A POESIA DE NILSON PATRIOTA
Silvio Caldas
A musicalidade literária da prosa de Nilson sempre
sugeriu aos ouvidos dos leitores dele a poesia que lhe era
inata. Agora, vencido pela nostalgia e pela lembrança dos
conselhos da tia Doninha, o autor não mais resistiu e desnudou-
se. O que antes era poesia sob a forma de prosa,
transmudou-se agora em prosa poética. Reminiscências
da juventude e mesmo de tempos mais recentes explodem
sob forma de versos saudosos, felizes, e mesmo porque
a saudade em Nilson é uma forma de reviver e de
fazer sempre a fecunda história de sua vida.
Parceiro empedernido, boêmio por formação, amigo
por profi ssão, é assim que eu vejo Nilson desde a vez
primeira que o conheci.
Escrito por Nilson Patriota às 07h52
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Continuação...
Nele, a saudade se faz presente em cada esquina da
vida. Lembranças do tio Zeca, das noites boêmias dos
tempos de rapaz; na casa simples de Touros, na memória
das duas “irmãs” que com ele namoravam, dos parentes
que ajudaram forjar o seu caráter, e dos amigos que ele
veio colhendo ao longo de sua caminhada.
De espírito sempre jovial e qual capitão de longo
curso, o praieiro Nilson Patriota fez vela de um pedaço
de luar e singrou os sete mares da vida, rememorando e
reverenciando a todos aqueles que direta ou indiretamente
lhe exerceram o fascínio, alguns já encantados, outros a
dividir com ele os prazeres e as agruras do cotidiano.
O trem, a jangada, o “Potengi amado”, o mar e a
montanha, o mangue, as campinas, tudo para Nilson é
poesia e nada, passado, presente, ou passante, escapa-lhe
da memória e do amor.
Uma vez mais, Nilson, vale a pena.
Escrito por Nilson Patriota às 07h52
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UM OTIMISTA INTEGRAL
Veríssimo de Melo
Pessoalmente –, se é que isso possa interessar a alguém
–, Nilson Patriota é criatura amável, doce, tranqüila.
Fala baixo e não tem medo de alma. O mundo pode
desabar hoje, agora, sobre as nossas cabeças e Nilson nem
se alterará. Acenderá um cigarro, calmamente, desconversará
e dirá que tudo está certo e que o mundo é assim
mesmo. No íntimo é um otimista integral. Cônscio do
seu lugar ao sol, conquistado a duras penas. Ama a vida,
- mas não é desses que saem gritando por aí que nós estamos
“no melhor dos mundos possíveis”, como proclamava
o velho fi lósofo. Fica na dele.
Em verdade, Nilson Patriota é um poeta. E dizendo
poeta, dissemos tudo. É um profeta, um mago, um mágico,
um exorcista, um malabarista de trapézio de circo,
um corredor de automóvel da Fórmula - l, sem pressa de
chegar. Por que um poeta é isso tudo e mais alguma coisa.
Apenas, - atentem bem para isto, - é um poeta que teve,
há quinze ou vinte anos atrás, uma visão pragmática da
vida. (...) Enquanto todos nós pensávamos que Nilson
Patriota se perdera para a literatura, - como uma donzela
do alto sertão perde a sua donzelice, depois de um
baile, coitada, - eis que ele volta a todo o vapor para a
vida literária da Província.
Escrito por Nilson Patriota às 07h41
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Continuação...
Começou escrevendo artigos e
comentários terríveis e polêmicos para a Rádio Nordeste,
que dirigia. Nos últimos tempos, dirigindo o velho jornal
A República, aí escreve crônicas amenas e gostosas, entre
o papo com as visitas e os telefonemas de Palácio e dos
amigos.
O poeta, felizmente, está recuperado para o Rio
Grande do Norte. E é admirável que ele ainda encontre
disposição e gosto para escrever ágeis e bem humoradas
páginas literárias ao lado de notícias governamentais e relatórios.
(...) Quem examinar detidamente suas crônicas
há de verifi car que suas observações não são, de modo
nenhum, sempre “em vôo de pássaro”, como pretende
sugerir na expressão francesa. Ao contrário. Muitas vezes,
ele vai ao fundo do poço para explicar situações humanas
do drama de todos os dias. (...) Nilson Patriota é cronista
magnífi co. Escreve com incrível facilidade. Quase ao
correr da pena, como se dizia. (...) Tudo nele, escrevendo,
é leve, claro, quase translúcido. Tem domínio da palavra
escrita. De forma que, sob certos aspectos, é um virtuose.
O que é perfeitamente observável pelo chamado leitor
inteligente.
Escrito por Nilson Patriota às 07h41
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O POETA HOMÉRICO DE TOUROS
Franklin Jorge
Noturno de Touros (Natal, 20006) magnífica o princípio poético desse autor que se nos deu a conhecer primeiro através de uma prosa sintética, consubstanciada em leveza, luminosidade e frescura, qualidades vivas e presentes no livro de estréia de Nilson Patriota, desde então um fino cronista, do mesmo elenco de Newton Navarro, Berilo Wanderley, Sanderson Negreiros, Woden Madruga, Zélia Freire...
Por toda a vida o oposto do espírito invejoso e rabugento que infesta e espreita dos bastidores da cultura oficial, provinciana, sempre hostil ao talento. Nilson, ao contrário, tem reiterado que o exercício da admiração por outro espírito amplia a nossa capacidade de compreender e sentir.
Autêntico homem de letras, na acepção clássica do termo, não vê o homem sem prazer. Um confrade a dispensar incentivos, a reconhecer e aplaudir o mérito alheio. Cascudo, Luís da Câmara Cascudo, o apelidou de Bom Jesus, numa alusão ao santo padroeiro de Touros. Sempre gostei de ver em Nilson Patriota esse ser integral, generoso, constante, cheio de fé, cujos defeitos são às vezes suas melhores virtudes. Ele é um desses de nós que crêem uma salvação pela arte.
Escritor, jornalista, cronista, biógrafo, romancista, historiador, memorialista, animador cultural e, agora, poeta! Um poeta que viu infinitos crepúsculos; um poeta que acaricia a memória, nele hospitaleira e fecunda, indestrutível palimpsesto e farol, norteando sua milagrosa pesca de palavras.
Creio desnecessário referia o crítico, ao excelente crítico literário, leitor exemplar que é Nilson Patriota, um jovial patriarca das letras em tudo arguto e perspicaz, amoroso de uma música mais grave, mais triste, mais resignada, concatenada em prosa e verso. Um poeta-crítico, enfim, buscador infatigável da essência da poesia e dos segredos da realidade.
Autor de raro e precioso retrato do poeta homérico do Rio Grande do Norte, reivindicou para Ferreira Itajubá a mesma origem tourense. Um dos homens que mais tem pensado no curso de seus 75 janeiros, apreciador da felicidade da conversa, em certa época freqüentava mais assiduamente a calçada do Café São Luiz. Trabalhando sem pressa, estreou em livro já maduro, ao regressar ao jornalismo diário nas páginas de A República, quando o conheci há uns trinta anos, prodigando camaradagem e exemplos. Ali fez brilhar a crônica, gênero por excelência tão brasileiro; uma crônica – a sua – plástica, alada, reunida em Vôo de Pássaro, e um suplemento cultural que sobreviveu alguns anos, fazendo história.
Sua cruel clarividência é filha da atenção, da paciência, do escrúpulo. Homem vivido e de experiências feito, escreve em prosa em verso, cria e interpreta, amplia e socializa o saber, numa incessante evocação dos mortos; do espírito dos lugares que amou e perdeu; dos ancestrais; das mulheres; da luz e da música compõe Nilson Patriota a nota de tristeza graciosa que perpassa a tessitura lírica do que escreve.
Para Nilson, tudo é sagrado em Touros: a brancura esplendorosa das praias; a força cega do tempo; o enigma de uma vida anterior; a luz difusa e cambiante do mar; inefáveis e obscuras alegrias que remontam à mitologia de sua infância itinerante; a poesia límpida e furta-cor como a água; e para nós, seus admiradores, os versos de Noturno de Touros, de cuja pauta fulge os fogos do outono.
Escrito por Nilson Patriota às 09h22
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MAR DE TOUROS
Em Touros o mar se espraia
Em ondas dentro de mim.
Suas correntes salinas
Circulam em minhas veias
E sua cosmologia
De cobre e de alcatrão
Tem a estrutura do aço,
O espectro do estanho,
Mas mesmo assim se parece
Com a prata esmaecida
Dos cabelos de meu pai.
Lúgubres gemidos opressos
Emergem de suas locas
Sufocando meus suspiros
De desencanto e de saudade,
De impaciência e de paz.
Em Touros o mar que geme
Lembra o tempo que se foi
Com minhas tias e tios,
Meus irmãos, primos, parentes,
E os amigos de meus pais.
Ah, quanta gente perdeu-se
A curtir longos silêncios
Na luz vestida de plasma
De ocasos emolientes
Em que juntos soçobraram
Sonhos e vãs esperanças
De amores que não vingaram!
Em Touros o mar espreita
Com os olhos de minha mãe
E a mirada de meu pai.
Escrito por Nilson Patriota às 08h40
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AS IRMÃS
Na casa azul da esquina
Por onde cedo eu passava
Duas moças de corpete,
Duas irmãs pestanudas,
Os tenros braços erguidos
Lânguidas mãos me acenavam.
Pela expressão labial
Uma dizia: “Te quero”.
Por sua vez sussurrando,
“Te quero” – a outra dizia.
E assim me disputavam
Na branda luz da manhã,
No triste ocaso do dia,
Quando eu ia ou quando eu vinha
Da escola ou do trabalho.
Se eu me tornava volúvel,
E as esquecia ou trocava
Pelos afagos de outras,
Ingênua, uma chorava,
Por se sentir mal amada,
Enquanto a outra sorria
A fi m de me convencer,
Com esplêndida alegria,
Ser a que mais me amava.
Fantástica cabeleira tinha a que sorria
- em mechas derramadas sobre os seios.
Em seus olhos um brilho azul fulgia
Fertilizando a raiz dos meus anseios.
Suas mãos de ourives trabalhavam
Meu corpo magro, desvalido e chão,
Na ganga seca e pobre rebuscando
Veios auríferos, gemas preciosas,
Onde só cascalho e borra havia.
Era mais vegetal que mineral
A irmã que sorrindo me amava.
Escrito por Nilson Patriota às 08h31
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Continuação...
A que chorava tinha longos cílios
Olhos de um langor tão melindrado
Que sendo o dia de contentamento
Os tons alegres logo destoavam.
Quais nodosas raízes, os seus dedos,
Ao tentar acariciar me magoavam.
Sua boca travosa maldizia,
Seu olhar de maldade me rendia.
A primeira chamava-se Ventura,
O nome da segunda era Amargura.
Essas duas meus sonhos perturbaram,
A minha alegre vida devassaram,
E a duras penas teceram o meu sofrer.
Mas o tempo passou como um ciclone,
Que a tudo destrói e a tudo arrasta,
Levando o vendaval a que sorria.
Então, de modo rude e sem nenhum cuidado,
A que chorava me pensou a mágoa,
Lavou-me a alma com seu pranto ácido,
Encheu-me a boca de amargoso hálito,
E apossou-se do meu ser frustrado.
Sem me dar chance trabalhou-me a dor,
Roubou-me o sonho, matou-me a fantasia,
Selou-me o coração com o desamor.
De lástima ela me encheu a adolescência,
Com pranto afl ito o coração banhou-me,
Do meu amor zombou com cínico riso,
Da minha solidão troçou com impudência,
E do meu âmago afugentou a calma.
Era mais mineral que vegetal
A irmã que chorava e não me amava.
Na casa azul da esquina
Por onde cedo eu passava...
Escrito por Nilson Patriota às 08h31
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O PLANTADOR DE FANTASIAS
Com a sutileza de um afago,
Tio Zeca foi chegando,
Falando calmamente
Como poderia fazê-lo um plantador de fantasias.
Derramou sobre mim o azul de suas pupilas
E calmamente disse:
A ilusão é própria do homem
E a solidariedade o envaidece,.
Por isso desejo ser feliz vivendo entre os meus.
No dia seguinte, sutilmente partiu para o mundo
E jamais regressou.
A voz do velho sonhador
Encheu, como um sopro suave,
As cavidades e fendas de meus ouvidos,
Transportando-me para um tempo distante
Em que tia Doninha veio visitar-nos
E me encontrou enfermo de caxumba.
Eu era rapazote,
E ela, com a autoridade de tia,
Indagou sobre o motivo pelo qual
Eu havia deixado de lado a poesia,
Uma tradição do clã Patriota,
Um fator de prestígio familiar e pessoal
Em tempos que se foram.
Então, surpreso, respondi:
Tia, eu jamais me interessei por poesia!
E ela retrucou:
Pois se não se interessou, trate de fazê-lo.
Não vê que a poesia é a própria vida?
Não desejo escrever poesia – retruquei.
Ah, caro sobrinho, você não me engana; ah, isso não!
Por que, tia Doninha? – perguntei.
Você é dos nossos! –
Sem se dar por vencida, ela respondeu.
Escrito por Nilson Patriota às 21h26
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Continuação...
Então eu a beijei levemente na face bela e tísica,
Sem saber que em breve
Ela nos deixaria para sempre.
Lembro daquele instante,
Das lágrimas transluzindo no azul de seus olhos
Que ainda conservavam viço e cor.
Então me comovi e disse
Que um dia haveria de fazer sua vontade.
É o que faço agora, tanto tempo depois,
Decidido, como um jovem sonhador,
A plantar fantasias à margem desses áridos caminhos
Onde recolho queridas lembranças
Daqueles que amei,
Que foram especiais em minha vida,
Mais por seus defeitos
Do que por suas virtudes
Geralmente ridículas, triviais,
Que sempre passam do modo que passaram
Os olhos intuitivos da tia Doninha
E as pupilas azuis do tio Zeca.
Tio Zeca, sósia do mano Chico,
Na geração pregressa,
Do mano Chico de saudosa memória,
Tão amado,
Tão querido de todos,
Por que não foi perfeito.
Oh, meu Deus,
Eu vos agradeço!
Não foi perfeito, não,
Não foi perfeito.
Escrito por Nilson Patriota às 21h26
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