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A PALAVRA DE TARCISIO GURGEL

 

Tarcisio Gurgel

 

Em 1986 é lançado, em Natal, Um Gosto Amargo de

Fim. O seu autor, Nilson Patriota, importante jornalista

do Estado. Nascido em Touros e responsável por um festejado

ensaio sobre Itajubá. Ele escreve, tendo como cenário

um burgo de estranho nome, Preati, uma fantástica

história, onde ressaltam, entre outras, as fi guras de um

descendente da linhagem de fundadores, Justino Ambrósio

Pereira e um padre modelarmente pecador: o padre

Osório. A proposta da narrativa é ambiciosa: dar conta de

um tempo histórico de aproximadamente trezentos e cinqüenta

anos e um tempo psicológico que, evidentemente,

não se mede. Ultrapassando o limite da percepção convencional,

o Narrador do romance de Patriota nos leva

a presenciar situações insólitas, parentas bem próximas

das da vertente mágica do romance latino-americano da

década imediatamente anterior.



Escrito por Nilson Patriota às 12h44
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Continuação...

O protagonista Ambrósio

dialoga, já na abertura da história, com a sua própria

morte, com quem negocia um pequeno adiamento, para

ir-se defi nitivamente. E é, justamente, neste intervalo de

tempo, que uma seqüência demorada de episódios confundindo-

se em delírio, sonho, amarga realidade é apresentada

ao leitor, sendo a construção de uma estrada, para

ligar o burgo atrasado à civilização (sonho de Ambrósio

e de um proprietário de um teodolito que acaba errando

a direção da mesma), o principal deles. A história em

si comprova, inequivocamente, qualidades do seu autor

como fi ccionista. Mas, embora soe isto paradoxal, a sua

exuberância narrativa (o uso, por vezes exagerado, dos adjetivos,

as imagens hiperbólicas) e o desfecho da mesma,

com a personagem principal ensandecida e apequenandose,

em busca de uma homenagem que não virá, acabam

por reduzir-lhe o impacto.



Escrito por Nilson Patriota às 12h44
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INCESSANTE BUSCA

 

Talvez não seja mais que uma metáfora

Aquilo em que sinceramente penso acreditar:

Na retaguarda de todas as ilusões,

Um ser superior há de se encontrar.

Deus! Como será? Onde, quando e como Ele nasceu,

Se na base da criação Ele já está?

Embora nem de longe a ciência

Ou a religião possa explicá-lo,

Eu o idealizo em Sua Onipotência,

Em Sua Onisciência,

Em Sua Presciência,

Dando origem e linguagem

Condição e formato a coisas e deidades.

Vejo-O forjando múltiplas e severas forças,

Outras já moderadas,

Mas estéreis jamais!

Vejo-O construindo

Inacessíveis e caóticos mundos estelares

A girar como átomos no centro da fornalha

Ou a se desfazerem em ritmo candente.

Deus – fi lho do tempo e autor de Si mesmo –

Que antes do começo já freqüentava o nada

Pois precede a fusão das espirais gasosas

Com que talvez se haja iniciado a criação.

Artífi ce da Consciência Cósmica

Deu vida ao Universo



Escrito por Nilson Patriota às 12h40
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Continuação...

Com lavas e metais em movimento

Enquanto modelava o Micro e o Macro.

Fez o espaço-tempo com seus astros

De surpreendente gigantismo

Apropriado às formas siderais.

De que se vale Deus, em que se inspira,

Para equilibrar o fantástico Universo

Viveiro natural do milagre da vida?

Vale-Se Deus de primordiais e provectos arquétipos

Que deram seu modelo às gestações primevas?

Em que âmbula do tempo Se oculta

O Ser que amedronta e inspira esperança

E de cuja linhagem supomos proceder?

No caos universal Ele existe?

Quem sabe, numa estrela anã que não contém seu peso,

E se faz antimatéria num buraco negro.

Como chegar, porém, a qualquer conclusão?

Melhor é procurá-Lo dentro de nós mesmos,

Pois em nosso íntimo Ele decerto habita

Fazendo e desfazendo a Sua Criação.



Escrito por Nilson Patriota às 12h40
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DUAS VIAGENS

 

Sanderson Negreiros

 

(1ª)

A caminho de Touros, Nilson Patriota e eu cavalgávamos

um carro por areias desérticas, em estrada de

tabuleiro. Mas é uma viagem que começa na madrugada

natalense. A cidade grande só faz arquejar de tão cansada

– um sono coletivo onde se ouve até o sonho de alguns

penitentes de boa vontade. Quase quatro horas da manhã,

a estrela-d’alva, que se anuncia tão bela, a leste, desapareceu,

senão encoberta por essas nuvens que calçam

as manhãs natalenses de um frio de chã de serra.

Mas, antes de Touros, nossa navegação terrestre

descobre o Vale do Ceará Mirim, ante o impacto das

primeiras luzes nascituras, cor de laranja; e outras cores

indefi níveis no céu aberto. Atravesso a Rua Grande da infância

e revejo de uma esquina, com seu perfi l de vetusta

melancolia, a casa onde nasci e me criei. Longitudes da

lembrança. Latitudes de devoção comovida.



Escrito por Nilson Patriota às 10h47
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Continuação...

Avançamos na estrada humilde do vale. Lá longe,

o casarão do Guaporé, nimbado ainda de luzes, insistentes

e quebradiças, misturando-se ao clarão da aurora, que

lhe veste as sombras da beleza indisfarçável. O verde do

vale também amanhece, liberta seu grão vertente de clorofi

la – e nos arcos voltaicos do céu passeia a presença de

Deus. Som de fácil constatação nas coisas e elementos

que acordam, devagar e lucidamente.

Trabalhadores do eito, com a enxada honesta e

centenária, se encaminham absortos, nos projetos breves

de sua luta difícil. Ainda se vê, das casas pobres, a fumaça

da cozinha, fumegando piedosamente, e rendendo a

notícia de que, ali, se bebe café forte e se acorda sob a

claridade da alegria de uma noite bem dormida.



Escrito por Nilson Patriota às 10h47
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Continuação...

E aquelas dunas setentrionais que se entremostram

no fi m da paisagem, com sua alvadia brancura

de exceção? São da praia de Caraúbas, confi rma Nilson.

Andamos tanto em busca de Touros que dava a

impressão de que chegaremos aos limites com o desconhecido.

Tantos coqueiros, agrupados sob a benção

do azul da manhã fi rme, confi rmam que estamos perto

da cidade, onde já fui o emérito marido da Juíza de

Direito. Nilson aponta suas terras, que terminam no

mar. Meio sonolento, só pude me lembrar do verso de

Ledo Ivo: “Como na paisagem havia azul em excesso,

plantaram canaviais até o mar”. Com a única diferença

de, em vez de canaviais, Nilson plantou coqueiros, que

quase batem continência quando se vêem diante de seu

amo e senhor. Pelo menos, farfalham, que todo bom

coqueiro farfalha em momentos especiais, principalmente

sob os ventos de agosto.



Escrito por Nilson Patriota às 10h46
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Continuação...

(2ª)

Toda grande amizade é uma viagem com voltas

naturais, desencontros inesperados, felizes retornos, obedecendo

a ciclos, a etapas vertiginosas, a silêncios tumultuários,

e reencontros exemplares. Por isso, Tristão de

Athayde, o sábio Tristão, escreveu belo livro com o título

de “Companheiros de Viagem”. Entre os que fi caram em

minha retina, que já foi mais vigilante, guardo bem viva,

a memória dos amigos que decidiram nosso destino, em

algum instante preciso e único; e mesmo que o lume dos

olhos já enxergue mortiço, cresce diante de mim a fi gura

de Nilson Patriota. Isso demanda ao começo dos anos 50,

mais ou menos. Para ser preciso, a março de 1953.

Havia eu renunciado ao Seminário, com 13 anos

de idade, entregue ao mundo civil, de maneira ininterrupta

de espanto. Meu Pai me levara à alfaiataria de Luís

Pinto, vizinha ao cinema Rex. Lá se formava um centro

de debate contínuo de convergência que a ideologia

de esquerda fazia continuadamente vibrante. Luís Pinto,

baixo, moreno e arguto, cortava com maestria a roupa e a

vida do próximo, sem parar de falar como se estivesse em

comicial destinação histórica ao pregar o fi m do capitalismo.

Inesquecível Luís, que já se foi deixando endereço

certo em minha memória emocional. Foi aí, nesse ambiente

cívico e lírico, que conheci Nilson Patriota.



Escrito por Nilson Patriota às 10h46
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Continuação...

Como diria Machadinho: foi amizade à primeira

vista. Isso tudo há 53 anos. Nilson convidou-me, então,

para visitar sua casa, em Petrópolis, bairro dos bem-te-vis,

em frente à antiga sede do ABC. Todos os dias, adolescente

em busca do acaso, caminhava para aquele casarão

que a mão do tempo fez desabar.

Exatamente ao meio-dia, eu lá chegava. Recordo

bem: ia abrindo o portão, pesado portão de madeira,

quando dois jovens, de terno branco impecável, e imensa

bolsa de viajante, saiam para o trabalho: eram os irmãos

Chico e João Patriota. Ainda lembro o pai de todos eles,

Nelson, já velho, sempre vestido de prestante pijama. Encontrava

Nilson batendo sempre duro, em velha máquina

de escrever, como se estivesse deblaterando na batalha das

palavras. Nilson, ensaísta, era o “enfant terrible”, sucessor

de Antonio Pinto de Medeiros, na arte de enfrentar os

moinhos de vento da província, recatada, com estocadas

de valentia. Naquele casarão, outro grane encontro foi com

seu irmão José. José Patriota. Altíssimo poeta que morreu

inédito carregando consigo a vocação de ser bom,

bondade compartilhada com a palavra fl uindo dos gestos

que as mãos transbordavam de poesia. José levava todos

nós, seus companheiros, para a Praça Pio X – e lá recitava

os seus e os versos alheios, com a pertinência de um

tribuno infatigável. Naquela casa de arcadas e mangueiras

compactas, conheci e convivi com Woden Madruga,

que usava, então, um chapéu tirolês; e mais Dorian Gray,



Escrito por Nilson Patriota às 10h45
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Continuação... Ferdinando Couto, Nagib Aziz, Gilberto Avelino, umpoeta andarilho chamado Carlos Gomes – e quem mais?

– onde estão todos eles? José Patriota foi morrer ainda

jovem, dirigindo um caro nas curvas da estrada de Santos.

Tudo isso é um mundo que hoje me retorna mágico,

não me é dado mais sequer a possibilidade de repeti-lo,

mas fi cou escondido em algum desvão da persistência da

lembrança. Chega-me ele, esse tempo iniludível, cheio de

relâmpagos, na direção do esquecimento imerecido.

Nilson, de “enfant terrible” a essa amena personalidade

de hoje, depois de ter passado por várias experiências

probatórias – político, grande restaurador do jornal

“A República”, romancista, comerciante, dono de coqueirais,

artífi ce da amizade – no curso dessa prolongada biografi

a, de repente, desaparecia para outros misteres. Mas,

agora, apresenta-se por inteiro, aos 75 anos, carregado

ainda de sonhos, pacifi cado e penitenciado, companheiro

de minha fraterna Maria Emília. Nilson se apresenta com

seu novo livro, “Noturno de Touros”, governador planetário

da praia, evocativo de personagens, com versos que

conduzem verdadeiros achados poéticos, metáforas que

seu destino de pastor de ovelhas trabalha nos campos da

evocação – e colhe, por isso, o pão ázimo da poesia. Inspetor

da insônia soube redesenhar as cores de certa aurora

que ele viu naufragar no mar de Touros. E, até hoje, quer

salvar essas cores. Trabalho improvável, mas comovente.



Escrito por Nilson Patriota às 10h44
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