NILSON PATRIOTA ON LINE


O TESOURO ENTERRADO - Novela On Line (Capítulo II)

 

- Afinal, como foi que o senhor entrou nesta sala? – perguntei desconfiado, a voz embaralhando as palavras.

- A forma como costumo entrar em lugares como este é um segredo. Não posso revelar – ele respondeu e logo continuou: - Fique sossegado. Para mim é coisa simples, corriqueira. Qualquer mágico de picadeiro é capaz de fazer coisas assim – afirmou com um riso trocista nos lábios.

- Mágico? O senhor é mágico? – perguntei.

- Ora, vamos ao que interesse. Tenho importante assunto a tratar com o senhor – disse de modo coloquial, íntimo, como se me revelasse um fato cotidiano, trivial.

- Ora, essa boa. Discutir comigo um assunto! O senhor nem me conhece! Eu nem conheço o senhor!

- Engano seu, eu o conheço muito bem. O senhor é o meu outro eu. Somos soldados da mesma companhia e usamos a mesma trincheira – disse convencido de nossa intimidade.

- Ah, um assunto! Temos um assunto íntimo a tratar! – zombei de sua confiança, enquanto ele me fitava com afabilidade. Por minha vez não podia esconder a inquietude e a incerteza que me perturbavam.

- Vamos, desembuche! – disse, fitando seus olhos que, se bem me recordo eram azuis, longínquos e vagos assim como o horizonte em um dia nublado. Por eles, sopradas por um vento quase imperceptível, nuvens vagarosas passavam à toa.

- Tenho pressa, mas não tanta – ele justificou.

- Então, que deseja mesmo de mim?  – perguntei novamente, instigando-o a soltar a língua e falar o que tinha a dizer. Mais uma vez demonstrou que não estava com pressa. Sentado em minha frente, protegido pela penumbra, parecia olhar-me com sincera admiração. Depois de um silêncio de alguns segundos me disse:

- Gostaria que me ouvisse sem pressa, sem estresse...

- Ora, não estou estressado, mas preciso saber o que o trouxe aqui. Vamos, coragem! E diga a que veio! – estimulei-o, sentindo-me abobalhado.

- Já disse que não tenho pressa, pois disponho da eternidade...

Senti os cabelos arrepiarem na cabeça e nos braços.

- É que tenho horário – disse titubeante. - O tempo está passando e o jornal precisa ser impresso. O pessoal da oficina está impaciente e aguarda meu sinal – disse como numa suplica.

Lá de onde ele estava nem se abalou. Continuou a olhar-me com simpatia, parecendo um velho companheiro que regressava depois de uma ausência. Logo, porém, enfiou uma das mãos nos bolsos das calças à procura de algo.

- Entendo sua pressa, mas preciso fazer-lhe uma proposta – falou cordial e afável.

Fitei-o com redobrada atenção, cada vez mais intrigado. O velho, sob todos os aspectos, parecia diferente das pessoas comuns. Com aquele peito estofado e erguido acima do estômago, assumira a atitude de um pássaro que estivesse prestes a voar. Então saí de sob o abajur e deixei que a luz da lâmpada o banhasse, revelando seu rosto enrugado, seus olhos aparvalhados, seus lábios crestados e duros. Ao sentir a luz da lâmpada, recuou e se encolheu. Ficou muito quieto, mas não procurar se esconder a fim de não ser visto como era. Tinha braços grandes e fibrosos, ombros largos, maciços, mãos enormes Do tórax volumoso emergia o tronco do pescoço taurino em que a cabeça se apoiava. O crânio braquicéfalo, nada convencional, porquanto proeminentemente achatado, era provido de zigomas salientes e um queixo pontudo que formavam um enorme contraste. Em sua fisionomia afunilada estava pregado um sorriso de zombaria que incomoda. E enquanto a abóbada craniana se destacava por sua forma triangular, seu peito avantajado dava-lhe um arrogante ar de gladiador aposentado. No rosto de traços rudes destacava-se um nariz forte, duro e adunco como bico de águia, acima do qual repousavam olhos protegidos por salientes arcadas e por uma testa vincada por rugas. Abaixo do sobrolho os olhos se separavam tanto que me dava a impressão de olharem independentemente para cada lado, explorando duplamente o ambiente.



Escrito por Nilson Patriota às 11h28
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Continuação...

- Que sujeito horroroso!  – resmunguei. – Interessante é que parece comigo... – disse num sussurro.

- Como? – ele perguntou, estranhando decerto o meu murmúrio.

- Nada não – eu lhe disse. – Observava sua musculatura, sua jovialidade de halterofilista.

- Não sou halterofilista! – protestou. - Sou marinheiro! Toda minha vida foi dedicada aos oceanos da terra. Ainda estaria a serviço do mar se não fosse pela aposentadoria compulsória.... Uma merda esse paradeiro com o qual não consigo habituar-me.

- Então o senhor gostaria de se aposentar depois de morto? – ironizei.

- Eu? Morto? Oh não. Nunca morremos. Mas vamos ao que interessa – disse ele se erguendo e apanhando um pacote que jazia no chão a seu lado. Minuciosamente, laço por laço, nó atrás de nó ele o desatou.

- Este é o meu segredo – disse sem me olhar, ocupado  com os muitos nós que lacravam e envolviam o pacote.

Eu não me cansava de observá-lo. Grosso modo, era como se o seu aspecto rústico sempre estivesse sendo revitalizada com as tintas de sua aparência forçuda e hercúlea, coisa, aliás, que parece ter-lhe sido natural antes do enfraquecimento do vigor hercúleo vencido pela idade. Salvo engano, era homem de sessenta anos, pouco mais ou menos, e seus cabelos já começavam a pratear em mechas variadas, principalmente sobre as orelhas cartilaginosas. No rosto triangular, nas mãos sólidas de dedos robustos, nos braços musculosos, de veias salientes ou inchadas, a epiderme áspera achava-se sarapintada por manchas senis. Eu notar que durante as pausas de nossa conversa sua fisionomia tornava-se introspectiva como a dos indivíduos submetidos a longas depressões. Entretanto, ao retomar a palavra, logo recobrava a placidez natural. Creio que bastaria um rápido sorriso daquela boca robusta e loquaz para afastar para longe as possíveis apreensões de qualquer interlocutor. Até mesmo o mais cético a respeito de suas cordiais intenções. Naquele rosto rústico de marítimo sexagenário três referências essenciais se destacavam: os olhos apaziguados, a intensidade da boca e a suavidade do sorriso. Depois desses pontos referenciais importantes salientavam-se os braços longos e enervados, recobertos de muco escamoso, decerto proveniente de aderências salinas que lhe enrijeceram a epiderme, tornando-a escamosa, quebradiça, friável. Tendo consciência de que sua súbita chegada me assustara, agora primava pela cortesia a fim de afastar qualquer má impressão.

- Então, que deseja realmente o senhor? – indaguei do novo, mas de forma a não o aborrecer. Já não precisava que soubesse que o meu desejo era livrar-me dele o mais rápido possível. Talvez por isso ele haja assumido sem rodeios uma posição bastante íntima, se assim posso dizê-lo, e com um jeito fácil e suave foi direto ao assunto:

- A coisa é simples, porém muito importante para o senhor, pois se trata de ouro e riqueza.

“Pronto, uma alma do outro mundo. Veio dar-me uma botija”! Mas logo recuei desse estapafúrdio pensamento e concentrei-me:

- Ouro e riqueza? Acho muito estranho.

O velho era daqueles indivíduos que, por conhecerem o mundo todo, sentem-se em casa em toda parte.

- Sim, isso mesmo. Trago-lhe uma proposta. Um negócio.

Confesso que um frio me percorreu a espinha e um intenso desejo de voar tomou posse de mim. Senti que não tardaria o dia em que a loucura tomaria conta de mim. 



Escrito por Nilson Patriota às 11h28
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O TESOURO ENTERRADO - Novela On Line (Capítulo I)

Naquele tempo eu trabalhava em jornal. O sistema offset ainda não havia chegado ao país. Por isso fazer jornal não era fácil. O computador, que posteriormente facilitaria quase tudo, dava seus passos iniciais distante da imprensa. Era apenas uma máquina misteriosa e capaz de receber, armazenar e enviar dados sobre os quais efetuava seqüências programadas de operações lógicas e aritméticas, resolvendo problemas temáticos. O computador digital como atualmente conhecemos não passava de promessa em que algumas pessoas confiavam enquanto a maioria olhava com reserva. A composição gráfica do jornal, que antes dependera das matrizes de caracteres de impressão reunidas, uma a uma, para formar palavras e frases, no final do século XIX tinha sido beneficiada com o avanço conquistado pela linotipo. Essa máquina, inventada por Ottmar Margenthaler, era uma maravilha mecânica para a época. Provida de teclado, a linotipo passara a fazer grande parte do serviço de composição gráfica dos jornais. Reunia em si mesma diferentes matrizes de caracteres que, dispostas nos canais de um ou mais magazines, sucessivamente eram levadas a um componedor, onde formavam a linha; em seguida ao molde, onde era fundida a linha-bloco, e, por sua vez, ao distribuidor, de onde as mesmas retornavam ao magazine. No meu tempo essa invenção constituía o modo mais engenhoso e moderno de se fazer jornal, revista e livro. Só mais tarde, já nos anos oitenta/noventa, a linotipo viria a ser substituída pelo computador eletrônico e individual, que modernizou e simplificou as tarefas gráficas dos periódicos ou jornais. Certa noite, o jornal em atraso, eu dava os últimos retoques nas manchetes da página de rosto do primeiro caderno. Então percebi algo estranho acontecendo na sala de redação, onde me encontrava, e que se não fosse pela minha presença, àquela hora estaria deserta. Sabendo que o jornal dependia de minha avaliação, com argúcia examinava manchetes e notícias. Encerrado o trabalho na redação, repórteres e redatores já haviam saído. No prédio só se encontravam o impressor, o seu auxiliar, um linotipista de plantão, para qualquer eventualidade, e um vigia. Absorvido naquela obrigação, debruçara-me sobre a primeira página do diário, concentrando ali toda a minha atenção. Na sala em silêncio e pouco iluminada senti, antes de ver, alguém que passeava para lá e para cá, pisando levemente. Ao levantar os olhos divisei um indivíduo que tinha as mãos às costas e andava pela sala como se estivesse em seu jardim. A meu ver, tinha um ar de enfado misturado ao natural desgaste da velhice. Dava-me a impressão que ali chegara sem saber por onde nem por que. E assim nem percebia que estava sendo observado. Pendente de seus ombros um alforje cheio de rolos de mapas balançava. De repente dei-me conta do perigo, tive um sobressalto e gritei:  

- Ôôôôpa! O que é que há?

Com os nervos à flor da pele, as orelhas em brasa, o coração aos saltos, batendo duro e seco contra o esterno, apanhei um estilete de aparar papel, que se achava sobre a mesa, e com força o segurei decidido a me defender caso fosse atacado.

- Tenha calma, doutor, tenha calma – disse o estranho olhando meio assustado para mim.

- Quem é o senhor? Que deseja de mim a estas horas? – perguntei com voz trêmula.

Curioso, como se tentasse ver quem falava, aproximou-se. Então pude vê-lo melhor. Era de fato um velho de sessenta e tantos anos. Alto e musculoso trajava uma surrada japona furta-cor, como as dos marinheiros, parecendo molhada. Chegando bem próximo da mesa de trabalho, fixou-me. Senti que ele queria me falar. Com os cabelos arrepiados, o frio correndo pela espinha, esperei que ele voltasse a falar. Estaria diante de um fantasma? – perguntava aos meus botões.

- Rhum, rhum – ele pigarreou, olhando suavemente para mim.

 – Preciso falar-lhe e espero que me dê atenção, pois estou de passagem e quase sem tempo.

- Quem é o senhor? – insisti.

- Sou um homem sem tempo precisando falar-lhe.



Escrito por Nilson Patriota às 22h28
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Continuação...

- E eu sou um homem sem tempo pretendendo terminar seu trabalho. Tenho diante de mim um jornal que precisa ser entregue à máquina impressora.

Na parede, onde  o carrilhão tiquetaqueava, soaram, como marteladas, as doze badaladas fatídicas da hora das assombrações.

- Xi, como é tarde! – disse-lhe apressado. – Tão tarde e o jornal ainda não rodou! Preciso cuidar disso e peço-lhe que vá embora!

- Não roubarei seu precioso tempo – sussurrou, delicadamente, o velhote.

“Que situação!” – pensei: “Sozinho nesta sala, um estranho em minha frente, sem que eu saiba por que porta ele entrou, já que todas eu mesmo fechara por medida de segurança”.

- Pelo visto, o senhor também gosta da noite, hein? – disse o velho, como a zombar de meu espanto.

- Meu Deus! Que quer o senhor?

- Um quase nada – ele respondeu, calculando um naco de tempo com um gesto de aproximação do indicador e do polegar.

La fora as máquinas chiavam. Sobretudo a rotativa, já ligada, com o impressor aguardando a ordem de fazer imprimir o jornal.

- Por favor, posso sentar-me? – o velho marujo perguntou.

- Sim, pois não. Claro que pode. Sente-se, por favor – disse-lhe, apontando uma das cadeiras dispostas ao longo da parede.

- Boa segurança tem o senhor – ele disse. – Não é fácil alguém encontrá-lo aqui... nesta sala em penumbra...

- Mas parece que foi fácil para o senhor, não é mesmo? – respondi com um riso de mofa, embora bastante perturbado por não entender sua intenção.

- As dependências do seu jornal são bem guarnecidas. Na portaria, um vigilante armado para afastar os atrevidos. No corredor um vigia e operários por toda parte... Tempo agitado o que vivemos – ele considerou. – Sou informado de que se tornou comum o empastelamento de jornais, não é mesmo? Ora se é! – ele próprio respondeu. Se eu dependesse de jornal teria que tomar providências contra a visita de estranhos a desoras...

- Como, se o primeiro a invadir é o senhor!

- Não estou invadindo. Preciso lhe explicar por que vim. Se o senhor me ouvir, saberá.

- Espere um pouco. Logo lhe ouvirei.

- Oh, não importa. Disponho de toda a eternidade e posso esperar.

Os arrepios repetiram-se. E eu não sabia o que fazer.

Sentado em minha frente o homem não demonstrava pressa nem hostilidade. Fitava-me de forma pacífica. Entretanto, deixava transparecer algo misterioso que nascia dentro dele e se espalhava por todo o ambiente. De tanto observá-lo compreendi que não poderia ter má intenção para comigo, vez que tivera tempo e oportunidade para manifestar-se e nada havia feito. Havia surgido como um fantasma nascido da penumbra da sala, já que o halo da lâmpada concentrava-se apenas sobre a mesa.

- Quando puder me atender, avise – disse.

“Será uma assombração?” – eu me perguntava.

“Não, não pode ser. Esse aí nada tem de fantasma. Trata-se de uma pessoa de verdade”  - concluí. Então, um pouco mais aliviado abri bem os olhos e fitei-o na cara a fim de conferir suas feições. Idoso e vestido à maruja, ele se ergueu da cadeira e me estendeu uma manopla rude, de dedos roliços e grossos, parecidos com garras. Suas unhas eram duras, recurvas. Sua mão calejada. Eu relutava em apertá-la.

 - Perdão – disse-lhe eu. – Desculpe a maçada. Mas é que estava concentrado em meu trabalho e não o vi entrar. Quando o descobri, tomei um susto. Confesso que quase entrei em pânico, julgando que se tratava de um... de um...

- ...de um fantasma? – ele completou de forma educada o que eu próprio relutava pronunciar. E logo se justificou: - Ah, não se incomode. Eu entendo. Não é a primeira vez que me acontece passar por.... por fantasma. Todavia, sei que, mais do que as pessoas às quais tenho visitado, sou eu próprio o que mais se amedronta. Vejo certos esgares, certos rictos em suas fisionomias... Coisas assustadoras! Em certas ocasiões, mesmo sem que deixasse transparecer, esperei com estóica compreensão uma reação violenta. Meça isso pelo seu próprio exemplo... Pois não é certo que Vossa Senhoria esteve perto de me atacar com esse estilete que traz na mão?...

- Eu? Atacar o senhor? – disse encabulado ao ver-me empunhando o estilete que, sem dúvida, teria usado caso o estranho me houvesse agredido.

- Bem, é isso aí, mas o senhor teve culpa. Entrar a estas horas numa sala fechada! Que é isso? – grosseiramente falei.

- Não existem salas fechadas para indivíduos como eu! – disse empertigando-se.

- Eu pensei... Bem, fique tranqüilo, pois apesar da aparência não tive intenção de feri-lo. Afinal, que deseja o senhor a estas horas? – perguntei novamente olhando o mostrador do grande relógio. – Afinal, de que se trata? Por onde o senhor entrou?

O velho me fitava com prudente naturalidade. Seus grandes olhos brilhavam como lagos azuis. E assim iluminavam aquele velho rosto crestado de múltiplos verões. Percebi que naquela fisionomia angulosa não havia lugar para impudor nem cinismo. Quando muito, somente matreirice revelada num sorriso maroto, brincalhão. Seu jeito era o de alguém habituado a pregar sustos. Porém não saberia dizer se ele era ou não era deste mundo.



Escrito por Nilson Patriota às 22h23
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ASPECTOS DA LITERATURA NO RIO GRANDE DO NORTE

(Pronunciamento  em 13.11.06, na ANRL).

 

O material essencial de uma academia de letras é a Literatura. Pensando nisso Luís da Câmara Cascudo se reuniu com outros escritores, poetas e jornalistas e os convidou a se juntarem em uma sociedade cultural denominada ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS. Há algum tempo, aliás, este já era o seu propósito. Esta reunião realizou-se a 14 de novembro de 1936 e foi um importante acontecimento na cidadezinha de menos de 50.000 habitantes. Mas, por importante que tenha sido a iniciativa de Câmara Cascudo, ela não marca o início das atividades culturais em nossa terra, embora tente definir rumos à Literatura que até então vinha sendo cultivada por pessoas da capital e do interior da província. Aqueles que cultivavam a arte de escrever faziam-no ao sabor de suas telúricas emoções e utilizavam pequenos hebdomadários da capital e do interior para torná-las conhecidas. Grande parte dessa produção, geralmente aceita e reverenciada pelos leitores de cada época, permaneceram lembradas e inspirando pessoas nas gerações seguintes a também se dedicarem às letras. Portanto, muito antes da fundação da ACADEMIA já existia em nossa terra uma Literatura de boa qualidade, que se esforçava para se tornar visível e palpável. Decerto essa Literatura teve início na oralidade e veio progredindo ao passo que os nossos poetas e prosadores passaram a colocar no papel as suas tentativas de levar a pública o resultado de suas tímidas criações, fazendo nascer a Literatura feita de caracteres como a conhecemos. Entre os nossos primeiros poetas a escrever e a publicar seus versos, temos o festejado lírico Lourival Açucena, nascido em 1827.

Os nossos homens de letras foram, sem dúvida, imbuídos de telúricos sentimentos pela terra em que nasceram e dela falaram fartamente, misturando os sentimentos nativos com as impressões causadas por suas leituras européias que por aqui chegavam trazidas de Lisboa, Madri, Paris e Londres pelos que por lá estudavam. A nossa mentalidade artística teria que ser herdada, porém o nosso fazer literário voltou-se mais para o regionalismo. E assim essa dubiedade intelectual foi responsável pelo pontapé inicial da corrida das letras, que viveu de acordo com os surtos de entusiasmo e descrença. Mas a cada surto produzia ciclos ou movimentos artísticos e literários. Com o passar dos anos tais ciclos iam se tornando mais constantes e dinâmicos.



Escrito por Nilson Patriota às 16h47
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Falemos um pouco desses movimentos.

Eles nasceram com o abolicionismo (1888) e as lutas republicanas (1889) quando foi estabelecido o Governo Provisório, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca. Aqui na província a República seria representada por um grupo político que tinha como líder o Dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. Nesse mesmo ano Pedro Velho havia fundado um jornal denominado “A República”. Sabemos que no decorrer dos anos seguintes surgiram na província diversos movimentos literários, cada qual expressando tendências, mas no cômputo geral todos bem semelhantes. Esses movimentos, sucedidos por outros de variada abrangência, tiveram seus papéis e vieram aglutinando a idéia de fundação de instituições culturais que lhes dessem respaldo. Uma dessas instituições foi o Instituto Histórico e Geográfico e outra a ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS, nascida em momento oportuno, quando a Literatura do Estado, já amadurecida e prestigiada pelo gênio criador de Luís da Câmara Cascudo, começou a traçar seu próprio rumo. Mas antes que os literatos locais se reunissem em torno de um ideal comum – a Cultura como um todo indispensável à vida da província – tais movimentos literários deram origem a vários sodalícios. Nenhum foi estéril e muitos deles tiveram virtual importância para que chegássemos ao atual resultado. Não podemos esquecer que os movimentos literários e artísticos surgidos em Natal por volta de 1945 e 1952 são filhos e netos dos que apareceram a partir de 1897. Estes vieram vindo e se fortaleceram através de estímulo e exemplo de intelectuais como Henrique Castriciano, Eloy de Souza, Segundo Wanderley, e da posterior participação de Nilo Pereira, Américo de Oliveira Costa, Edgar Barbosa, Palmira Wanderley, entre outros beletristas de cada período. Tais literatos tiveram na publicação de alguns hebdomadários prestigiados na província o seu ponto de fusão e apoio. Um desses pontos de confluência de idéias foi o Suplemento Literário comandando pelo poeta Antonio Pinto de Medeiros. É esse Suplemento que reúne aquela plêiade de jovens intelectuais necessitados de expandir suas idéias, publicarem e exporem seus trabalhos e ser avaliados pela opinião pública quanto ao grau de capacidade, tendência artística, literária e vocação para as artes e as letras. Desse grupo, só Veríssimo de Melo havia publicado trabalhos literários em jornal e revista. Os demais continuavam inéditos. Eram muitos, mas citarei apenas os mais interessados no assunto arte e literatura. Chamavam-se Geraldo Carvalho, Lenine Pinto, Newton Navarro, João Batista Pinto, Dorian Gray Caldas, Zila Mamede, Luís Carlos Guimarães, Aluísio Furtado de Mendonça, Gilberto Avelino, Sanderson Negreiros e quem modestamente vos fala, obrigado pelas circunstâncias a abandonar o grupo inicial para tentar no rádio, que se firmava como veículo de comunicação, e na imprensa diária, um meio de vida e uma carreira. Decerto muitos outros, aqui omitidos, contribuíram para caracterizar com idéias, formas e cores, a estrutura da Literatura e das artes em nossa terra. Cada um teve e tem sua significação.

            Tudo, no entanto, parece haver tomado forma e consistência por volta de 1897, quando Natal contava com apenas  15 mil habitantes, mas já possuía nada menos que quatro agremiações literárias, todas elas providas de jornal ou revista. A cidade não era, conforme podemos deduzir nada indigente em Literatura. Numa dessas agremiações, cuja denominação era “Le Monde Marche”, atuaram e se destacaram figuras como Sebastião Fernandes, Antonio Soares, Aurélio Pinheiro e Ulderico Cavalcanti. Escreviam, debatiam, expunham e defendiam suas idéias, teses e doutrinas numa revista denominada “Oásis”, editada pelo sodalício. 



Escrito por Nilson Patriota às 16h46
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