NOVAMENTE O VERÃO
E tudo começou no dia em que tentei ler o jornal e não consegui passar dos subtítulos e das manchetes. Então resolvi consultar uma especialista. Conversei com amigos e um deles, Diógenes da Cunha Lima, indicou-me o médico Marco Rey. Na Prontoclínica fui atendido por Montinho, Anchieta e o próprio Marco. Prontamente me submeteram a um exame sumário cujo resultado veio com um gracejo de Marco:
- Eita – disse ele olhando para os colegas e rindo para mim. – Rapaz, que baita catarata! Bonita, apetitosa e gordinha como ela só. É mesmo das que gosto!
Os presentes sorriem.
- Ca-ca-catarata? – indaguei titubeando, o coração aos pulos e a voz oscilando num diapasão indicativo de dúvida e de temor, uma vez que sempre me sinto receoso com a perspectiva do ato cirúrgico, seja ele o mais corriqueiro, o mais simples.
-Somente catarata, e nada mais – Sentenciou. Mesmo assim, precisamos examiná-lo mais demoradamente, do jeito que manda o figurino. Você vai ser visto por todas essas máquinas – disse apontando para aquela aparelhagem que se assemelha ás geringonças que, no cinema, indicam o futurismo e dão o necessário realismo às produções da ficção científica.
- Por favor, Nilson, entre aqui nesta sala. – convidou-me. E eu, embora hesitante e sob uma intensa impressão penetrei.
Num ambiente de luz e sonho, onde aparelhos ópticos se enfileiram ao longo de paredes de mármore e marfim, sou instruído a olhar através de lentes luminosas – umas côncavas, outras convexas, algumas planas e lineares, outras arredondadas, coloridas e mágicas. Na sala, respiro uma atmosfera lunar com algo de perfume hipnótico.
Os médicos me examinam e me dizem:
- Tudo bem. Volte daqui a uma semana. Seus olhos vão agradecer.
Chego na hora aprazada. Uma equipe de médicos e enfermeiras toma conta de mim. Entre um colírio e a tomada do pulso, para averiguação, aos poucos me familiarizo com o meio extraterrestre e seus habitantes. Com réguas e sextantes, miraculosos microscópios e misteriosas lunetas, a medida dos olhos é tomada. Cálculos matemáticos são feitos, a Lei da Relatividade é discutida e novamente analisada. Vozes sussurradas, ao longe, acordam procedimentos a serem tomados. Velhos deuses e mitológicas formas de Anúbis e imaginários seres me observam. Um cristo crucificado me abençoa. Tem início a cirurgia. Estranhamente, nada sinto, a não ser uma leve picada de agulha no braço. E enquanto os trabalhos prosseguem, vem o sonho. Por minha mente passam e repassam imagens. Umas momentâneas, outras mais duradouras. Ao longe descortino o clarão atenuado de remotas auroras, o estável brilho das constelações zodiacais. Um universo nasce do negror primordial dos gases cósmicos. De meu observatório assisto ao surgimento da Libra e do Camelo. Localizo a Ursa Menor e me dou conta do ígneo magma em que borbulha a incrível Canopus. Em torno de mim o universo se agita em mudanças. Nasce e se consome em fogo, em luz.
Aos poucos exploro infinitas distâncias. Corpos solitários se deslocam e vagueiam em galáxias e espirais gasosas. .
Por entre colunas de turquesa e cristal no horizonte, a tênue madrugada.deixa-se atravessar pelos raios solares. Sou envolvido por um súbito brilho. Então alguém me chama. Acordo e fixo o olhar nas pessoas em volta.. Seus rostos são calmos. O das mulheres, principalmente. Elas têm olhos esmaltados e esguios pescoços. Seus gestos são lânguidos. Respiro aromas de licores e vinhos enquanto uma revoada de anjos graciosos, como Cupidos, esvoaçam sobre mim. Um exército trajando branco me protege..
- Pronto, terminamos. Você já pode se levantar. Repouse um pouco em seu apartamento, e depois pode ir para casa. Poder ler, se quiser, e ver televisão. Coma o que está acostumado a comer. Não há resguardo – diz o Dr.Marco, com um sorriso feliz na face calma. – Gastamos seis minutos. Você não acha que foi tempo demais?
- Estou estatelado. Isso é possível? Não senti nada.
- É assim mesmo. Evitamos incomodar o paciente.
Sem pós-operatório e sem problemas, agora me dedico a ver a luz do mundo. Andando a pé, ao longo das calçadas, ou de carro, ao lado de Maria Emília, vejo o novo brilho das manhãs e o esmaecer do pôr-do-sol. Através da vidraça, aprecio a chuva caindo nos telhados. Formando gotas de cristal nas folhas e flores das árvores. De minha janela descortino o azul do céu e o verde esmaecido das águas oceânicas.Feliz, denoto as cores fortes do verão.
Mas há um fato, meu caro doutor Marco, que não me agrada. Levei um susto danado ao me ver no espelho depois de operado. Pois não é que o matreiro espelho colocou outro sujeito em meu lugar? Isso mesmo. Agora, ao me olhar, vejo um cara desgastado, de rugas e traços endurecidos, diante de mim. Isso é chato. Coisa estranha acontece quando olho as outras pessoas. Cavilosamente deram para envelhecer, como se isso fosse possível da noite para o dia, em apenas uma semana. Entretanto, que importa? A visão vale infinitamente mais que a beleza, sempre egoísta, simplória e passageira.
Você, Marco Rey, pode se orgulhar. Você sabe fabricar belos verões, embora nos conscientize de nossas tatuagens e arranhões. A culpa não é sua, é da vida, que nos desgasta e envelhece.
Escrito por Nilson Patriota às 10h57
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|