NOTURNO DE TOUROS
Ouves?
Há sussurros na noite.
As estrelas são poucas
E longínquas no céu.
Pirilampos tremeluzem
Pontos de luz na escuridão.
Ouve:
Há vozes vindo no vento,
Ágeis dedos vibram cordas
De intangíveis instrumentos
Que semelham violões.
Presta atenção, te encareço!
Escuta:
Um cantor ensaia um verso
De uma dorida canção.
Dessas que são inspiradas
Em paixões desesperadas,
Em tela artística bordadas
Na cor sanguínea do trágico
Com fi nos fi os de linho
E retroses de algodão.
Escrito por Nilson Patriota às 09h59
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Continuação...
Furtivas sombras se movem
Ao trocarem confi dências
(Quase nunca reveladas)
De amores incendiários,
Impetuosos, arrojados,
Primários, inquestionáveis,
Com beijos alimentados
Com sexo sacramentados
E em tragédia terminados
Dentro de noites voltaicas.
Na calçada da igreja
Os boêmios tomam assento
Nas três fi las de batentes
E tocam seus instrumentos.
Silenciosa platéia
De rostos e vestes lunares
Derrama-se numerosa
E com mesuras aplaude
A fi na especiosidade
Escrito por Nilson Patriota às 09h58
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Continuação...
A caixa de ressonância
Dos plangentes violões
Enchendo de melodia
O belo palco encantado
Na Meca da poesia.
Sob a dolência do canto
A cidade se aquieta.
Na rua adormecida
O casario se estende
Na direção do Levante.
Em meus ouvidos ecoam
Choros e ânsias contidas.
E, por detrás dos postigos,
Dóceis donzelas suspiram,
Comedidas, submissas,
Na solidão da saudade.
Mas nem todas se conformam.
Umas choram e se maldizem,
Outras desfeitas em lágrimas,
Recordam com emoção
A voz que as embalava
Quando trêmulas escutavam
Do seresteiro a canção.
Ouves?
O som que agora escutas
É música de antigamente.
Escrito por Nilson Patriota às 09h57
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Continuação...
É luz que desce dos astros
E chega na voz seresteira
Daquele que a dedicou
À Branca, mulher amada,
E quimérico devaneio
Do bardo apaixonado
Que ao nome acrescentou
O apelido Itajubá.
O seu verso mavioso
Vibra no tempo, inda agora,
Sonoro como o cantar
De melódico passaredo,
Porque não foi esquecido
Nem esquecido será:
Vi-te. Era noite. A lua descorada
Brilhava nas paragens luminosas...
No silêncio noturno a voz se infl ama
A canção preenchendo todo o espaço
E pairando harmoniosa sobre o rio
Para o insalubre clima amenizar
E trazer de volta o encanto da Rua do Capim.
Pálidos vultos se incorporam
À poética saga que a noite embala
Enquanto os velhos boêmios se abraçam
E sussurram entre si parnasianos versos.
Escrito por Nilson Patriota às 09h56
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Continuação...
Nelson e Luís Patriota se ajustam à medida
Dos tons que ritmam a serenata
Que suavizam o ar e maravilham a cidade.
Porto Filho, Chico Brito,
Pereira e José de Paula
Solfejam velhas modinhas.
Já o Zé Aeroplano espera por Miguelzinho.
E Nequinho de Regina faz dupla com Zé Antão.
Na outra ala, porém,
O Eduardo Medeiros combina com Caracrua.
Consagrados e aplaudidos,
Afi nam seus instrumentos.
Depois, com a batuta na mão,
Provocam enlevamento
E muita admiração
Em todos cujo desejo
É o de tocar como mestres
Cavaquinho, violino e violão.
Júlio Maria impõe ao sax
A melodia esperada.
Escrito por Nilson Patriota às 09h55
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Continuação...
Enquanto Arlinda garganteia
Como gorjeia o golinha,
Os instrumentos permeiam
Com acordes sentimentais
Os corações engajados
Que revivem antigas noites
De tempos que não vêm mais.
E enquanto a cidade dorme
A seresta se promove
Na semi-obscuridade.
As vozes, que se sucedem,
Enchem a rua de lirismo
E se espalham no espaço
E de volta trazem o passado.
Entretanto o tempo se esvai,
E na sala de jantar
Da casa de Seu Avelino
O carrilhão bate as horas,
Dando o sinal combinado
Para a seresta acabar.
Umas sombras então se agitam
E outras lentas se movem.
Umas se vão esgarçando
E outras vão se sumindo.
Escrito por Nilson Patriota às 09h55
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Continuação...
A rua então se transforma
Num limbo meio azulado
E por algum tempo hesita
Entre o sono e a vigília
Sem querer se defi nir
Entre dormir e acordar.
E a seresta se despede
Prometendo regressar
Em futuro plenilúnio,
Para que, mais uma vez,
Ao povo possa alegrar.
Antes que a cena transmude,
Um fato alegre acontece:
De Neide Penha a voz
De novo se faz escutar.
Interpreta Porto Filho,
Depois do que se despede
Porém promete voltar.
Escrito por Nilson Patriota às 09h54
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Continuação...
- Vês?
Agora a lua sai
E a serenata volta ao espaço.
- Estou observando e só agora compreendo
Que estive dormitando, a sonhar...
Houve mesmo serenata?
- Houve, sim.
A serenata em Touros
Jamais se acabará.
Pois basta que alguém almeje
Para fazê-la voltar.
Ah, bendito alvorecer de minha vida!
Ah, serenatas de minha meninice!
Quanto encantamento!
Quanta graça!
Escrito por Nilson Patriota às 09h53
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