CANTO DE ADEUS
Inútil prantear Ofélia – a desditosa
Sem préstimo honrar o perdedor.
Os aplausos pertencem aos vencedores,
E não aos mutilados, ou insepultos mortos
Que a justas causas foram imolados.
Debalde lamentar o amor que se acabou,
A vida que poderia ter sido e que não foi,
E que malbaratada consumiu-se em vão.
Pois tudo passa, tudo se transforma,
E até o que agora choro já passou.
Conquanto seja perene esta lembrança
Que me remete aos memoráveis dias
De áureas paixões e poéticos fulgores,
Jamais trará de volta os que partiram
Ao tempo em que o seu futuro semeavam.
Houve, no entanto, um crucial momento
Em que uns poucos moços acreditaram
Que fossem os verdadeiros catecúmenos
Da áurea Poesia; modelos inovados
Do excelso poema e do perfeito verso.
Intransponível, suponho, seja essa muralha,
E esse fosso de dor que hoje nos separa.
Embora agora só resta refl etir, lembrar,
Sobre a dúbia razão que os levou
Tão brevemente, talvez antes da hora.
Na transitoriedade dos dias eu os vejo
A se rejubilarem com instigantes versos
Elaborados com esmero, romantismo e graça.
Estrofes que feriam a epiderme da cidade,
E que apregoavam a urgente imersão de velhos hábitos.
Escrito por Nilson Patriota às 09h21
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