EVOCAÇÃO DE UM RIO
Lembro os dias felizes de outrora.
As noites murmurosas e encantadas,
O tempo em que a Iara se banhava
(E do seu sortilégio há quem recorde)
Sob a velha ponte do rio que passava
Rente ao quintal da casa de meus pais.
Horas tardias, a vila adormecida,
Os seres encantados apareciam
Para o banho lustral no claro rio.
Entre fl ores e juncos se esmeravam
Num feliz ritual até de madrugada
Quando ao canto do galo partiam.
Alheia à contumácia dos amantes
Que na corrente do rio se adentravam
Para seus proibidos amores desfrutar,
A cândida Mãe-d’Água isenta de malícia,
Os túmidos seios por acaso mostrava
Entre as marolas, em noite enluarada.
O rio era um recreio e nele eu me soltava.
Fosse manhã de sol ou dia de invernada,
Em jangada ligeira o seu curso eu descia
Serpenteando em meio ao coqueiral.
Então, no sonho noturno eu me excitava,
Descendo o rio nos braços da Mãe-d’Água
Um dia precisei deixar o amado rio
Que tanto encantamento me ensejara.
Porém, para tê-lo comigo e ele a mim,
Pequeno marinheiro de águas rasas,
Do meu fugaz batel a âncora lancei
Na enseada da esperança e da saudade.