A BUSCA DE UM CAMINHO
VI – Do Bojador à zona dos escravos
Os aperfeiçoamentos introduzidos nos navios e nos instrumentos de navegação, por volta do séc. XV, deixam Portugal capacitado a levar adiante o projeto do Infante dom Henrique, que era a exploração da costa ocidental da África. Concluído esse reconhecimento, ele entendia ser possível atingir a Índia e as ilhas das especiarias tão cobiçadas pelos homens de comércio da Europa. Decidido e obstinadamente empenhado, o Infante usa de sua influência como chefe da Ordem de Cristo para manter-se informado dos avanços obtidos por astrônomos, cartógrafos e mareantes quanto à evolução da navegação oceânica. Esses homens, verdadeiros magos da modernidade, estavam se aprofundando em suas ciências e atividades e os seus feitos começavam a repercutir entre os estudiosos do assunto em toda parte. Por isso o Infante procurava-os, convocando-os onde se encontrassem para ouvi-los e com eles debater suas dúvidas e incertezas. Ele havia transformado seu castelo num centro de estudos de mapas, cartas de marear, relatos e supersticiosas narrativas de marinheiros ainda assustados com as lendas do tempo dos fenícios que, a fim de evitar concorrência, as inventaram. Chamando-os de toda a Europa e os levados ao centro de seus estudos, no promontório de Sagres, o Infante havia se constituído o centro de atenções. Ali em seu castelo, desde 1419 o novo vinha sendo debatido. Ao bater os mouros, em Ceuta, o Infante havia reconhecido a importância de levar seu país ao grande filão do ouro em pó e do marfim africanos, mas, sobremaneira, das preciosas especiarias das Índias. No transcorrer do tempo, pesquisas científicas haviam dado lugar a novos aperfeiçoamentos. Técnicas de navegação antes nunca empregadas começam a demonstrar a possibilidade de singraduras cada vez mais extensas em mares que pareciam não ter fim. Outros objetivos contribuem para instigar o Infante às descobertas. Dentre os mais importantes, encontram-se a busca pelo lendário Preste João, provável aliado católico contra o Islamismo, e a possibilidade de se chegar por mar às famosos entrepostos de abastecimento do comércio oriental. Como o oceano Índico não era mais que um segmento do Atlântico, bem que poderia ser alcançado após a conquista da saliência do extremo meridional africano. Mesmo acumulando saldos de tentativas frustradas, o Infante continuou estimulando os navegantes a se manterem empenhados no reconhecimento da costa africana. Em 1434, singrando o Atlântico a mando do Infante, o navegante Gil Eanes atravessa o cabo Bojador. Fato este muito comemorado no promontório de Sagres. E daí por diante as descobertas na costa ocidental africana assumem um ritmo constante. Em 1441, a serviço do Infante, Nuno Tristão chega ao cabo Branco. Outro feito. O mesmo Nuno segue adiante e descobre a costa do Senegal e a foz do rio Gáubia. O ritmo dos descobrimentos naquela costa torna-se acelerado. O passo seguinte será dado pelo piloto Diogo Gomes, que alcança a Guiné e a Serra Leoa. Em 1450 e 1460, outro fato notável – a descoberta e exploração do arquipélago do Cabo Verde. Durante essa conquista são conhecidas duas das ilhas mais ocidentais do arquipélago dos Açores. Depois dessa descoberta os navegantes portugueses chegam ao mar dos Sargaços. Por essa época reúnem elementos suficientes com que traçam um mapa dos ventos e das correntes do Atlântico. Ao prosseguir o avanço para o sul, vem a descoberta da África negra, consolidando o miserável tráfico de escravos. Já em 1441, Antão Gonçalves havia aprisionado alguns os negros e os levaram consigo a Portugal. Até 1448, uma média de mil escravos é transferida, anualmente, da África para Portugal. Dentro de uma década, o tráfico de negros adquire a conotação de negócio comercial altamente rentável. Os negreiros embrenham-se no interior do continente africano. Ali os escravos eram vendidos, regularmente, pelos chefes tribais a comerciantes muçulmanos. Estes, por sua vez os revendiam aos negreiros portugueses. Levados para Portugal, os escravos passam a ser revendidos a negreiros de Castela, Aragão e outros reinos da península. Uma parte, porém, fica em Portugal, de é levada às lavouras de cana de açúcar da ilha da Madeira. Convém esclarecer o fato de que até 1443 o comércio e a navegação com a África eram livres.
Escrito por Nilson Patriota às 10h11
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A BUSCA DE UM CAMINHO
V – A Conquista da Costa Africana
Na atualidade, parece-nos impossível mensurar com exatidão as razões de ordem política, econômica e social que resultaram na expansão marítima portuguesa. Antes de apreciar e medir (dessa distância em que nos encontramos) a heróica epopéia lusitana, necessário é considerarmos outras razões que contribuíram para que Portugal alcançasse o seu objetivo. Qual pano de fundo desse imenso teatro de marcantes acontecimentos, um passado de glórias militares enche de vida a história desse pequeno país que se volta para o futuro através do instintivo desejo de crescer. Tais acontecimentos, que resultam de do propósito de continuar independente, senhor de seus atos, acontecem como um renascimento surgindo das sombras e brumas de uma Idade Média que parecia interminável. As coisas não foram fáceis e aconteceram entre avanços e retrocessos. Mas o povo português estava decidido a fazer do lendário e temível Atlântico o fator de seu crescimento e progresso. A religião, que em alguns países reteve por séculos as mudanças, em Portugal foi menos desconfiada e mais tolerante com o “novo”, com a coisa surgida de além do fechado âmbito teológico da Igreja. Pelo menos não se tornou empecilho da causa da navegação astronômica. E já que a Santa Sé tinha necessidade de manter a tradicional supremacia, nem sempre admitida por príncipes e reis “desobedientes e rebelados”, não negou pão e água a Portugal. As bulas aí estão para provar que a Igreja foi sempre uma aliada de Portugal e da Espanha, apoiando de todos os modos as iniciativas dos descobrimentos de novas terras. E embora seus dogmas continuassem a sustentar a retrógrada idéia de que a Terra era um disco, só em raras ocasiões em Portugal se deu ao trabalho de questionar teorias científicas como a da esfericidade do Planeta. E o Heliocentrismo de Copérnico. Parece que em Portugal nenhum sábio chegou a ser molestado pela Inquisição que a tantos perseguiu na Itália e na Espanha. Em Portugal as autoridades da Igreja viram desde logo a possibilidade de realizar o que sempre foi um premente desejo da Igreja: aumentar seus bens materiais e multiplicar o número de seus devotos. E tal conquista só poderia ser feita através da idéia de levar promessas de salvação da alma ao tosco gentio do Oriente. Sabendo ser difícil a conversão de muçulmanos, mais prático seria tentar a evangelização de africanos e indianos. Seria como renovar o ideal das Cruzadas. E Portugal, filho da aguerrida Europa, tinha seus intentos bem definidos. Jamais deixaria de recorrer ao velho hábito dos conquistadores que se serviam das hordas guerreiras para impor seu poder político-religioso a tribos e povos estrangeiros. Prática corrente desde as primeiras civilizações urbanas, tal método havia se constituído num meio legítimo de alcançar as mais diversas finalidades. Pois tudo seria válido quando o que importava era a salvação da alma, quando o que se pretendia era oferecer aos povos conquistados um Deus Clemente e Onipotente, com poder para perdoar pecados e faltas.
Decerto não são poucos os movimentos religiosos e políticos que se apoiaram em exércitos armados. Não foi assim que as hordas de Maomé impuseram ao Oriente Médio, a setores da Ásia e da Europa Medieval sua religião e sua lei? “Louvado seja Alá e o seu Profeta Maomé! Louvada seja a espada de Alá!” Do mesmo modo que os islâmicos, os organizadores das Cruzadas não se sentiram inibidos para levar adiante o sangrento projeto de uma guerra que chegou perto de duzentos anos. Tais expedições não foram somente estimulas pelos papas. Em toda parte receberam o incentivo das cabeças coroada e governos monárquicos. Tiveram o apoio de príncipes e cavaleiros errantes em busca de riquezas. Através de ardis e meios os mais tacanhos, clero e realeza estimularam reconquistas de Jerusalém e do Sagrado Sepulcro. Rotulados de guerra santa, o egoísmo e a violência se disseminaram nas vestes da barbárie. Igreja e Coroa, de tanto se apequenarem em busca de recompensas materiais, transformaram o propósito daqueles que pelejavam sob o estandarte do cristianismo em mero butim. Decerto, por trás de tudo houve um outro objetivo. Este ainda mais sórdido e jamais declarado: o descarte do excedente da escória social de Estados regidos pela injustiça. Um outro objetivo não menos sórdido pode ter sido o de encontrar ocupação, além de honrosa morte, para cavaleiros errantes e descontentes do consuetudinário da primogenitura, ou seja, a prioridade de nascimento entre irmãos com direito a vantagens ao primogênito na sucessão ou herança dos pais. Enquanto o primeiro a nascer ficava com a herança, vedava-se o acesso aos demais.
A expansão marítima portuguesa é produto de todas essas coisas e mais ainda da iniciativa individual e do empenho de personalidades cuja ideologia dos descobrimentos se confunde com o interesse comercial das elites. O Infante dom Henrique decerto aí se enquadra. Entretanto, por mais interessado que estivesse no mercado oriental das especiarias, a ele se reconhece haver fortemente estimulado a conquista da costa ocidental da África, que possibilitou a chegada das naus portuguesas ao Extremo Oriente. Um fato tem grande significação no resultado da expansão marítima: Em 1420 ao infante foi dado o governo da Ordem de Cristo, o que lhe garantiu uma força militar permanente e grandes rendimentos em moeda e gêneros. A expansão marítima também recebeu grande impulso com a ocupação em 1419 e 1420 dos arquipélagos da Madeira e Porto Santo.
Escrito por Nilson Patriota às 19h40
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