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VELHA RIBEIRA

 

Velha Ribeira boêmia como estás desfi gurada!

Guardas ao menos, Ribeira, saudades do teu passado?

Foste elegante e formosa, e indiferente olhavas,

Do alto de teus sobrados, até onde a vista alcançava,

A embrionária cidade que aos poucos se estirava

Sobre planícies e dunas, elevações e charnecas,

Sem que ninguém a obstasse ou a mandasse estacar.

Quando passo em tuas ruas, ao fi nal do expediente,

Sombria a tarde declina sobre desertas calçadas

Tornando ermos os pontos que os sonhos ainda

guardam

Dos que seus ossos deixaram sob o piso da igreja,

Ou dos que se dissolveram em sete palmos de terra

Em macabros cemitérios a que foram destinados,

Já soterrados, porém, sob bairros, ruas e casas.

Então à memória me vêm janotas, almofadinhas.

Endinheirados que eram em seus Fords desfi lavam,

E seus Pakards dirigindo, buzinando se mostravam.

Já na calada da noite, perambulando sozinho,

Agarro-me às lembranças das insones madrugadas

Aos amores alucinógenos e às alcoólicas fantasias

Vividas por dóceis mulheres e homens sentimentais.

Presenteados eram eles no auge de seus amores

Com trancelins de ouro e com broches de gravata.

A elas eram ofertados anéis de água-marinha,

Cremes, loções e extratos Lancaster e Royal Briard;

Outras marcas registradas, algumas até importadas,

Conforme seus interesses e suas disponibilidades,



Escrito por Nilson Patriota às 08h13
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Continuação...

Dependendo da paixão e do momento aprazado.

Houve tempo mais antigo, do qual fi cou a história,

Quando dândis subnutridos e moças à melindrosa

Desfi lavam na Tavares como se andassem em Paris,

E nos Champs Elysees daqui lançavam modas, ditados.

Em tuas ruas estreitas, trepidantes, animadas,

A Natal dos anos 40 tinha um encontro marcado.

E enfi m nem chique nem mique para o povo

conformado.

Ah, se não fosse o tempo, que nunca respeita nada,

Talvez tivesses fugido desse destino tão agro

De cansares a beleza antigamente louvada.

Talvez houvesses evitado os males que te consomem:

A maldição da velhice, a ingratidão do descaso,

O deplorável desprezo pelo brilho que tiveste

Como dama solidária nas festas de carnaval.

E quando a tarde declina sobre as desertas calçadas,

Eu deploro o teu presente de amante rejeitada

Que tanta riqueza teve e hoje não tem mais nada

Além do rosto encovado cobrindo faces rosadas.

Hoje me vejo rondando teus labirintos de sonhos

Onde a paixão se comprava com poesia ou pataca,

Por que sendo livre o amor e ao prazer se entregava.

Em requintados salões de senhoreais sobrados

Encantadoras mulheres suas bocas ofertavam,

Expondo os túmidos seios ao deleite se entregavam.

E então entre carícias, à meia-luz sussurravam,



Escrito por Nilson Patriota às 08h13
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Continuação...

Ternura e paixão fi ngindo na hora em que se doavam.

Ribeira velha de guerra, por que fi caste tão gasta?

Por que prolongas assim o teu impérvio caminho?

Sabemos que o teu amor provinha do coração,

Embora ao despertar com ele já não contássemos,

Pois conforme o hábito vigente tratava de evolar-se...

Velha Ribeira boêmia, agora já não és nada

Além de ruas desertas, calçadas desarrumadas,

Ruas feitas de silêncio, becos cheios de saudade.

Se não te ergues defi nhas, teu simbolismo se apaga.

Teus modos de cortesã, de dama sutil e devassa,

Resistiram a várias guerras feitas em terra, ar e mar.

Deste acolhida aos pracinhas da América luterana,

Que perderam sua inocência antes da morte encontrar

Na Alemanha nazista, na Itália de Mussolini,

Na Rússia dos bolcheviques, sem que jamais olvidassem

O teu doce encantamento, tua magia, tua alma.

Velha Ribeira boêmia, onde estão tuas mulheres?

Onde andam Francisquinha, Madame Chose, Odete,

Zara Pia, Maricele, Severina, China e Míria,

Ademilde, Maristela, Paulistinha e Onça Pintada,

Maria Rosa e Adelaide, Constância e Felicidade?

Já não as vejo na luz dos refratários ocasos

Que te escondem Ribeira, no sudário da saudade.



Escrito por Nilson Patriota às 08h12
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EPITÁFIO

 

Uma impressão persiste no travo de uma queixa

Por seu espírito vaga o júbilo e o martírio.

Por que nele reluta essa ilusão?...

Porque sente que é (mas já não sendo)

Aquele que julgava em suas mãos conter

As rédeas do vigoroso e árdego corcel

Da desfrutável, mas duvidosa existência

Que somente ao destino cabe orientar.

Tecido em luz (como cabe ao poeta),

Por que então o atinge a nostalgia

E os alvissareiros gozos não o embalam?

Amadas sombras adejam à sua volta,

Porém vagos presságios o advertem

Acerca do perfume das rosas sobre as mesas,

Que nos jarros recendem como em jazigos.

Embora assim seja, a presença de amigos

Tende a mistifi car a tarde que se esgarça.

Há em seu pensamento a presunção

De um mistério. Não por acaso, porém,

A impressão insuspeita se dissipa.

Alguém, com displicente esmero declama.

Afaga com desvelo um amorável verso.

Não há como entender a presumível mágoa,

Ainda impenetrável à humana razão,

Que parece pairar sobre o ambiente.

Alexandrinos brotam dos lábios dos poetas

Que permeiam a poesia ao diálogo

Indiferentes debatem-se o hoje e o amanhã.



Escrito por Nilson Patriota às 08h10
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Continuação...

Embora o dia já decline na tarde mormacenta,

Num poste fronteiriço um pássaro gorjeia

Gozando alegremente da brisa que o embala.

Todavia, ao cantar sua plumagem se desfaz

Em pétalas de mil cores levadas pelo vento.

Nas toalhas manchadas pelo vinho

Poemas e relembranças dão-se as mãos

Ao transcorrer daquele dia de bares vazios,

Em que a morna tarde se transforma em ocaso.

Os poetas declamam hemistíquios,

Para comemorar um dia de boêmia,

Feito de casuais e de alegres horas

Submetidas, contudo, ao gravame do tempo.

Nas taças de cristal borbulha fresco vinho

Com que já se retarda a dor a ser chorada.

“À saúde! À saúde!” – jubilam-se os convivas.

Na mente criadora o Poeta cria um hexâmetro

No qual fala do amor, da solidão, da morte,

Alheio ao imprevisto ou desatento ao fato

De que vaza no bronze um adônico verso,

Uma clássica legenda – UM EPITÁFIO.



Escrito por Nilson Patriota às 08h09
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