A LUA SOBRE AS ÁGUAS
Ontem, como o cristal desbotado
De imemorável aurora,
Pendia e se debruçava sobre as águas
[E a vertigem do tempo]
A lua de Catulo da Paixão Cearense
E Chiquinha Gonzaga.
E enquanto a brisa volúvel
Marolas encrespava no calmo Potengi
[O rio dos boêmios e poetas de outrora]
Qual metáfora do cego
E no entanto luminoso olhar de Homero
[Que a Ulisses guiou por ilhas ignotas
E encapelados mares
Que sua idolatrada Ítaca
Da pujante Tróia separavam]
A propícia lua trouxe-me à memória
Serestas de Itajubá e Deolindo Lima
Lapidares sonetos de Gothardo.
Ébrios de luz e de vivências nativas
Sonharam mil amores nossos bardos
E níveas madrugadas animaram
De violão em punho a entoar canções.
E para que mais perfeita fosse
A peça trabalhada
Ao urdirem a trama de seus nímios versos
Davam, por precaução, uma última limada
Na álgebra da rima, na feitura da métrica
Das canções e modinhas soluçadas.
Livres agora do rotineiro esforço
Da modesta vida em que se empenharam
E já indiferentes ao tempo que se escoa
–Ao suor do mortal, ao sal de cada lágrima –
Cantam líricos poemas entre os astros:
Compensados – não menos - por saberem
Que os românticos versos que talham
Hoje são para nós um imortal legado
Na suntuosa majestade de seu brilho