugal passam a assistir com  incentivo moral e financeiro à marinha de cabotagem, promovendo a melhora na qualidade dos navios e aprimorando os instrumentos náuticos. O Infante compreende que novos fatores estavam se integrando a um outro contexto: o do comércio de além fronteiras e sobre as águas. E assim o país não deveria continuar dependendo da agricultura. Teria que se voltar para o comércio com os países do Ocidente, mas também com os da África e do Extremo Oriente onde ficava a Índia. Dali chegavam especiarias e riquezas que caracterizavam o comércio oriental como fonte inesgotável de consumo e abastecimento. Por todo o século XV e o XVI surgiram idéias que trouxeram à tona novas atividades. O Renascimento, tão reconhecido como expressão da arte, começava a ser também aceito como produto do pensamento científico. O infante era rezador e carola. Não chegou a conhecer as teorias do polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) e muito menos a de seus seguidores Giordano Bruno (1548-1600) e Galileo Galilei (1564-1642), que foram chaves da evolução. Porém antecipou-lhes a oportunidade de comprovarem na prática essas teorias que fazem parte do conhecimento universal, mas que eram já antigas na Grécia clássica. As navegações por ele incentivadas demonstraram na prática que a terra era de fato uma esfera, ao contrário do que a Velha Europa pensava. E Colombo (1451-1506), não mais genovês e sim português, segundo recentes pesquisas, em 1492 chega a uma parte do mundo que  admite ser a mais ocidental península indiana. Enganara-se por que era a ilha Hispaniola (Cuba), na América Central. Mas, se não fosse o continente americano se interpor em seu caminho, teria chegado à Índia, conforme desejava. De Toscanelli, o famoso astrônomo e cartógrafo, aos grandes pilotos portugueses, o fato da Terra ser redonda já não constituía segredo. Tal qual na narrativa do sacerdote Sais, do Oriente Médio, feita a Solon e citada por Platão no Timeu e Cítias, referindo-se a uma “ilha Atlântis”, fronteira às colunas de Hércules, porém já submersa, a questão da esfericidade ainda percorria, só para o povo, o caminho da lenda à verdade. Mas para as cabeças pensantes européias era uma realidade comprovada pelas navegações portuguesas, já muito além do cabo que Borjador e bem próximas do cabo das Tormentas, sul do continente africano, que se projeta sobre um oceano circular e redondo como a própria Terra.

Escrito por Nilson Patriota às 11h21
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