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SÚMULA DE PRECIOSAS

LEMBRANÇAS

 

jornalista Nelson Patriota

 

O chamado da poesia pode acontecer a partir da

tenra puberdade, mas às vezes seus melhores frutos coincidem

com a idade da madurez. Este Noturno de Touros

que Nilson Patriota agora publica já se avizinha das margens

poéticas das nossas letras com a aura de livro pródigo

– tanta poesia em claves tão diversas; e prodigioso, em

sua inventividade, embora corteje uma tradição que está

muita próxima do cânone romântico. Outra vez, a unanimidade

fracassa, porque ao fazer opção pelo verso livre

fl erta acintosamente com os modernistas. Mas só nesse

aspecto.

Versado nos segredos das formas líricas, de que dá

prova sua vasta produção de crônicas, ensaios, discursos

etc., Nilson Patriota deve ter recebido o chamado da poesia

em tenra idade. Por rebeldia (ou atraído por outros

apelos) pouco e mal serviu, porém, àquela que o elegera

tão cedo. A relutância, todavia, chegou ao fi m. E se a

poesia hoje regozija com esse fl orilégio jovialmente tardio

(consideremos esta possibilidade), é porque agora o cronista,

que já palmilhou os gêneros do romance e da pesquisa

histórica, pôs de lado as reservas que o demoviam

do fazer poético. Não perguntemos por que só agora o

fez. Antes, cuidemos do que importa. Leia-se Noturno de

Touros. A poesia o quer, e quando isso acontece é porque

o tempo convergiu em seu favor.



Escrito por Nilson Patriota às 10h35
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Continuação...

Súmula de lembranças de vida do poeta, esse livro

mostra o quanto algumas vivências são de tal modo preciosas

que é impossível continuar a viver sem que lhes

demos forma e ritmo. Estas, aliás, são qualidades que se

encontram a cada verso desse Giro sentimental. A elegia

que Nilson escreveu ao amigo José Melquíades de Macedo

e aquela que dedicou a sua mãe são de um valor poético

inestimável. Mas que qualifi cativos encontrar para

traduzir a emoção suscitada por poemas como “Noturno

de Touros”, “Estação Viola”, “Na fresca manhã”? Outros

leitores certamente se deixarão fi car meditando longamente

após a leitura de “Incessante busca”, e certamente

vão querer relê-lo mais de uma vez, porque esse poema

pertence àquela categoria de poesia que amadurece com

o tempo, abrindo veredas existenciais que às vezes só se

alcançam com longas sessões de análise. A essa mesma categoria

pertencem os poemas “Do factício e do real”, “As

Parcas” e “As irmãs”. São poemas questionadores mas de

uma dicção tão singular que só a maturidade de vida e de

poesia, num encontro feliz, torna possível. Infelizmente,

porém, tal encontro é impossível de se antecipar ou de

sequer prever.



Escrito por Nilson Patriota às 10h35
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Continuação...

Nesse Noturno de Touros de Nilson Patriota o

pano-de-fundo é a sua Touros natal, que às vezes ganhas

cores surreais, saídas diretamente da mente da criança ele

foi – e que há muito jaz no fundo do seu inconsciente

–, e que só o sortilégio da poesia pode restituir ao plano

consciente. Por isso nenhum homem pode ser censurado

por dar cores vívidas às suas lembranças. E que outro envergonhar-

se-ia de fazê-lo?

Na Touros suntuária da sua poesia, o maravilhoso

está a um passo: no dobrar de uma esquina, na curva de

um rio, no encontro da noite com o mar, no arrulho matutino

de uma ave, no coaxar de uma rã... Em cada átimo

de tempo. A isto, soma-se a presença dos pais, dos irmãos,

dos amigos, veredas por onde a infância espalhou marcas

que hoje o poeta recolhe como prodigalidades inestimáveis.

É do encontro de todos esses elementos que brota a

magia desse giro sentimental. A generosidade da poesia

nos convida a partilhar essa experiência. Então é certo

que recolheremos muitas pérolas pelo seu caminho.



Escrito por Nilson Patriota às 10h34
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O PLANTADOR DE FANTASIAS

 

Com a sutileza de um afago,

Tio Zeca foi chegando,

Falando calmamente

Como poderia fazê-lo um plantador de fantasias.

Derramou sobre mim o azul de suas pupilas

E calmamente disse:

A ilusão é própria do homem

E a solidariedade o envaidece,.

Por isso desejo ser feliz vivendo entre os meus.

No dia seguinte, sutilmente partiu para o mundo

E jamais regressou.

A voz do velho sonhador

Encheu, como um sopro suave,

As cavidades e fendas de meus ouvidos,

Transportando-me para um tempo distante

Em que tia Doninha veio visitar-nos

E me encontrou enfermo de caxumba.

Eu era rapazote,

E ela, com a autoridade de tia,



Escrito por Nilson Patriota às 10h28
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Continuação...

Indagou sobre o motivo pelo qual

Eu havia deixado de lado a poesia,

Uma tradição do clã Patriota,

Um fator de prestígio familiar e pessoal

Em tempos que se foram.

Então, surpreso, respondi:

Tia, eu jamais me interessei por poesia!

E ela retrucou:

Pois se não se interessou, trate de fazê-lo.

Não vê que a poesia é a própria vida?

Não desejo escrever poesia – retruquei.

Ah, caro sobrinho, você não me engana; ah, isso não!

Por que, tia Doninha? – perguntei.

Você é dos nossos! –

Sem se dar por vencida, ela respondeu.

Então eu a beijei levemente na face bela e tísica,

Sem saber que em breve

Ela nos deixaria para sempre.



Escrito por Nilson Patriota às 10h28
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Continuação...

Lembro daquele instante,

Das lágrimas transluzindo no azul de seus olhos

Que ainda conservavam viço e cor.

Então me comovi e disse

Que um dia haveria de fazer sua vontade.

É o que faço agora, tanto tempo depois,

Decidido, como um jovem sonhador,

A plantar fantasias à margem desses áridos caminhos

Onde recolho queridas lembranças

Daqueles que amei,

Que foram especiais em minha vida,

Mais por seus defeitos

Do que por suas virtudes

Geralmente ridículas, triviais,

Que sempre passam do modo que passaram

Os olhos intuitivos da tia Doninha

E as pupilas azuis do tio Zeca.

Tio Zeca, sósia do mano Chico,

Na geração pregressa,

Do mano Chico de saudosa memória,

Tão amado,

Tão querido de todos,

Por que não foi perfeito.

Oh, meu Deus,

Eu vos agradeço!

Não foi perfeito, não,

Não foi perfeito.



Escrito por Nilson Patriota às 10h26
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GREAT WESTERN

 

Na bucólica manhã

Empreendo a viagem.

Brincava, sem saber, com algo bem próximo

E tão misterioso como o tempo a chegar.

No rosto em que a ansiedade e a vigília

Já deixavam entrever a face de um futuro

- que depois conheci e não esqueço –

Amoroso sorriso se revela

Em forma de enlevo

Que opera mudança em minha alma.

No silêncio madrugador a maria-fumaça

Torna-se estrepitosa.

Toda ela estremece

Atritando nos trilhos suas rodas.

Expede para o ar um longo apito

E expele fumaça e solavancos.

Seu grito metálico rasga o espaço,

Advertindo os passageiros

Sobre a iminente partida.



Escrito por Nilson Patriota às 10h26
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Continuação...

Prepotente, a máquina rasga

E fere a epiderme da manhã

E escama a paz do alvorecer.

O maquinista tem pressa

E novamente aciona o apito

Despertando a Ribeira,

A Praça Augusto Severo,

O Colégio Salesiano,

A Escola Doméstica,

Os mendigos que dormem

Nos batentes dos portões do Teatro.

A máquina continua apitando,

Acordando a Rua Juvino Barreto



Escrito por Nilson Patriota às 10h25
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Continuação...

E a Avenida Junqueira Aires,

Onde Câmara Cascudo escreveu por toda a noite

E não percebe o dia chegando.

Onde se acham os que vão viajar

Para a capital da Paraíba,

A cidade do Recife,

A capital de Alagoas?

Corram que a composição vai partir!

Desse ponto em diante não pode haver indolência

Nos homens nem nos ruminantes que deixam os currais.

Não pode continuar sonolenta

A gente que mora à beira da estrada.

A locomotiva está zoando e vai pastejar

Percorrendo estrada,

Resfolegando como animal de ferro,

Como fera de aço que se nutre de fogo e de lenha,

Que solta um quente bafo de fumaça,

E range chacoalhando sobre os trilhos

Esfriados pelo ar da manhã.

Apitando, apitando,

A máquina avança.

Acomodados em bancos de palhinha

Os viajantes remexem em suas malas.

Examinam e reexaminam suas bagagens.



Escrito por Nilson Patriota às 10h25
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Continuação...

A fera crocita e corre na estrada, E brilha ao sol nascente

Com a aparência de ser novinha em folha.

Porém, vez por outra tempera a goela famélica,

Com uma vontade danada de morder.

Nas curvas e subidas dá grandes cachimbadas

Dispersando vapor e fagulhas.

Na decadente paisagem imutável

Vai deixando para trás os subúrbios

Com meninos acenando das janelas.

No interior dos vagões as pessoas comentam

O preço do açúcar, do milho e do feijão.

Despeitadas reclamam da alta do trigo

E da carestia da vida.

Os postes do telégrafo se espevitam

E correm como loucos em nossa direção.

Por entre o arvoredo lavado de orvalho

O sol vai se tornando incandescente.

Porém a máquina nem liga para o sol,

E sapeca carreira puxando os vagões

E coleando como uma cobra na areia quente.



Escrito por Nilson Patriota às 10h23
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