NILSON PATRIOTA ON LINE


MINHA GENTE

 

Em mim (orgulhosas de obscura glória)

Vivem outras pessoas de meu sangue.

Algumas que por remotas desconheço,

Outras que vêm de gerações mais próximas.

De todas, sem exceção, conservo certos gestos,

E guardo aptidões e traços que são nossos.

Como elas me deleito desfrutando a vida

Em anônimas aventuras e casuais viagens,

Em concertos, escritos e leituras,

Coisas que na verdade não escolhi.

Embora não considere ruim nem virtuoso

Levar a existência com o riso na boca,

Sei que isso a ninguém jamais fez infeliz.

E se a paz alcança os meus tardiamente

Quando a dádiva do pranto lhes ajusta a vida,

Não me recordo de ouvi-los se queixar

De que a existência só lhes trouxe enganos.

De forma, às vezes clara, às vezes relutante,

Repetem-se em mim os gestos dessa gente

Preservados por sucessivas gerações,

Como num obstinado trabalho de formiga.

A propósito, já não seria hora de indagar

Sobre a constante repetição desses estigmas

De faces e gestos quase sempre iguais?

Na poeira dos séculos caminhando,

Aos dias atuais somos chegados,

Viajando no tempo e no espaço,

A tais propensões sempre ajustados.



Escrito por Nilson Patriota às 10h28
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Continuação...

Desprovidos de feudos e mandatos,

No planeta habitamos sem realce,

Porém sem rejeitar origem, mãe e pai.

E, conquanto isso indique fatalismo,

Destinação genética, ou teimoso milagre,

Alguma alternativa hei de encontrar

A fi m de prescindir dessa engrenagem

Que me obriga seja eu sempre o que sou

Num orbe de conseqüências tão mutáveis.

Por que persisto eu em factual desejo,

Que, por inútil, me consome e farta,

De outro querer ser sendo o que sou?

Por que insisto eu em não resignar-me,

À eterna atrelagem a essa estrutura

De tecido volátil e trama inextricável

Que a enigmas e símbolos se mistura?

Debruçado sobre vórtices e abismos

Onde antepassadas sombras se ocultam,

Vez por outra sonâmbulo me encontro

Perdido em labirintos de assombros

Onde seus pesadelos me espreitam

E acabam se misturando com meus sonhos.



Escrito por Nilson Patriota às 10h27
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DOIS OU TRÊS VAGA-LUMES PARA O

NOTURNO DE TOUROS

 

Paulo de Tarso Correia de Mel

 

Gosto da poesia que faça jus, de alguma forma,

à afi rmação de Fernando Pessoa: “Deve haver no mais

pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde

se note que existiu Homero”. Está nas Refl exões, de

Ricardo Reis, no item Considerações sobre o novo: A

novidade, em si mesma, nada signifi ca, se não houver

nela uma relação com o que a precedeu”. Tal ponto de

vista coincide com Eliot, que em algum momento de

sua extensa crítica poética fala de “um sentimento de

que toda literatura européia desde Homero e, nela incluída,

toda a literatura de seu próprio país, tem uma

existência simultânea”.

Estas perspectivas me são lembradas pelos poemas

de Noturno de Touros, de Nilson Patriota. A evocação

da tradição não apenas inclui literalmente Homero, mas

impressões do romantismo luso-brasileiro, ecos de leituras

de traduções do romantismo francês e inglês, além

do conhecimento do melhor do modernismo poético em

língua portuguesa.



Escrito por Nilson Patriota às 10h18
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Continuação...

Tudo isso se nota no verso quase sempre

largo e generoso, nos poemas longos que lembram

formas consagradas de fôlego, raras no presente.

Vive a poesia atual uma perigosa confusão entre

concisão e brevidade. Confunde-se facilmente o verso

curto e o poema breve com a economia exata da concisão

poética. Por isso é prazeroso encontrar esses poemas de

Nilson, ecoando traduções francesas de antologia.

Gosto de outros aspectos na poesia de Nilson, mormente

alguns que não consigo na poesia que eu mesmo

faço. Em primeiro lugar a já referida presença da ancestralidade

poética, que chega até à ancestralidade familiar

e pessoal, além da evocação de afetos, feita de forma comovedora

e com incontestável voltagem poética.

Acrescente-se ainda a discussão de sentimentos e

estados de espírito, contrariando algumas interdições poéticas

contemporâneas.

Ajunte-se a eleição e a pintura de um lócus poético

privilegiado. Este é Touros e seus arredores, espaço e tempo

de memórias que o poeta Nilson Patriota consagra e

pereniza.



Escrito por Nilson Patriota às 10h17
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NA FRESCA MANHÃ

 

Na fresca manhã de junho

Por uma trilha orvalhada

Entre ribeiras e montes

Que margeavam o oceano

Revelaste teus segredos

Contaste-me tua história

Belos arcanos e sonhos

Conservados na ternura

De um tempo bom que passou

Sem jamais ser olvidado.

O brando sol que batia

Em nossos rostos queimados

Realçava cores vivas

Às vezes dissimuladas

Na rósea cor da epiderme

Que os anos não desbotaram.

No orvalho de teu corpo

Nas águas de tua alma

Musgo e fl ores se abriam

Líquen e rosas trescalavam.

Maroto vento enlaçava

Nossos cabelos revoltos.



Escrito por Nilson Patriota às 09h06
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Continuação...

Pelo teu corpo trigueiro

Pelo teu rosto rosado,

Uma beleza de fruto

De músci de superfície

De seiva doce e suave

A manhã de sol revelava.

No regaço de teus seios

A luz intensa brilhava.

De tua cútis dourada

Naquela manhã de junho

Âmbar e almíscar se evolavam

Enquanto à margem da estrada

Canoros pássaros trinavam.

A paisagem de encostas

De vales e depressões

De manso se refl etia

No espelho de teus olhos

Que a luz intensa banhava.

Na fresca manhã de junho

Por entre nardos e cardos

Anelando fantasias

Sensível à tua ternura

Olhei-te e vi-te tão moça!

Onde os anos já passados

E o tempo que se foi?

Oh, coração! Oh, coragem!

Em qualquer fase da vida

O amor explode – nasce.



Escrito por Nilson Patriota às 09h06
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VIAGEM POETICA AO UNIVERSO

EXISTENCIAL E SENTIMENTAL

DE NILSON PATRIOTA

 

João Batista Pinheiro Cabral

 

O acadêmico Nilson Patriota nos brinda com mais

um livro. E desta vez inova no gênero, pois o volume

contém poemas que o acompanham por toda a sua vida.

Esses poemas já estavam prontos, faz muito tempo, no

corpo, na alma e no coração. Só faltava organiza-los, o

que agora é feito com brilhantismo e lirismo próprios de

um poeta estelar de primeira grandeza, desses corpos celestes

revelados pelo Hubble.

A matéria-prima é a vida, a saga familiar, os homens

e as circunstancias em que tudo isso acontece.

De modo comovente, com a intimidade de quem

fala de alma para alma, característica dos grandes poetas,

que carregam no peito os sentimentos do mundo aos

quais aludem – entre outros os GRANDES Augusto dos

Anjos, Bandeira, Drummond e Quintana –, Nilson Patriota

“abre os trabalhos”, como se diz em mesa de bar ao

se destampar a primeira garrafa, com um notável poema

intitulado O Plantador de Fantasias, seguido de Noturno

de Touros.



Escrito por Nilson Patriota às 09h02
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Continuação...

Todos os poemas de Nilson Patriota nesse seu Noturno

de Touros transmitem a idéia-tronca da transitoriedade

da vida. Efêmera por natureza, preenchida por

coisas, fatos, pessoas e situações que hoje são e amanhã

não serão mais, deixando que ela própria – a vida – passe

vertical, às vezes melancolicamente, como no poema de

Drummond.

O estagiário Nilson Patriota (a Humanidade) se posiciona

à beira do Mar de Touros, onde os suaves olhos da

querida mãe, ou a mirada realista do olhar paterno vê o Sol

desde o seu despertar até o ocaso, quando então se preparam,

de mãos entrelaçadas, para a inexorável chegada da

noite. As trevas vêm, no entanto, na primeira classe de um

transatlântico chamado Noturno de Touros, ao som dos

acordes de Chopin, ao piscar dos pirilampos, e também

acompanhadas pela fl auta mágica de Pan.

Nada escapa à sua dor pungente. Dor lembranças

líricas e musicais emergentes das evocações de Luís Patriota,

Porto Filho, José Aeroplano e outros modinheiros

da Touros de outrora. Em espírito e lembrança eles lhe

animam a noite, lhe amenizam as tristezas, lhe reanimam

as lembranças. E assim fazendo, afugentam as solidões

(musicalmente tangidas) pelas notas e acordes emanados

da arte desses e de outros personagens inapagáveis em sua

memória.



Escrito por Nilson Patriota às 09h00
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Continuação...

O Poeta faz menção aos seus grandes amores. Mulheres, que em nome do sentimento maior, tomaram

posse de suas capitanias e sesmarias cordiais, e que são

lembradas a partir da Estação Viola até à plataforma de

Pirangi, onde a fresca brisa de uma manhã de junho,

festejada pelo amor e pelos canoros pássaros, lhe aquece

mais uma vez o coração sempre em contato com as tradições

ainda cultivadas ao tempo das viagens nos trens da

Great Western.

O trabalho, agora dado a lume, é muito mais do que

um roteiro ou um memorial lírico-sentimental de Nilson

Patriota. Trata-se, também, de uma biografi a poética

contextualizada e privilegiando a família, o clã, que uma

vez deixou o chão nativo e, movido pelas engrenagens do

destino, em outras paragens procurou a realização de seus

desideratos.

E mais: com a mesma facúndia que lhe é peculiar,

com a mesma destreza com que se celebrizou como um

dos mais profícuos cronistas, contistas e romancistas do

Rio Grande do Norte de todos os tempos, Nilson Patriota

agora se consagra com o estilo e a temática poética que

lhe são peculiares. E não é por acaso que seu magnífi co livro

Noturno de Touros termina como começa. Isto é, em

Touros, última pagina do roteiro iniciado diante do mar,

fechando assim o circuito sentimental a que se propôs.



Escrito por Nilson Patriota às 08h59
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