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DO FACTÍCIO E DO REAL

 

Existe realmente, ou só na imaginação,

A esbelta mulher que a esquina dobrou?

Ela me cumprimenta, porém a desconheço,

E, no entanto penso que ao menos uma vez,

Por sorte ou por azar – quem sabe –

Não foi minha?

Nesta vida mudável apto julgo que estou,

Porém, quem me contesta, nisso descrê,

E convicto afi rma – os dentes a rilhar –

Que a retórica do que fui é o que sou.

Na trama factícia prevalece a quimera,

Que supera o real na miragem do sonho.

Certamente por isso (pode ser ou não ser)

O tosco panorama que vi na antiga Roma

Idêntico pareceu-me àquele em que vivi,

E por mais que remoto, jamais o esqueci,

Por que dele a clara imagem conservei

Durante os longos giros que perfi z

Por adustas paragens e áridos caminhos

Em que o imortal espírito mutilei

Em longas e fatigantes travessias.

A face macerada, a mente entorpecida,

O rumo orientei por vales e montanhas.

Às vezes me perdendo em negras penedias

Em trilhas intemporais, em vias sem retorno,



Escrito por Nilson Patriota às 08h09
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Continuação...

Onde estive a buscar o ancestral modelo

Da Anima cosmogônica em que se esboçou

Ao acaso, talvez, o sopro original

(Do qual nada se sabe por que nada contém)

Até se fazer Verbo e então tudo abranger.

Em conseqüência disso, e também sem querer,

Anáfora do que fui eu me tornei

Oriundo talvez de delirante sonho

Ou de mera fusão de gases e metais.

Um pobre ser humano em seu papel

Sem saber explicar sua mística ruína

De viver neste cosmo que encolhe e dilata

No oco espaço morto e no eterno vácuo,

Sem memória de mim nem de ninguém,

Girando, febrilmente, ardorosamente,

Em elípticas rotações, em círculos perfeitos,

Em formas helicoidais que se dilatam,

E por vezes se lançam em cônicos buracos

De negra convergência e de perenes vazios,

Sorvendo e recriando abismos siderais.

Sem jamais entender a humana presença

- Rastro destruidor por onde quer que passe

Qual formiguinha voraz que a tudo mata.

Que faço eu, então, nesse mundo de prodígios

Onde nascem e circulam planetas e galáxias

Morfológicos gigantes de formas desiguais,

Ovais ou achatadas, nascentes ou fi nais,

Dependentes apenas da ordem que expressam

Registrada nos genes da origem astral,



Escrito por Nilson Patriota às 08h09
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Continuação...

Nos modos e posturas, nos perfi s e contornos,

De assimétricas, esconsas e tortas curvaturas,

Que nascem e se extinguem ao bel prazer

De deuses a brincar com fogos de artifícios

Num orbe que se faz e se refaz tão rápido

Como o piscar do olho azul de uma mulher

De suave presença e lasciva beleza,

De trejeitos fugazes e ardilosos meneios,

Tão semelhante aos gestos da gazela,

À leveza da asa, da pluma que se alça,

Que dança e some no ar em mil giradas?

...Suave qual promessa de idílio,

Que decerto alimenta o pitagórico sonho

Do Eterno Retorno expresso no desejo

De agora indagar por outras aventuras

Centauro qual Perseu que eu vi decapitar

A medonha Medusa, em fragoroso embate,

Na grega Acrópole, no templo de Atenas,

E tudo acontecendo num relance?

No refl exo de luz na brônzea face côncava

O escudo de Atenas fez-se speculum

Que a imagem da górgona projetou

Pondo instantâneo fi m à sua mágica.



Escrito por Nilson Patriota às 08h08
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Continuação...

Em seu nicho/castelo a aguerrida deusa

Que estupenda fama e ouro concentrava

Com a guarda de Medusa protegia-se,

Por ser dos outros deuses invejada.

Por que devo eu levar em conta

Triviais usanças e lembranças

Que o mundo globalizado esqueceu?

Se a morte de Raquel enlutou o ambiente

E fez juntar curiosos no asfalto da frente?

Por que judeus e palestinos digladiam-se

Visando a posse da bélica trincheira

Do edifício onde o suicídio aconteceu?

Dessa história insólita tenho a guarda,

Pois em iídiche anotei no Anuário Hebreu,

Com natural rigor os martírios narrados.

Oh deuses tutelares, devolvei-me a lembrança!

Mnemósine! Oh caprichosa deidade imortal,

Dos loucos alentai a rútila fantasia,

E acendei em cada mente um facho,

Pois preciso urgentemente recordar

Que minha mãe dizia: “Era uma vez...”

Enquanto me aninhava nos braços maternais

Ao ritmo dolente de velhas narrativas

Acerca de sultões, mouras e fadas,

Das mil e uma noites encantadas.



Escrito por Nilson Patriota às 08h07
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Mas na manhã seguinte a mestra rejeitava

As soletradas frases do arcaico Português

Da Geografi a do grego Ptolomeu

Com a qual o mundo antigo visitei.

Na trama factícia prevalece a quimera

Que supera o real na miragem do sonho.

Verdadeiras ou falsas tais lembranças?

Simples alegorias que a mente sã recria?

Que a lenda e a fantasia ignoraram

Nos escuros recintos da memória?

Que importa! Quando por sorte

Nelas muito felizes embarcamos

Ao sabor da aventura que ao factício impele

Certamente de novo as encontramos

Perdidas desde muito nos desvãos

Da construção ancestral que sobrevive

Na forma de dizermos e fazermos,

No modo de empregar o verbo ser.

E, antes que a noite chegue sobre a vida,

Já que necessária a morte se aproxima,

Que importa viver no certo ou no errado,

Se negado ou provado é todo o dado

Que se refere ao caso de um deus



Escrito por Nilson Patriota às 08h06
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Viajante empobrecido entre mendigos,

Morto e pendente da cruz como um mortal?

Mas se a cruz era rúnica ou modelo espalmado

Com os braços voltados para o sul,

Não há porque negar, já que foi justifi cado,

Que acima de Anás mandava o abstrato

Da perda e do poder, da posição, do orgulho.

Junte-se a isso o gesto das mãos sendo lavadas

Por Pilatos, a quem se imputou, depois,

A injusta entregar de um justo à morte

Encenada no picadeiro do circo da Caveira.

Que a miserável gente o circo sempre assista,

Pois nada mudará na alma humana

Construída ao modelo besta, à base da rudeza.

E mesmo que um outro deus desça dos céus

A se sacrifi car mais uma vez pelos bastardos

Homens, eles sem pestanejar o trocarão

Como ao pobre Jesus por Barrabás.



Escrito por Nilson Patriota às 07h57
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Deste modo aprendi, pois assim me narraram

Rabinos, fariseus e instruídos homens,

No texto hebreu que o tempo conservou.

Também sou imputado a ser sacrifi cado.

Mas que fazer, então, se decidido for

Por xamãs guardiões e outros seres probos

Que o nome fi zeram por cultivar o Bem,

Se a minha crença é frágil e pesa um nada?

Se nada sou, se nada sei, se nada aprenderei,

Certamente é porque não me convém.

Na trama factícia prevalece a quimera

Que supera o real na miragem do sonho.



Escrito por Nilson Patriota às 07h55
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