ASPECTOS DO BRASIL RECÉM-DESCOBERTO
Quando por iniciativa ou por acaso o homem branco se encontrou com a América nos albores do século XVI, sua mentalidade achava-se intoxicada pelo uso da violência e a ambição de ouro. Tocado pela cobiça, nada enxergava além daquilo que pudesse materialmente desfrutar. Iletrado, carente de autonomia e liberdade, ele ansiava por uma vida livre e opulenta, onde fosse possível viver longe do olhar policialesco dos agentes do rei e das maquinações dos tribunais inquisitoriais. Para levar a vida desejável com a qual sonhava, precisava da independência que, de alguma forma, o dinheiro ensejava. Como então iria se satisfazer com algo que não fosse riqueza? Daí o porquê da corrida às novas terras recém-encontradas. Sem perspectiva em sua aldeia, passou a viver alumbrado com a possibilidade de conquistar a fama.
Obcecado pelo poder, fascinado pela prosperidade, ele se engajou na aventura ultramarina, na qual foi marinheiro, soldado, expedicionário e explorador. Seu sonho era se deparar com uma mina de ouro a céu aberto, pois desejava passar o que lhe restava de vida cercado de riquezas...
Mas a realidade geralmente opõe-se ao sonho. O mundo novo não era o que sobre ele diziam. Era apenas uma selva onde pequena possibilidade havia de retorno.
Entre a costa arenosa e o mar aberto, a faixa de arrecifes formara uma barreira natural a sofrear a impetuosidade da ressaca. Seguindo o contorno continental ou penetrando o seio da hinterlândia, somente a espessa mata. Longe do mar, nem os alísios chegavam.
Até onde a vista podia alcançar tudo ainda estava por fazer. Em certos trechos a floresta escura e quente impressionava. Luxuriante, inextricável, não consentia ser pelo homem branco devassada. Densa e aquecida, mesmo à margem das águas reverberantes, era morada natural de mitos e feras. Nada melhor podia oferecer além de pavores e riscos.
Os rios vinham de longe. Deixavam as serranias para serpear na planície cada vez mais cavada pelos seus tributários. Ao se embrenharem em solos pedregosos, abriam fendas na base das montanhas. Entre estrondos, saltavam precipícios. Em quedas monumentais, transformavam-se em quilométricas cachoeiras.
Escrito por Nilson Patriota às 14h31
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Continuação...
Além do assombro que emanava da grandiosidade das coisas, nada mais era visto. Muito menos riquezas.
Ao atrasado branco que aqui aportou, o país nada significava. Para o rude português o gigantismo das matas e dos rios muito pouco importava. O que lhe interessava era o ouro. Mas este a selva ocultava.
Por isso os que aqui estiveram nos primeiros anos da tentativa colonizadora, nenhum valor enxergaram em matas, rios, ilhas e lagos. Daí o país ter sido pouco notado e ainda menos analisado. O “portuga” analfabeto só descobriu papagaios, macacos, sagüis e pássaros canoros. As famosas “drogas do sertão” resumiam-se a malagueta, cana fístula, algodão e ervas medicinais.
Segundo a mentalidade utilitarista da época o Brasil podia ter aspecto de país encantado, mas continuava sendo uma terra de ninguém. Habitado por selvagens que, embora prestativos, não eram confiáveis, não servia para se viver. Os índios se devoravam porque não tinham alma, conforme o conceito sobre eles feito pelos escravagistas. Então, ao invés de tratá-los amigavelmente, acharam que o melhor a fazer seria domá-los, transformando-os em mão-de-obra escrava. Manietá-los e pô-los a trabalhar no corte e transporte de pau-de-tinta, no eito dos canaviais, na função de bestas de tração. Para eles isto seria o mais apropriado. E, assim pensando, assim fizeram.
Ainda hoje em dia soa como um bordão a empáfia com que Hernan Cortês justificara a matança e o saque de milhares de índios mexicanos:
Yo no vine aqui para cultivar la tierra como un labriego, sino para buscar oro!”
A atrevida sentença do aventureiro espanhol caberia perfeitamente na boca de qualquer português do século XV. Espanhóis e portugueses eram povos ibéricos e tinham propósitos semelhantes. Através de um Tratado endossado por papas, transformaram em propriedades suas as terras a serem descobertas de 1494 em diante.
Raros, raríssimos, os portugueses e espanhóis que foram capazes de pensar com a isenção de um Claude d’Abbeville e de um Yves d’ Évreux, que aqui estiveram sonhando com a França Antártica do Maranhão. Suas respectivas narrativas reportam-se ao tempo de La Ravardière e Jacques Riffault. Atrapalhou-os a campanha portuguesa de Jerônimo de Albuquerque. Pois para eles o Maranhão seria o paraíso terrenal. Contra os capuchinhos ficou a censura do cacique Japiaçu, quando da recusa de ambos a aceitar dormir com as índias cujos corpos molhados haviam despertado neles tanta curiosidade.
“Admira-me que não desejeis mulheres... – disse o cacique –, ao contrário dos outros franceses que conosco negociam há quarenta e tantos anos” (...) etc., etc....
Escrito por Nilson Patriota às 14h31
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MAPAS
Durante a Idade Média, que pode ter sido lenta, porém jamais estéril, a produção cartográfica sofreu bons e maus momentos. Na Europa romanizada, onde se concentrava o grosso do conhecimento, imperou o mapa-múndi circular. O Orbis Terrarum.
Mas os mapas dessa época, influenciados pelas superstições acabaram perdendo a exatidão geográfica. Em tais cartografias a Terra Santa sempre ocupava o centro do universo. E conforme a concepção religiosa vigente eram bem mais fiéis à fantasia do que à realidade. Por essa época, os conhecimentos matemáticos foram substituídos por interpretações artísticas inventivas. Dessa decadência cartográfica, estimulada pela superstição religiosa, escaparam os árabes. Ao tratar cientificamente a cartografia, os árabes obtiveram uma produção superior à européia. Todavia, foi na Europa onde surgiu o Renascimento, trazendo um grande leque de idéias renovadoras na ciência e nas artes. Uma delas, a navegação astronômica trazendo a conseqüente expansão marítima.
Antes do início do século XV, afirma Paulo Prado, “recomeçava na história do mundo o misterioso impulso que de séculos em séculos põe em movimento as massas humanas, após os longos repousos em que as civilizações nascem, desenvolvem-se e morrem.” (Retrato do Brasil (p.55, 8.ªm grande leque de to, que trouxe ida matrstiço. Nos mapas os conhecimentos matem8.ª88 edição, Companhia das Letras- São Paulo – 1977).
O Brasil, por suas dimensões, foi a maior conquista da expansão marítima portuguesa. Por milênios havia jazido ignorado no interior de suas matas e das suas muitas águas. Seus panoramas causaram admiração e surpresa aos seus descobridores. Sentindo, todavia, a primeira emoção e o passageiro encanto, o rude português quinhentista não se apercebeu da importância de haver encontrado um imenso país. Não percebeu a poesia da paisagem nem cuidou de sua luxuriante beleza. No primeiro momento ele se impressiona com o gigantismo do arvoredo e da terra, como faz Pero Vaz de Caminha em carta a Dom Manuel I, mas depois não leva mais em conta a importância estratégica de um país encravado em um novo mundo. Talvez por que a terra vasta e selvagem não tivesse nome, ele não lhe deu muita importância.
Reduzida à solidão de suas matas e à pequena nomenclatura de seus acidentes costeiros, a nova terra parecia ter pouco a oferecer, quando de fato tudo tinha. Desatento, o português não deu importância à “língua geral” daqueles que habitavam as imediações do contorno costeiro, bem próximos das embocaduras dos rios, enseadas e angras.
Outros povos de “língua travada” ocupavam vales e montes do interior, desfrutando de abundante caça e numerosos frutos. Ao fugir do perigo sabiam se ocultar na densa selva. O que fizeram por mais de duzentos anos.
Em sua transição haviam alcançado o neolítico. O mundo para eles adquiria significação. O mar, rolando com marulhante solidão e se atirando aos penhascos da costa. Arfando, exalando bramidos. Resfolegando queixas. O tempo passando indiferente ao viver das feras e dos homens.
E tudo era Brasil, sem que soubessem ao certo.
Escrito por Nilson Patriota às 10h03
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