NILSON PATRIOTA ON LINE


 DE VOLTA AO TEMA FENÍCIO

 

Sabemos que a  o Professor Cyro Gordon, tradutor da inscrição fenícia de Pouso Alto, indica o ano 532 a.C. como aquele em que se deu a viagem dos cananeus sidônios ao Ocidente. O Professor levou em conta o fato de que a tal viagem ocorreu no reinado de Hiram III, o rei Mercador.

O reinado de Hirã, que foi de vinte anos, teve inicio em 553 a.C. e terminou em 533 a.C. A viagem, que hoje nos parece excepcional, foi na verdade uma arriscada aventura marítima realizada por marinheiros experientes e afeitos a longas travessias.

Os fenícios foram marujos competentes no manejo de barcos construídos visando viagens oceânicas. Eram embarcações de fácil maneabilidade, fabricadas para vencer consideráveis distâncias. Podiam até mesmo enfrentar mares tempestuosos, como os que conheceram por ocasião do périplo africano.

O faraó Necáu I (séc. VII a.C.) precisava de ouro em pó, marfim e púrpura. Convocou a sua presença uma porção de mercantes fenícios. A eles encomendou vários carregamentos de ouro e metais preciosos. Os fenícios sabiam onde encontrar a mercadoria encomendada. Circunavegando a África eles a foram buscar no que atualmente se acredita terem sido as minas do rei Salomão. Essa circunavegação que há 2.800 anos transpôs o cabo das Tormentas trouxe ouro para o governante egípcio e muito lucro para os que a realizaram.

O périplo em torno da África possibilitou o reconhecimento do continente negro. Tudo o que ali havia de mais valioso, como  diamantes e ouro, marfim e púrpura, foi colhido pelos fenícios. É possível que os cartagineses (que também viajavam através do Mar do Norte, onde se situavam ilhas do estanho), foram detentores de tecnologia que permitia longas singraduras. No mar, eles  estabeleciam a posição de seus navios pela observação das constelações.

Qualquer um que haja estudado o regime de ventos e correntes de ambos os lados da linha equinocial, sabe que a separação do navio cananeu dos demais com que viajava não significa um fato excepcional. Por que assim é o Atlântico: dominado por ventos e correntes. Durante as viagens às Índias e ao Brasil aconteceram semelhantes desgarres. Citemos como exemplo, o afastamento e naufrágio da nau de Vasco de Ataíde, separada da esquadra cabralina quando ao longe avistava a ilha de São Nicolau, de Cabo Verde, pela qual a esquadra havia passado. 



Escrito por Nilson Patriota às 13h03
[ ] [ envie esta mensagem ]


Continuação...

Que foi feito desse punhado de sidônios que em 532 a.C. aportou ao Brasil, deixando o registro desse feito na inscrição de Pouso Alto? Terão eles permanecido por toda a vida na “ilha” ou intentaram o regresso ao Mediterrâneo, campo de suas atividades mercantis?

Há uma fonte salva por uma referência grega ao aniquilamento de Cartago1, ao fim da terceira guerra púnica, que parece referir o episódio aqui comentado, se não for a outro semelhante. Gonzalo Fernández de Oviedo, 2 na História geral das Índias alude a Frei Teófilo de Ferrara, o Cremonense, ao tratar romano Julio Solino citando o grego Aristóteles ( De admirandis in natura auditis). Conta Aristóteles que um barco com mercadores havia ultrapassado o Estreito de Gibraltar, perdendo-se no Atlântico.  Colhido por ventos e correntes foi o tal barco levado a uma “grande ilha”, constatando seus ocupantes que a tal “ilha” se encontrava em estado natural, sem jamais haver sido habitada, senão por bestas e feras. Razão por que se conservara silvestre, coberta de grandes árvores e cortada por rios apropriados à navegação. Fértil em toda a costa, nela abundava tudo o que fosse plantado e que, nascendo crescia em grande uberdade. A “ilha”, além de remota, achava-se a uma distância de muitos dias de viagem da terra firme da África, de onde o barco fora afastado quando  circunavegava o continente.

Ao chegar os cartagineses a essa “grande ilha”, sentiram-se abismados com a fertilidade da terra, a salubridade do ar e as grandes serranias. Então começaram a povoá-la. Muitos anos ali ficaram até que a saudade da pátria e dos entes queridos obrigou-os a voltar. Mas isso só foi possível porque eles conseguiram construir uma embarcação que os levou de volta a Cartago. Ao tentar  informar seus patrícios sobre a fecunda “ilha”, não mereceram crédito Caíram em desgraça e se tornaram mal vistos pelo Senado que mandaria  apregoar um édito decretando pena de morte para todo aquele que espalhasse histórias maravilhosas sobre a “grande lha” do Atlântico. Por pouco não foram mortos. Temiam as autoridades que se a gente fenícia embarcasse em massa em demanda da “ilha”, despovoaria o país. Mas exigindo absoluto silêncio sobre o assunto, evitavam que dita “ilha” caísse nas mãos de concorrente capaz de ameaçar a opulência de Cartago, a sua própria autonomia e liberdade.

Então a “grande ilha” foi esquecida.

Resumindo: seja verdadeiro ou apócrifo o texto referido por Oviedo não perde seu valor informativo e incitante. Sabemos que o Atlântico vem sendo freqüentado por fenícios desde o primeiro milênio antes de Cristo. Há, porém, possibilidade de ter sido uma via natural de tráfico marítimo ao tempo dos Atlântes, ou seja, há 12 000 mil anos ou mais. No século IV a.C. Cartago ainda era a grande potência marítima do Mediterrâneo Ocidental, pelo que Aristóteles e outros historiadores obtiveram informações de fontes semelhantes ao Cremonense, e que de um modo ou de outro teriam chance de seguir tendências e passos da Humanidade.

 Convenhamos, a descrição feita pelos fenícios pouco difere da que faz Pero Vaz de Caminha, em 1500, acerca do Brasil, ao rei Dom Manoel: “Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa” (...)”as águas são muitas, infindas”(...)”dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”... 4

 

1)Cidade da África, fundada em 814 a.C. pelos fenícios, numa península próxima ao local onde hoje se acha a cidade de Túnis. Cartago tornou-se a capital de uma reública marítima muito poderosa, que substituiu Tiro no Ocidente, criou colônias na Sicília e Espanha, enviou navegadores ao Atlântico norte e sustentou  guerras prolongadas contra Roma, sua rival,  as chamadas guerras púnicas (264-146 a.C.) Tornada colônia romana  (sé.I a.C.) tornou-se a capital da África Romana e depois também da África cristã. Tomada em 439 d.C. pelos vândalos e em 698 pelos árabes, entrou em decadência.

2)Gonzalo Fernádez de Oviedo; Historia general de las Indias, Livro Segundo, cap III.

3) Obra do geógrafo romano C. Julio Solino, sitada por Oviedo no cap IXVIII..

4) Trechos da carta de Pero Vaz de Caminha a Dom. Manoel de Portugal.      



Escrito por Nilson Patriota às 12h53
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
01/06/2008 a 07/06/2008
18/05/2008 a 24/05/2008
21/10/2007 a 27/10/2007
07/10/2007 a 13/10/2007
30/09/2007 a 06/10/2007
16/09/2007 a 22/09/2007
29/07/2007 a 04/08/2007
15/07/2007 a 21/07/2007
08/07/2007 a 14/07/2007
01/07/2007 a 07/07/2007
24/06/2007 a 30/06/2007
17/06/2007 a 23/06/2007
10/06/2007 a 16/06/2007
03/06/2007 a 09/06/2007
27/05/2007 a 02/06/2007
20/05/2007 a 26/05/2007
13/05/2007 a 19/05/2007
29/04/2007 a 05/05/2007
22/04/2007 a 28/04/2007
15/04/2007 a 21/04/2007
01/04/2007 a 07/04/2007
18/03/2007 a 24/03/2007
25/02/2007 a 03/03/2007
18/02/2007 a 24/02/2007
28/01/2007 a 03/02/2007
21/01/2007 a 27/01/2007
07/01/2007 a 13/01/2007
31/12/2006 a 06/01/2007
24/12/2006 a 30/12/2006
17/12/2006 a 23/12/2006
10/12/2006 a 16/12/2006
03/12/2006 a 09/12/2006
26/11/2006 a 02/12/2006
19/11/2006 a 25/11/2006
12/11/2006 a 18/11/2006
05/11/2006 a 11/11/2006
29/10/2006 a 04/11/2006
22/10/2006 a 28/10/2006
15/10/2006 a 21/10/2006
08/10/2006 a 14/10/2006
01/10/2006 a 07/10/2006
24/09/2006 a 30/09/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Roberto Patriota.Net
 Folha do Mato Grande On Line