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O TESOURO ENTERRADO - Novela On Line (Capítulo III)

 

- Vamos, exponha o assunto, fale de seu negócio! – incentivei-o.

- Ah, vejo que entendeu! Se quer mesmo negociar, meu amigo, vamos ao que interessa – o velho disse me olhando com afabilidade,  como se fôssemos íntimos. Fez uma pausa, como para respirar, e em seguida continuou didático: - Venho de longe, das águas tumultuosas e geladas dos mares singrados por Barents e Jenkison. Navegando por perigosos mares cheguei, alcancei as águas singradas pelo Acushnet, o baleeiro em que Melville cruzou o Pacífico equatorial, indo para Nukuheva, nos mares do Sul, onde chegaria ao vale dos canibais typees. Também cheguei a conhecer a perigosa rota marítima traçada por Francis Drake, aquele ordinário, que em 1576 partiu do porto de Plymouth a fim de saquear as cidades espanholas do Caribe. Interessantes as coisas na Terra! – disse suspirando. – Pois não é que foi justamente nessa fase que ele seria promovido? Sim, promovido. De ladrão comum passou à categoria de corsário fidelíssimo de Sua Alteza Britânica Isabel I, da qual se tornaria aplaudido explorador de continentais. Naquela época os mais célebres bandidos foram feitos gentis-homens por rainhas e reis de duvidosas procedências. Saiba o senhor que foi durante essa navegação no caribe que Drake completou a segunda viagem de circunavegação da esfera terráquea, um feito equivalente ao de Fernão de Magalhães, não acha?

- O senhor acredita na bondade dos homens? – perguntei.

Ele fez uma pausa, passou os olhos nas estampas que decoravam as obscuras paredes da sala, novamente respirou profundo, fez uma careta e então prosseguiu, como se não me ouvisse:

- Saí de casa ainda menino chamado pelo mar. Naquela época havia muitas lendas a encher de terror a mente obscura das tripulações de mendigos recrutadas nos becos e nas tavernas das cidades portuárias da Europa. A vida daquela gente era uma porcaria. Mas não foi o meu caso. Eu apenas respondi ao apelo do mar.

- Por que tão cedo assim? – perguntei por perguntar, pois já estava impaciente e louco para me livrar daquele invasor de território alheios.

- Havia fome e fazia frio no burgo em que nasci. E falta absoluta de opções. Para onde um homem como eu poderia ter ido senão para o mar? Por isso fugi. Fugi de um pai ignorante e repressor e de uma madrasta que me batia com sofreguidão e me alimentava com sobras de bolachas roídas de baratas e ratos. Estacou, ficou olhando para mim, para o infinito, para o teto. Durante alguns segundos esteve ausente, a face irada, os olhos faiscando. Logo, porém, se recompôs do impacto daquela odiosa lembrança. Ao regressar de seu poço de lembranças ruins, varias vezes pigarreou. Mas sem maiores dificuldades voltou ao assunto interrompido, e disse:  – A Europa de meu tempo não era nada amena. Cada burgo se encarregava de alimentar as maldades de um pequeno governante. A podridão exalava nas ruas e becos. As vilas e cidades, “horribile dictu”, eram sórdidas, sinistras. Quando o inverno chegava, a neve e o frio faziam sua ceifa. A maioria dos velhos não conseguia atravessar a gélida estação. A maioria dos europeus era composta de ignorantes. Com exceção, naturalmente, dos intelectuais e de alguns prelados, as pessoas eram poços de malvadez e de maldade. Bem menos valia a vida que atualmente. Comia-se como porco: as manoplas enfiadas na gamela das carnes e das batatas. Pouquíssimas vezes lavavam-se as mãos. Jamais as pessoas banhavam-se. As doenças proliferavam e eram transmitidas rapidamente. Tornavam-se epidêmicas, pestilentas. As populações eram dadas por culpadas dos acontecimentos desastrosos. A peste era o castigo pelos pecados dos homens. Assim dizia a Igreja e assim se pensava. Mas, como o senhor pode deduzir, sobrevivi. Porém jamais consegui ser feliz. Toda minha vida se resume à busca da felicidade que jamais conheci. Sonhei com a riqueza e de tudo fiz para enriquecer. Nos barcos em que trabalhei aprendi que viver é sofrer. Vivi a segurar meu próprio escalpo. Acredito, porém, que agora encontrei a riqueza. E assim atualmente tenho paz. Entretanto, presumo que a riqueza haja chegado quando já não posso mais desfrutá-la. Por isso prefiro continuar navegando na esteira das incursões piratas. Afianço, no entanto, que jamais fui ladrão. Não sou um fora da lei. Conquanto o que afirmo possa contrariar a posse deste papiro que conduzo comigo, ele não foi roubado. Não por mim, adianto. Se o foi pelo que mo venderam, isso é lá com eles. Realmente paguei um preço muito alto pelo que considerei ser minha independência que agora proponho dividir com mais alguém. Não quero ser tão rico sozinho. Uma riqueza como a minha seria um pecado se não for dividida.

- Papiro? O senhor possui um pa-pi-ro?... – perguntei cheio de curiosidade. Mas esta palavra é mágica! Lembra os egípcios! Quer dizer que o senhor andou lendo roteiros, cartas de marear, algum livro, escritas de símbolos...? Isto é, algo como hieróglifos?... Ah, hieróglifos, como os da pedra de Roseta, decodificada por Chapolion?... Já sei! Viajou mundo fora! Encontrou muitas ilhas! Apossou-se de uma delas! A do Tesouro!

- Está certo numas coisas e noutras não. Nada revela mais a existência de ilhas perdidas e jamais registradas na profusão de papéis oficiais do Almirantado Britânico do que meia dúzia de papiros altamente secretos,  não é mesmo? – ele disse.

Tolamente, sem prestar atenção no que falava, pois estava com medo, perguntei:

O senhor já viu alma do outro mundo?



Escrito por Nilson Patriota às 06h16
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