Continuação...
Que foi feito desse punhado de sidônios que em 532 a.C. aportou ao Brasil, deixando o registro desse feito na inscrição de Pouso Alto? Terão eles permanecido por toda a vida na “ilha” ou intentaram o regresso ao Mediterrâneo, campo de suas atividades mercantis?
Há uma fonte salva por uma referência grega ao aniquilamento de Cartago1, ao fim da terceira guerra púnica, que parece referir o episódio aqui comentado, se não for a outro semelhante. Gonzalo Fernández de Oviedo, 2 na História geral das Índias alude a Frei Teófilo de Ferrara, o Cremonense, ao tratar romano Julio Solino citando o grego Aristóteles ( De admirandis in natura auditis). Conta Aristóteles que um barco com mercadores havia ultrapassado o Estreito de Gibraltar, perdendo-se no Atlântico. Colhido por ventos e correntes foi o tal barco levado a uma “grande ilha”, constatando seus ocupantes que a tal “ilha” se encontrava em estado natural, sem jamais haver sido habitada, senão por bestas e feras. Razão por que se conservara silvestre, coberta de grandes árvores e cortada por rios apropriados à navegação. Fértil em toda a costa, nela abundava tudo o que fosse plantado e que, nascendo crescia em grande uberdade. A “ilha”, além de remota, achava-se a uma distância de muitos dias de viagem da terra firme da África, de onde o barco fora afastado quando circunavegava o continente.
Ao chegar os cartagineses a essa “grande ilha”, sentiram-se abismados com a fertilidade da terra, a salubridade do ar e as grandes serranias. Então começaram a povoá-la. Muitos anos ali ficaram até que a saudade da pátria e dos entes queridos obrigou-os a voltar. Mas isso só foi possível porque eles conseguiram construir uma embarcação que os levou de volta a Cartago. Ao tentar informar seus patrícios sobre a fecunda “ilha”, não mereceram crédito Caíram em desgraça e se tornaram mal vistos pelo Senado que mandaria apregoar um édito decretando pena de morte para todo aquele que espalhasse histórias maravilhosas sobre a “grande lha” do Atlântico. Por pouco não foram mortos. Temiam as autoridades que se a gente fenícia embarcasse em massa em demanda da “ilha”, despovoaria o país. Mas exigindo absoluto silêncio sobre o assunto, evitavam que dita “ilha” caísse nas mãos de concorrente capaz de ameaçar a opulência de Cartago, a sua própria autonomia e liberdade.
Então a “grande ilha” foi esquecida.
Resumindo: seja verdadeiro ou apócrifo o texto referido por Oviedo não perde seu valor informativo e incitante. Sabemos que o Atlântico vem sendo freqüentado por fenícios desde o primeiro milênio antes de Cristo. Há, porém, possibilidade de ter sido uma via natural de tráfico marítimo ao tempo dos Atlântes, ou seja, há 12 000 mil anos ou mais. No século IV a.C. Cartago ainda era a grande potência marítima do Mediterrâneo Ocidental, pelo que Aristóteles e outros historiadores obtiveram informações de fontes semelhantes ao Cremonense, e que de um modo ou de outro teriam chance de seguir tendências e passos da Humanidade.
Convenhamos, a descrição feita pelos fenícios pouco difere da que faz Pero Vaz de Caminha, em 1500, acerca do Brasil, ao rei Dom Manoel: “Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa” (...)”as águas são muitas, infindas”(...)”dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”... 4
1)Cidade da África, fundada em 814 a.C. pelos fenícios, numa península próxima ao local onde hoje se acha a cidade de Túnis. Cartago tornou-se a capital de uma reública marítima muito poderosa, que substituiu Tiro no Ocidente, criou colônias na Sicília e Espanha, enviou navegadores ao Atlântico norte e sustentou guerras prolongadas contra Roma, sua rival, as chamadas guerras púnicas (264-146 a.C.) Tornada colônia romana (sé.I a.C.) tornou-se a capital da África Romana e depois também da África cristã. Tomada em 439 d.C. pelos vândalos e em 698 pelos árabes, entrou em decadência.
2)Gonzalo Fernádez de Oviedo; Historia general de las Indias, Livro Segundo, cap III.
3) Obra do geógrafo romano C. Julio Solino, sitada por Oviedo no cap IXVIII..