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CANTO DE ADEUS

 

Inútil prantear Ofélia – a desditosa

Sem préstimo honrar o perdedor.

Os aplausos pertencem aos vencedores,

E não aos mutilados, ou insepultos mortos

Que a justas causas foram imolados.

Debalde lamentar o amor que se acabou,

A vida que poderia ter sido e que não foi,

E que malbaratada consumiu-se em vão.

Pois tudo passa, tudo se transforma,

E até o que agora choro já passou.

Conquanto seja perene esta lembrança

Que me remete aos memoráveis dias

De áureas paixões e poéticos fulgores,

Jamais trará de volta os que partiram

Ao tempo em que o seu futuro semeavam.

Houve, no entanto, um crucial momento

Em que uns poucos moços acreditaram

Que fossem os verdadeiros catecúmenos

Da áurea Poesia; modelos inovados

Do excelso poema e do perfeito verso.

Intransponível, suponho, seja essa muralha,

E esse fosso de dor que hoje nos separa.

Embora agora só resta refl etir, lembrar,

Sobre a dúbia razão que os levou

Tão brevemente, talvez antes da hora.

Na transitoriedade dos dias eu os vejo

A se rejubilarem com instigantes versos

Elaborados com esmero, romantismo e graça.

Estrofes que feriam a epiderme da cidade,

E que apregoavam a urgente imersão de velhos hábitos.



Escrito por Nilson Patriota às 09h21
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Continuação...

Confi antes, todos eles viveram seus papéis

Logo que desabrocharam para a poesia

E as veias desataram ao lírico verso

E com lirismo fertilizaram o solo árido

Cultivado até então só por mercantes.

Quem eram e o que pensavam esses poetas

Cujos nomes pertencem ao esquecimento ?

José Patriota, Carlos Gomes, Doscagíbio,

Ferdinando Couto ? Que importa, agora ?

Muitos outros a obra inédita deixaram.

Ah, tempo que passais levando esses tesouros

Que agora descem o pitagórico rio de Heráclito,

No suave fl uir de sua vívida corrente,

Por onde seguem sonhando os sonhadores

E descem sem perceber os obscuros Vates.

Hoje à minha memória eles voltaram

Acompanhados de suas namoradas

(Embevecidas à margem de seus sonhos).

Assim quero guardá-los na lembrança,

Joviais como foram em sua intensa graça.

Pródigos na amizade, no ardor da palavra,

Em suas espirituosas e irônicas criações

(Que nem supunham fossem de altos vôos).

Porque eram jovens e sequer sabiam

Que da existência só se colhe o sonho.



Escrito por Nilson Patriota às 09h21
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